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BIBLIOTECA )$] CULCUnijS

KARMA-YOGA

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POR

SWAMI VIVEKANANDA.

SEGUNDA EDIÇÃO.

SUMÁRIO.

PÁG.

Karma em seu efeito sobre o caráter . . . r

Cada um é grande em seu próprio lugar .

A caridade desinteressada é o segredo do trabalho que salva

"O que é dever?

Ajudamos a nós mesmos, não ao mundo . . . -

O desapego é a completa abnegação .

Liberdade '..

O ideal do Karma-Yoga . . . .

Swami Vivekananda.

KARMA-YOGA.

KARMA EM SEU EFEITO SOBRE O CARÁTER.

A palavra Karma deriva do sânscrito "Kri", fazer; tudo o que é feito é Karma.

Tecnicamente, esta palavra também significa os efeitos das ações.

Em conexão com a metafísica, às vezes significa os efeitos dos quais nossas ações passadas são as causas. Mas no Karma-Yoga temos simplesmente de usar a palavra "Karma" como significando trabalho.

A meta que toda a humanidade deve almejar é o conhecimento da verdade; esse é o único ideal colocado diante de nós pela filosofia oriental.

O prazer não é a meta do homem, mas o conhecimento.

Prazer e felicidade chegam ao fim.

É um erro do homem supor que o prazer seja a meta; a causa de todas as misérias que temos no mundo é

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que os homens tolamente pensam que o prazer seja a coisa ideal pela qual lutar.

Após algum tempo, o homem descobre que não é a felicidade, mas o conhecimento, em direção ao qual ele está caminhando, e que tanto o prazer quanto a dor são grandes mestres, e que ele aprende a conhecer a verdade tanto do bem quanto do mal.

Conforme o prazer e a dor passam diante de sua alma, deixam sobre ela diferentes imagens, e o resultado dessas impressões combinadas é o que se chama de "caráter" do homem. Se você tomar o caráter de qualquer homem, ele realmente não é senão o agregado de tendências, a soma total da inclinação de sua mente; você descobrirá que a miséria e a felicidade são fatores iguais na formação desse caráter; o bem e o mal têm uma participação igual na moldagem do caráter, e em alguns casos

a miséria é um mestre maior do que a felicidade.

Em

Estudando os grandes personagens que o mundo produziu, pode-se ver que, na vasta maioria dos casos, foi a miséria que lhes ensinou mais do que a felicidade; foi a pobreza que lhes ensinou mais do que a riqueza; os golpes trouxeram à tona seu fogo interior, mais do que os elogios.

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Ora, esse conhecimento, novamente, é inerente ao homem; nenhum conhecimento vem de fora; está tudo dentro.

O que dizemos que um homem "sabe", em linguagem psicológica estrita, deveria ser o que um homem "descobre" ou "desvela"; o que um homem "aprende" é realmente o que ele "descobre", ao retirar a cobertura de sua própria alma, que é uma mina de conhecimento infinito.

Dizemos que Newton descobriu a gravitação.

Estava ela sentada em algum canto esperando por ele? Estava em sua própria mente; chegou o tempo e ele a encontrou.

Todo conhecimento que o mundo já recebeu vem da mente; a biblioteca infinita do universo está em sua própria mente.

O mundo externo é simplesmente a sugestão, a ocasião, que o leva a estudar sua própria mente, mas o objeto de seu estudo é sempre sua própria mente.

A queda de uma maçã deu a sugestão a Newton, e ele estudou sua própria mente; ele reorganizou todos os elos anteriores de pensamento em sua mente e descobriu um novo elo entre eles, que chamamos de lei da gravitação.

Não estava na maçã nem em nada no centro da

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terra.

Assim, todo conhecimento, secular ou espiritual, está na mente humana.

Em muitos casos, não é descoberto, mas permanece coberto; e quando a cobertura está sendo lentamente removida, dizemos "estamos aprendendo", e todo avanço do conhecimento é produzido pelo avanço desse processo de descoberta.

O homem de quem esse véu está sendo levantado é o homem que sabe; o homem sobre quem ele jaz espesso é ignorante, e o homem de quem ele desapareceu inteiramente é onisciente, todo-sabedor.

Houve homens oniscientes e, acredito, ainda haverá; haverá miríades deles nos ciclos vindouros.

Como fogo em uma pedra de sílex, o conhecimento existe na mente; a sugestão é o atrito que traz à tona esse fogo.

Assim, com todos os nossos sentimentos e ações — nossas lágrimas e nossos sorrisos, nossas alegrias e nossas dores, nosso pranto e nosso riso, nossas maldições e nossas bênçãos, nossos elogios e nossas censuras — cada um destes, se estudarmos calmamente a nós mesmos, descobriremos ter sido extraído de nosso interior por outros tantos golpes desferidos.

O resultado é o que somos; todos esses golpes recebidos

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em conjunto são chamados de Karma, obra, ação.

Cada golpe físico e mental que é dado à alma para fazê-la emitir fagulhas, descobrir seu próprio poder e conhecimento, é Karma — sendo esta palavra usada em seu sentido mais amplo; assim, estamos todos realizando Karma o tempo todo em nossas vidas.

Eu falo com vocês; isso é Karma.

Vocês ouvem; isso é Karma.

Respiramos; isso é Karma.

Caminhamos; Karma.

Falamos; Karma.

Tudo o que fazemos, físico ou mental, é Karma, e isso está continuamente deixando suas marcas em nós.

Há certas obras que são, por assim dizer, o agregado, a soma total, de um grande número de obras menores.

Se nos colocarmos perto da praia e ouvirmos as ondas quebrando contra os seixos, pensamos que é um grande ruído, e no entanto sabemos que uma grande onda é realmente composta de milhões e milhões de minúsculas ondas; cada uma delas está fazendo um ruído, e contudo não captamos seu som — é somente quando se tornam o grande agregado que captamos o som alto.

Assim, cada pulsação do coração está contribuindo para o grande total de

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obra; certos tipos de obra nós sentimos e eles se tornam tangíveis para nós; eles são, ao mesmo tempo, o agregado de um número de pequenas obras.

Se você realmente quiser julgar o caráter de um homem, não olhe para suas grandes realizações.

Todo tolo pode se tornar um herói em um momento ou outro.

Observe um homem em suas ações mais comuns; essas são, de fato, as coisas que lhe revelarão o verdadeiro caráter de um grande homem.

Grandes ocasiões despertam até os mais baixos dos seres humanos para algum tipo de grandeza, mas somente é verdadeiramente grande aquele cujo caráter é sempre grande, o mesmo onde quer que esteja.

O Karma, em seu efeito sobre o caráter, é o mais tremendo poder com que o homem tem de lidar.

O homem é, por assim dizer, um centro, e está atraindo para si todos os poderes do universo, e nesse centro ele os funde a todos e os ejeta novamente numa grande corrente.

Tal centro é o homem real, o todo-poderoso, o onisciente, e ele atrai o universo inteiro para si; o bem e o mal, a miséria e a felicidade, tudo corre em sua direção,

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e se apega ao seu redor; e a partir deles ele forja a poderosa corrente de tendência chamada caráter e a lança para fora.

Assim como ele tem o poder de atrair qualquer coisa, tem também o poder de lançá-la para fora, para agir e frutificar.

Ora, todas as ações que vemos no mundo, todos os movimentos na sociedade humana, todas as obras que temos ao nosso redor são simplesmente a exibição do pensamento, a manifestação da vontade do homem.

Máquinas ou instrumentos, ou cidades, ou navios, ou navios de guerra, tudo é simplesmente a manifestação da vontade do homem; e essa vontade é causada pelo caráter, e o caráter é fabricado pelo Karma. Assim como é o Karma, assim é a manifestação da vontade.

Os muitos homens de vontade poderosa que o mundo produziu foram todos trabalhadores tremendo — homens enormes, gigantescos, com vontades amplas, poderosas o bastante para derrubar mundos; e eles obtiveram esse tipo de vontade por meio de trabalho persistente, através de eras e eras.

Uma vontade tão gigantesca como a de um Buda ou de um Jesus não pode ser obtida como resultado de obras em uma única vida, pois sabemos quem

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foram seus pais.

Não se sabe que seus pais jamais tenham dito uma palavra para o bem da humanidade.

Milhões e milhões de carpinteiros como José já se foram; milhões ainda vivem.

Milhões e milhões de reis insignificantes como o pai de Buda existiram no mundo. Se for apenas um caso de transmissão hereditária, como se explica que esse pequeno príncipe gracioso, que talvez nem fosse obedecido por seus próprios servos, tenha produzido esse filho, a quem meio mundo adora? Como se explica esse abismo entre o carpinteiro e seu filho, a quem milhões de seres humanos adoram como Deus? Isso não pode ser explicado por essa teoria da hereditariedade.

Esta gigantesca vontade que Buda lançou sobre o mundo, que surgiu de Jesitj, de onde veio? De onde veio esse acúmulo de poder? Deve ter existido através de eras e eras, crescendo continuamente cada vez mais, até irromper sobre a sociedade num Buda ou num Jesus; e sua influência tem continuado a rolar até os dias de hoje.

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E tudo isso é determinado pelo Karma, pelo trabalho.

Ninguém pode obter nada a menos que o mereça; esta é uma lei eterna; podemos às vezes pensar que não é assim, mas a longo prazo somos forçosamente convencidos de que é. Um homem pode lutar a vida inteira para ficar rico; pode enganar milhares, mas descobre no final que não merecia ficar rico, e sua vida se torna um problema e um incômodo para ele.

Podemos continuar acumulando coisas para nosso prazer físico, mas somente o que realmente merecemos é nosso.

Um tolo pode comprar todos os livros do mundo, e eles estarão em sua biblioteca; mas ele só poderá ler aqueles que merecer ler; e esse merecimento é produzido pelo Karma.

Nosso Karma determina o que merecemos e o que podemos assimilar.

Somos responsáveis pelo que somos; e tudo o que desejamos nos tornar, temos o poder de fazer de nós mesmos.

Se o que somos agora foi o resultado de nossas próprias ações passadas, certamente se segue que tudo o que desejamos ser no futuro pode ser produzido por nossas ações presentes; portanto

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temos de saber como agir.

Vocês dirão: "Qual é a utilidade de aprender como trabalhar? Todo mundo trabalha de alguma maneira ou outra neste mundo." Mas existe algo como dissipar nossas energias.

Com relação a este Karma-Yoga, é dito no GUd que é fazer o trabalho com habilidade e como uma ciência: saber como fazer o trabalho — isso trará os maiores resultados.

Vocês devem lembrar que todo trabalho é simplesmente destinado a trazer à tona o poder da mente que já está lá, a despertar a alma.

O poder está dentro de cada homem, e o conhecimento está lá; esses diferentes trabalhos são como golpes para trazê-lo à tona, para fazer esse gigante despertar.

e vários motivos; não pode haver trabalho sem motivo.

Algumas pessoas querem fama e trabalham pela fama.

Outras querem dinheiro e trabalham pelo dinheiro.

Outras querem poder e trabalham pelo poder.

Outras querem ir para o Céu e trabalham para ir para o Céu.

Outras querem deixar um nome quando morrem, como fazem na China, onde

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nenhum homem recebe um título até estar morto; e esse é um modo melhor, afinal, do que o nosso. Quando um homem faz algo muito bom lá, eles dão um título de nobreza ao seu pai, que está morto, ou ao seu avô.

Algumas pessoas trabalham para isso.

Alguns dos seguidores de certas seitas maometanas trabalham a vida inteira para terem um grande túmulo construído para eles quando morrerem.

Conheço seitas entre as quais, assim que uma criança nasce, os homens começam a preparar o seu túmulo; isso é, entre eles, o trabalho mais importante que um homem tem a fazer, e quanto maior e mais fino o túmulo, melhor se supõe que esteja o homem. Outros fazem boas obras como penitência; cometem todo tipo de ações perversas, depois erguem um templo, ou dão algo aos sacerdotes para comprá-los e obter deles um passaporte para o céu.

Pensam que esse tipo de beneficência os purificará e que escaparão impunes apesar de sua pecaminosidade.

Tais são alguns dos vários motivos para o trabalho.

Trabalho pelo trabalho em si.

Há alguns que são verdadeiramente o sal da terra em todos os países e

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que trabalham pelo trabalho em si, que não se importam com nome, ou fama, ou mesmo em ir para o céu.

Eles trabalham apenas porque o bem virá disso. Há outros que fazem o bem aos pobres e ajudam a humanidade por motivos ainda mais elevados, porque acreditam que é bom fazer o bem e amam tudo o que é bom.

Agora, para voltar a esta questão dos motivos, os de nome e fama.

Esses motivos raramente trazem resultado imediato; nome e fama, como regra, chegam até nós quando estamos velhos e quase terminamos com a vida.

Se eu, durante toda a minha vida, trabalhar por fama, geralmente descubro que obtenho um pouco dela a longo prazo; se trabalho por renome, luto a vida inteira por isso, descubro no fim que obtenho um pouco de renome; da mesma forma, se quero qualquer coisa material, obtenho-a a longo prazo, e aí para.

Mas se um homem trabalha sem nenhum motivo egoísta em vista, o que acontece com ele? Será que ele não ganha nada? Sim, ele se torna o maior ganhador. O altruísmo compensa mais, só que as pessoas não têm paciência para praticá-lo. Ele compensa mais também em valor físico.

Amor, verdade e altruísmo não são meras figuras de linguagem morais, mas formam nosso mais alto ideal, porque neles reside tal manifestação de poder.

Em primeiro lugar, um homem que pode trabalhar por cinco dias, ou mesmo por cinco minutos, sem nenhum motivo egoísta, sem pensar no futuro, no céu, em punição ou qualquer coisa do tipo, tem em si a capacidade de se tornar um poderoso gigante moral.

É difícil fazê-lo, mas no íntimo de nossos corações conhecemos o seu valor e o bem que ele traz.

É a maior manifestação de poder — essa tremenda contenção; o autocontrole é uma manifestação de poder mais elevada do que toda ação externa.

Uma carruagem com quatro cavalos pode descer uma colina desgovernada; ou o cocheiro pode conter os cavalos. Qual é a maior manifestação de poder: soltá-los ou contê-los? Uma bola voando pelo ar percorre uma longa distância e então cai. Outra tem seu voo interrompido ao chocar-se contra uma parede, e um calor intenso é gerado.

Assim, toda essa ação externa segue um motivo egoísta e desaparece mais cedo ou mais tarde; ela não fará o poder retornar a você, mas se o eu for contido, o poder se desenvolverá. A contenção desse tipo tenderá a produzir uma vontade poderosa, esse tipo de caráter que faz um Cristo ou um Buda.

Homens tolos não conhecem esse segredo; eles, no entanto, querem governar a humanidade. O tolo não sabe que até ele pode governar o mundo inteiro se trabalhar e esperar.

Espere alguns anos, restrinja a tola ideia de governar; e quando essa ideia tiver desaparecido por completo, sua vontade restringirá o universo.

Os homens correm atrás de alguns dólares e não pensam nada em enganar um semelhante para obter esses dólares; mas se eles se restringissem, em poucos anos desenvolveriam tais caracteres que lhes trariam milhões de dólares, se os quisessem.

Mas somos todos tão tolos! A maioria de nós não consegue ver além de alguns anos, assim como alguns animais não conseguem ver além de alguns passos.

Apenas um pequeno círculo estreito é o nosso mundo.

Não temos paciência para olhar além dele, e assim nos tornamos imorais e perversos.

Esta é a nossa fraqueza, a nossa impotência.

Mesmo as formas mais baixas de trabalho não devem ser desprezadas.

Deixe o homem, que não sabe nada melhor, trabalhar por fins egoístas, por nome e fama; mas todos devem sempre tentar alcançar motivos cada vez mais elevados e compreender o que tais motivos são.

Temos o direito de trabalhar, mas não aos frutos disso.” Deixe os frutos de lado, deixe os resultados de lado.

Quem se importa com resultados? Quando você deseja ajudar um homem, nunca pense sobre qual deveria ser a atitude do homem em relação a você.

Não se preocupe em compreender ou apreciar resultados.

Se você quer fazer uma grande ou boa obra, não se incomode com o que os resultados serão.

Surge uma questão difícil para consideração em relação a esse ideal de trabalho.

Atividade intensa é necessária; devemos sempre trabalhar. Não podemos viver um minuto sem trabalho.

O que então acontece com o descanso ideal? Aqui está uma imagem da luta da vida, o trabalho; nela somos girados rapidamente na corrente da vida social.

E aqui está outra imagem — a da calma, retirada renúncia; tudo é pacífico ao seu redor, há muito pouco de ruído e ostentação, e tudo é apenas natureza, animais e flores e montanhas.

Nenhuma dessas é, em si mesma, uma imagem perfeita.

Se um homem inadequado tenta viver à altura do ideal de renúncia, tão logo seja posto em contato com o turbilhão agitado do mundo, será esmagado por ele; assim como o peixe que vive nas profundezas do mar, tão logo vem à superfície, despedaça-se; o peso da água sobre ele o mantinha coeso.

Portanto, esses homens que vivem sempre em reclusão e nunca tentam o trabalho, tão logo são postos em contato com o mundo, despedaçam-se.

Pode um homem acostumado à turbulência e à pressa da vida viver de algum modo se vier a um lugar tranquilo? O único lugar para onde ele vai, se estiver vivo, é o manicômio.

O homem ideal é aquele que, em meio ao maior silêncio e solidão, encontra a mais intensa atividade, e em meio à mais intensa atividade encontra o silêncio e a solidão do deserto.

Ele aprendeu o segredo da contenção; ele se controlou.

Ele atravessa as ruas de uma grande cidade com todo o seu tráfego, e sua mente está tão calma como se estivesse numa caverna, onde nenhum som pudesse alcançá-lo; e ele está intensamente trabalhando o tempo todo.

Esse é o ideal do Karma-Yoga, e se você alcançou isso, você realmente aprendeu o segredo do trabalho.

Mas temos de começar do princípio, assumir os vários tipos de trabalho conforme nos chegam e, lentamente, tornar-nos cada vez mais desapegados a cada dia.

Devemos fazer o trabalho que coube à nossa sorte e descobrir o poder positivo que está por trás dele, impelindo-nos a fazer o trabalho; e, quase sem exceção, nos primeiros anos descobriremos que nossos motivos são sempre egoístas; mas gradualmente esse egoísmo se dissolverá por nossa persistência, e por fim chegará o tempo em que seremos capazes de fazer um trabalho verdadeiramente desapegado, ao menos de vez em quando.

Então, todos nós podemos esperar que algum dia, enquanto deslizamos pelo rio da vida, chegará a nós o tempo em que nos tornaremos perfeitamente desapegados; e no momento em que nos tornarmos assim, todas as nossas forças se concentrarão, e o conhecimento da verdade que então será nosso tornar-se-á de imediato bastante manifesto.

CAPÍTULO II.

CADA UM É GRANDE EM SEU PRÓPRIO LUGAR

Segundo a filosofia Sânkhya, há na natureza três tipos de forças, chamadas em sânscrito de Sattva, Rajas e Tamas.

Estas, manifestadas no mundo físico, são o que podemos chamar de atração, repulsão e o controle das duas.

Sattva é o que exerce o controle, Rajas é a repulsão, enquanto Tamas é a atração.

Tamas é tipificada como escuridão ou inatividade; Rajas como atividade, onde cada partícula tenta fugir do centro atrator; e Sattva é o equilíbrio das duas, dando um devido balanceamento de ambas.

Agora, em todo homem existem essas três forças; em cada um de nós, verificamos que às vezes Tamas prevalece; tornamo-nos preguiçosos; não conseguimos nos mover; ficamos inativos, presos por certas ideias ou pela mera apatia.

Em outros momentos, a atividade prevalece em nós, e em outros ainda, aquele calmo balanceamento de ambas prevalece — o Sattva.

Novamente, em homens diferentes, uma dessas forças geralmente é predominante.

A característica de um homem é a inatividade, a apatia e a preguiça; a característica de outro é a atividade, o poder, a manifestação de energia; e em ainda outro homem encontramos a doçura, a calma e a gentileza que se devem ao balanceamento tanto da ação quanto da inação.

Assim, em toda a criação — nos animais, nas plantas e nos homens — encontramos a manifestação mais ou menos típica de todas essas diferentes tendências ou forças.

O Karma-Yoga tem especialmente que lidar com esses três elementos ou tendências da natureza.

Ao nos ensinar o que são e como devemos empregá-las, ajuda-nos a realizar melhor nosso trabalho na vida.

A sociedade humana é uma organização graduada.

É um organismo no qual há diferentes graus e estados. Todos conhecemos a moralidade, e todos conhecemos o dever, mas ao mesmo tempo verificamos que em vários países o significado da moralidade difere grandemente.

O que é considerado moral em um país, em outro pode ser perfeitamente imoral.

Por exemplo, em um país, primos podem se casar; em outro, considera-se muito imoral fazê-lo; em um, os homens podem casar-se com suas cunhadas; em outro, isso é visto como imoral; em um país, as pessoas só podem casar uma vez; em outro, muitas vezes; e assim por diante.

Da mesma forma, em todos os outros departamentos da moralidade, descobrimos que o padrão varia muito; ainda assim, temos a ideia de que deve haver um padrão universal de moralidade.

Assim é com o dever.

A ideia de dever varia muito entre diferentes nações: em um país, se um homem não faz certas coisas, as pessoas dirão que ele agiu errado; e se ele faz exatamente essas coisas em outro país, as pessoas dirão que ele não agiu corretamente; e ainda assim sabemos que deve haver alguma ideia universal de dever.

Da mesma maneira, uma classe da sociedade pensa que certas coisas estão entre seus deveres, e outra classe pensa exatamente o oposto e ficaria horrorizada se tivesse que fazer essas coisas.

Dois caminhos nos são deixados em aberto — ou o caminho dos ignorantes,

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que pensam que há apenas um caminho para a verdade, e que todos os demais estão errados; — ou o caminho dos sábios, que admitem que, de acordo com nossa constituição mental ou com os diferentes planos de existência em que nos encontramos, o dever e a moralidade podem variar.

Assim, o importante é saber que há gradações de dever e de moralidade — que o que é dever de um estado de vida, em um conjunto de circunstâncias, não será e não pode ser o de outro.

O exemplo a seguir servirá para ilustrar esta posição: — Todos os grandes mestres ensinaram "Não resistais ao mal" — ensinaram que a não resistência ao mal é o mais alto ideal moral. Todos nós sabemos que, se cada um de nós que vive neste país tentasse colocar plenamente essa máxima em

prática, todo o tecido social desmoronaria, a sociedade seria destruída, os violentos e os perversos tomariam posse de nossas propriedades e de nossas vidas, e fariam conosco o que bem entendessem. Mesmo que apenas um dia de tal não resistência fosse praticado, isso levaria à total dissolução da sociedade.

No entanto, intuitivamente, em

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No íntimo de nossos corações, sentimos a verdade do ensinamento: "Não resistais ao mal". Isso nos parece ser o mais alto ideal a almejar; contudo, ensinar apenas essa doutrina equivaleria a condenar uma vasta proporção da humanidade.

Não somente isso: faria os homens sentirem que estavam sempre errando, causando-lhes escrúpulos de consciência em relação a todas as suas ações; isso os enfraqueceria, e esse tipo de constante autodesaprovação geraria mais vício do que qualquer outra fraqueza.

Para o homem que começou a odiar a si mesmo, o portão para a degeneração já se abriu, e isso é verdade também para as nações.

Nosso primeiro dever não é odiar a nós mesmos; porque, para avançarmos, devemos ter fé em nós mesmos primeiro e depois em Deus.

Aquele que não tem fé em si mesmo jamais poderá ter fé em Deus. Portanto, a única alternativa que nos resta é reconhecer que o dever e a moralidade variam sob diferentes circunstâncias; não que o homem que resiste ao mal esteja fazendo algo sempre e em si mesmo

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errado, mas que, nas diferentes circunstâncias em que se encontra, pode tornar-se até mesmo seu dever resistir ao mal.

Alguns de vocês leram, talvez, o Bhagavad-Gitá, e muitos de vocês nos países ocidentais podem ter se admirado com o primeiro capítulo, no qual nosso Sri Krishna chama Arjuna de hipócrita e covarde por sua recusa em lutar, ou oferecer resistência, já que seus adversários eram seus amigos e parentes — sua recusa sob o pretexto de que a não resistência era o mais alto ideal de amor.

Esta é uma grande lição para todos nós aprendermos: que em todas as questões os dois extremos são semelhantes; o extremo positivo e o extremo negativo são sempre similares: quando as vibrações da luz são demasiado lentas, não

I;

as vemos, nem as vemos quando são demasiado rápidas.

Assim também com o som; quando muito grave em tom, não o ouvimos; quando muito agudo, tampouco o ouvimos.

De natureza semelhante é a diferença entre resistência e não resistência.

Um homem não resiste porque é fraco, preguiçoso e não pode; não porque não queira; o outro homem sabe

L 25 J

que pode desferir um golpe irresistível se quiser; ainda assim, ele não apenas não golpeia, mas abençoa seus inimigos.

Aquele que não resiste por fraqueza

comete um pecado e, como tal, não pode receber nenhum benefício de sua não-resistência; enquanto o outro cometeria um pecado ao oferecer resistência.

Buda abandonou seu trono e renunciou à sua posição; isso foi verdadeira renúncia; mas não pode haver qualquer questão de renúncia no caso de um mendigo que não tem nada a renunciar.

Portanto, devemos sempre ter cuidado com o que realmente queremos dizer quando falamos dessa não-resistência e do amor ideal.

Devemos primeiro cuidar para entender se temos o poder de resistência ou não.

Então, tendo o poder, se o renunciamos e não resistimos, estamos praticando um grande ato de amor; mas se não podemos resistir e, ao mesmo tempo, tentamos enganar a nós mesmos levando-nos a crer que somos movidos por motivos do mais elevado amor, estamos fazendo exatamente o oposto.

Assim, Arjuna tornou-se um covarde diante da poderosa formação inimiga contra ele; seu "amor" o fez

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esquecer seu dever para com seu país e seu rei! Foi por isso que Sri Krishna lhe disse que ele era um hipócrita: — "Falas como um homem sábio, mas tuas ações te traem como covarde; portanto, levanta-te e luta!"

Tal é a ideia central do Karma-Yoga.

O Karma-Yogin é o homem que compreende que o ideal mais elevado é a não-resistência, e que também sabe que essa não-resistência é a mais alta manifestação de poder em posse real, e que o que se chama resistir ao mal é apenas um passo no caminho rumo à manifestação desse poder supremo, a saber, a não-resistência.

Antes de alcançar adequadamente esse ideal supremo, o dever do homem é resistir ao mal; que ele trabalhe, que ele lute, que ele golpeie com toda a força.

Somente então, quando tiver conquistado o poder de resistir, a não-resistência será uma virtude.

"Certa vez, encontrei um homem em meu país a quem conhecera antes como um sujeito muito estúpido, obtuso, que nada sabia e não tinha desejo de saber coisa alguma, e vivia a vida de um bruto.

Ele me perguntou o que deveria fazer para conhecer Deus, como ele poderia se libertar.

"Você pode contar uma mentira?" perguntei a ele. "Não", respondeu.

"Então você precisa aprender a fazê-lo. É melhor contar uma mentira do que ser um bruto, ou um tronco de madeira; você está inativo; certamente não está no estado mais elevado, que está além de todas as ações, calmo e sereno; você é obtuso demais até para fazer algo perverso." Esse foi um caso extremo, é claro, e eu estava brincando com ele; mas o que eu queria dizer era que o homem deve ser ativo, para passar pela atividade até chegar à calma perfeita.

A inatividade deve ser evitada por todos os meios.

Atividade sempre significa resistência.

Resista a todos os males, mentais e físicos; e quando você tiver conseguido resistir, então a calma virá. É muito fácil dizer: "Não odeie ninguém, não resista a nenhum mal", mas sabemos o que esse tipo de coisa geralmente significa na prática.

Quando os olhos da sociedade estão voltados para nós, podemos fazer uma demonstração de não-resistência, mas em nossos corações é uma chaga o tempo todo.

Sentimos a total falta de

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calma da não-resistência; sentimos que seria melhor para nós resistir.

Se você deseja riqueza e sabe ao mesmo tempo que o mundo inteiro é de opinião de que aquele que busca riqueza é um homem muito perverso, você, talvez, não ousará mergulhar na luta pela riqueza; no entanto, sua mente está o tempo todo, dia e noite, correndo atrás de ganhar dinheiro; isso é hipocrisia pura e não servirá para nada.

Mergulhe no mundo e, então, depois de um tempo, quando você tiver sofrido e desfrutado de tudo o que há nele, a renúncia virá; então a calma virá.

Portanto, satisfaça seu desejo por poder e tudo o mais, e depois de ter satisfeito o desejo, virá o momento em que você saberá que são todas coisas muito pequenas; mas até que você tenha satisfeito esse desejo, até que tenha passado por essa atividade, é impossível para você chegar ao estado de calma, serenidade e autoentrega. Essas ideias de serenidade e renúncia têm sido pregadas por milhares de anos; todo aquele que nasce já ouviu falar delas desde a infância, e ainda assim vemos muito poucos no mundo que tenham realmente alcançado esse estágio calmo na vida.

Não sei se vi vinte pessoas em minha vida que sejam realmente calmas e não resistentes, e viajei por metade do mundo.

Todo homem deveria assumir seu próprio ideal e se esforçar para realizá-lo; esse é um caminho mais seguro de progresso do que assumir os ideais de outros homens, que ele nunca poderá esperar realizar.

Por exemplo, pegamos um bebê e imediatamente lhe damos a tarefa de andar vinte milhas; ou o bebê morre ou um em mil rastejará por vinte milhas, chegando ao fim exausto e meio morto.

É assim que geralmente tentamos fazer com o mundo.

Todos os homens e mulheres, em qualquer sociedade, não têm a mesma mente, a mesma capacidade ou o mesmo poder para fazer as coisas; eles devem ter ideais diferentes, e não temos o direito de menosprezar qualquer ideal.

Que cada um faça o melhor que puder para realizar seu próprio ideal.

Eu não deveria ser julgado pelo seu ideal, nem você pelo meu.

A macieira não deveria ser julgada pelo padrão do carvalho, nem o carvalho pelo da macieira.

Para julgar a macieira, você deve usar o padrão da maçã; e para o carvalho, há seu próprio padrão; e assim é com todos nós.

Unidade na variedade é o plano da criação.

Por mais que homens e mulheres possam variar individualmente, certamente há unidade no pano de fundo.

No entanto, os diferentes caracteres individuais e classes de homens e mulheres são variações naturais na lei da criação.

Portanto, não devemos julgar todos eles pelo mesmo padrão nem colocar o mesmo ideal diante deles.

Tal curso cria apenas uma luta não natural, e o resultado é que o homem começa a odiar a si mesmo e é impedido de se tornar verdadeiramente religioso e bom.

Nosso dever é encorajar cada um em sua luta para viver de acordo com seu próprio ideal mais elevado, e nos esforçar ao mesmo tempo para tornar esse ideal o mais próximo possível da verdade.

No sistema hindu de moralidade, descobrimos que esse fato foi reconhecido desde tempos muito antigos, e em suas escrituras e livros de ética, regras diferentes são estabelecidas para as diferentes classes.

! dos homens — para o chefe de família, para o Sannyasin (o homem que renunciou ao mundo) e para o estudante.

A vida de cada indivíduo em Karma, segundo as escrituras hindus, tem seus deveres peculiares, além do que pertence em comum à humanidade universal.

O hindu começa a vida como estudante; depois se casa e torna-se chefe de família; então, após envelhecer, retira-se; e, por fim, abandona o mundo e torna-se Sannyasin. A cada uma dessas etapas da vida estão ligados certos deveres, determinados pela sua própria natureza.

Nenhuma dessas etapas da vida é superior à outra; a vida do homem casado é tão grandiosa quanto a daquele que não é casado, mas se dedicou ao trabalho religioso.

O rei em seu trono é tão grande e glorioso quanto o varredor na rua. Tire-o do trono, faça-o fazer o trabalho do varredor, e veja como ele se sai.

Pegue o varredor e veja como ele governará. É inútil dizer que o homem que vive fora do mundo é maior do que aquele que vive no mundo; é muito mais difícil viver no mundo e adorar a Deus do que abandoná-lo e viver uma vida livre e fácil.

As várias etapas da vida tornaram-se encurtadas na Índia para duas — a do chefe de família e a do pregador.

O chefe de família casa-se e cumpre seus deveres como cidadão, e o dever do homem que abandona o mundo é dedicar suas energias inteiramente à religião, pregar e adorar a Deus.

Agora vereis cuja vida é a mais difícil.

Ao ler para vós algumas belas passagens do Maha-Nirvana-Tantra, que trata deste assunto, vereis que é uma tarefa muito difícil para um homem ser chefe de família e desempenhar todos os seus deveres perfeitamente.

O chefe de família deve ser devotado a Deus; o conhecimento de Deus deve ser sua meta de vida.

Contudo, ele deve trabalhar constantemente, cumprir todos os seus deveres; tudo o que fizer, deve entregá-lo a Deus.

É a coisa mais difícil deste mundo: trabalhar e não se importar com o resultado, ajudar um homem

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Nunca pense que ele deva ser grato a você, para fazer algum bom trabalho e, ao mesmo tempo, nunca observe para ver se isso lhe traz nome ou fama, ou se não traz nada.

Até o mais absoluto covarde torna-se um homem corajoso quando o mundo começa a elogiá-lo.

Um tolo pode realizar feitos heroicos quando a aprovação da sociedade está sobre ele, mas para um homem fazer constantemente boas obras sem buscar ou se importar com a aprovação de seus semelhantes é, de fato, o mais elevado sacrifício que qualquer homem pode realizar.

O grande dever do chefe de família é ganhar a vida, mas ele deve cuidar para não obtê-la contando mentiras, ou enganando, ou roubando outros; e deve lembrar que sua vida é para o serviço de Deus, sua vida é para o serviço dos pobres e necessitados. Sabendo que mãe e pai são os representantes visíveis de Deus, o chefe de família sempre, e por todos os meios, deve agradá-los.

Se a mãe está satisfeita, e o pai, Deus está satisfeito com esse homem.

Aquele filho é realmente um bom filho que nunca fala palavras duras a seus pais;

"Diante dos pais, não se deve proferir piadas, não se deve mostrar inquietação, não se deve mostrar raiva ou mau humor.

Diante da mãe, ou do pai, um filho deve curvar-se profundamente, e deve permanecer de pé em sua presença, e não deve sentar-se até que eles ordenem que ele se sente.

"Se o chefe de família desfruta de comida, bebida e roupas sem primeiro ver que sua mãe e seu pai, seus filhos, sua esposa e os pobres estão providos, ele está cometendo um pecado.

A mãe e o pai são as causas deste corpo, portanto um homem deve suportar mil dificuldades para fazer o bem a eles.

"Assim também é seu dever para com sua esposa; nenhum homem deve repreender sua esposa, e ele deve sempre mantê-la como se ela fosse sua própria mãe.

E mesmo quando ele estiver nas maiores dificuldades e problemas, não deve demonstrar raiva à sua esposa.

"Aquele que pensa em outra mulher além de sua esposa — se ele a toca mentalmente com a menor parte de sua mente — esse homem vai para o inferno sombrio; mesmo em particular, nenhum homem deve tocar outra

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mulher, ou suas roupas; mesmo quando ela não está presente, as roupas pertencentes a qualquer mulher que não seja sua esposa não devem ser tocadas.

“Diante das mulheres, ele não deve falar linguagem imprópria, e nunca se vangloriar de seus poderes.

Ele não deve dizer: ‘Eu fiz isto, e eu fiz aquilo.’

“O chefe de família deve sempre agradar sua esposa com riqueza, roupas, amor, fé e palavras como néctar, e nunca fazer nada para perturbá-la.

Aquele homem que conseguiu obter o amor de uma esposa casta teve sucesso em sua religião e possui todas as virtudes.”

Os seguintes são os deveres para com os filhos: —

“Um filho deve ser bem cuidado até os quatro anos de idade; depois disso, deve ser educado.

Quando ele completa 20 anos, o pai

a

não deve mais pensar nele como um menino pequeno; ele então é seu igual, sendo ele próprio um chefe de família.

Exatamente da mesma maneira, a filha deve ser criada e, com o maior cuidado, deve ser educada.

E quando ela se casa, o pai deve dar-lhe joias e riqueza.

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“Então, o dever do homem é para com seus irmãos e irmãs, e para com os filhos de seus irmãos e irmãs, se forem pobres, e para com seus outros parentes, seus amigos e seus servos.

Então, seus deveres são para com as pessoas da mesma aldeia, e os pobres, e qualquer um que venha a ele em busca de ajuda.

Tendo meios suficientes, se o chefe de família não cuidar de dar presentes a seus parentes e aos pobres, saiba que ele é apenas um bruto; não é um ser humano.

Cuidado excessivo com a comida, com as roupas e com o amor-próprio, e cuidado excessivo em embelezar o corpo e repartir o cabelo devem ser evitados.

O chefe de família deve ser puro de coração e limpo de corpo, sempre ativo e sempre pronto para o trabalho.

“A seus inimigos, o chefe de família deve ser um herói.

A eles deve resistir.

Esse é o dever de um chefe de família.” Ele não deve sentar-se num canto e chorar, e falar tolices sobre não resistência.

Se ele não se mostrar um herói para seus inimigos, não cumpriu seu dever.

E a seus amigos e parentes, deve ser tão gentil quanto um cordeiro.

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“É dever do chefe de família não pagar

reverência aos ímpios; porque, se ele reverencia as pessoas ímpias do mundo, ele patrocina a impiedade; e será um grande erro se ele desconsidera aqueles que são dignos de respeito, as pessoas boas.

Ele não deve ser efusivo em suas amizades; não deve sair fazendo amigos em toda parte; deve observar as ações dos homens de quem quer fazer amigos, e o trato deles com outros homens, refletir sobre isso, e então fazer amizade.

Estas três coisas ele não deve comentar. Não deve falar em público de sua própria fama; não deve pregar seu próprio nome ou seus próprios poderes; não deve falar de sua riqueza, nem de qualquer coisa que lhe tenha sido confiada em particular.

“Se ele cometeu algum erro, e se se envolveu em um trabalho que certamente fracassará, seja grande ou pequeno, não deve falar dessas coisas, nem torná-las públicas.” Qual é a utilidade de falar dos próprios erros ao mundo? Eles não podem ser desfeitos.

Pelo que fez

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ele deve sofrer; ele, como chefe de família, deve tentar fazer melhor.

O mundo só simpatiza com os fortes e os poderosos.

“Um homem não deve dizer que é pobre, nem que é rico — não deve se vangloriar de sua riqueza.

Que ele guarde seus próprios conselhos; este é o seu dever religioso.” Isso não é mera sabedoria mundana; se um homem não age assim, pode ser considerado imoral.

O chefe de família é a base, o esteio, de toda a sociedade; ele é o principal provedor. Todos — os pobres, os fracos, as crianças e as mulheres que não trabalham — vivem do chefe de família; portanto, há certos deveres que ele tem de cumprir, e esses deveres devem fazê-lo sentir-se forte para cumpri-los, e não fazê-lo pensar que está fazendo coisas abaixo de seu ideal.

Portanto, se ele fez algo fraco, ou cometeu algum erro, não deve dizê-lo em público; e se está envolvido em algum empreendimento e sabe que certamente fracassará, não deve falar dele. Tal autoexposição não é apenas desnecessária, mas também enfraquece o homem e o torna

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inapto para o desempenho de seus deveres legítimos na vida.

Ao mesmo tempo, ele deve lutar arduamente para adquirir essas coisas — primeiramente, o conhecimento, e em segundo lugar, a riqueza.

É seu dever, e se ele não cumpre seu dever, ele não é ninguém.

Um chefe de família que não luta para obter riqueza é imoral.

Se ele é preguiçoso e contenta-se em levar uma vida ociosa, ele é imoral, porque dele dependem centenas de pessoas.

Se ele adquire riquezas, centenas de outros serão por isso sustentados.

Se não houvesse nesta cidade centenas que se esforçaram para enriquecer e que adquiriram riqueza, onde estariam toda esta civilização, e estes asilos e grandes casas?

Buscar a riqueza em tal caso não é mau, porque essa riqueza é para ser distribuída.

O chefe de família é o centro da vida e da sociedade.

É uma adoração para ele adquirir e gastar riqueza nobremente, pois o chefe de família que luta para enriquecer por meios justos e para fins nobres está praticamente fazendo a mesma coisa para alcançar a salvação que o anacoreta faz em sua cela quando está orando, pois neles vemos apenas os diferentes aspectos da mesma virtude de autodoação e autossacrifício, impulsionados pelo sentimento de devoção a Deus e a tudo o que é Dele.

"Ele deve lutar para adquirir um bom nome por todos os meios; e deve renunciar a estas coisas — não deve jogar; não deve andar na companhia dos ímpios; não deve mentir, e não deve ser causa de problemas para os outros."

Frequentemente as pessoas se envolvem em coisas que não têm meios de realizar, e o resultado é que enganam os outros para alcançar seus próprios fins.

Então, há em todas as coisas o fator tempo a ser levado em consideração; o que em um momento poderia ser um fracasso, talvez, em outro momento fosse um grande sucesso.

"O chefe de família deve falar a verdade, e falar com gentileza, usando palavras que as pessoas apreciem, que façam bem aos outros; nem deve se vangloriar de suas próprias ações, nem falar dos negócios de outros homens."

O chefe de família, ao construir reservatórios para armazenar água, ao plantar árvores às margens das estradas,

ao estabelecer asilos para homens e animais, ao construir estradas e pontes, caminha para o mesmo objetivo que o maior Yogin!'"

Esta é uma parte da doutrina do Karma-Yoga — a atividade, o dever do chefe de família.

Há uma passagem mais adiante, onde se diz que "se o chefe de família morre em batalha, lutando por seu país ou por sua religião, ele alcança o mesmo objetivo que o Yogin por meditação", mostrando assim que o que é dever para um não é dever para outro; ao mesmo tempo, não se diz que esse dever é inferior e o outro superior; cada dever tem seu próprio lugar e adequação, e de acordo com as circunstâncias em que nos encontramos, assim devemos cumprir nossos deveres.

Uma ideia emerge de tudo isso: a condenação de toda fraqueza.

Esta é uma ideia particular em todos os nossos ensinamentos que eu aprecio, seja na filosofia, na religião ou no trabalho.

Se você ler os Vedas, encontrará esta palavra sempre repetida — "destemor" — não temer nada.

O medo é um sinal de fraqueza.

Um homem deve cumprir seus deveres sem se importar com os sarcasmos e o ridículo do mundo.

Se um homem abandona tudo e sai do mundo para adorar a Deus, não deve pensar que aqueles que vivem no mundo e trabalham pelo bem do mundo não estão adorando a Deus; nem aqueles que vivem no mundo, por esposa e filhos, devem pensar que os que abandonam o mundo são vagabundos inferiores.

Cada um é grande em seu próprio lugar.

Ilustrarei esse pensamento com uma história.

Certo rei costumava perguntar a todos os Sannyasins que chegavam ao seu país: "Qual é o homem maior — aquele que abandona o mundo e se torna Sannyasin, ou aquele que vive no mundo e cumpre seus deveres como chefe de família?" Muitos sábios procuraram resolver o problema.

Alguns afirmaram que o Sannyasin era o maior, e o rei exigiu que provassem sua afirmação.

Quando não puderam, ordenou-lhes que se casassem e se tornassem chefes de família.

Então outros vieram e disseram: "O chefe de família que cumpre seus deveres é o homem maior." Deles também o rei exigiu provas.

Quando não puderam dar-lhes, ele também os fez estabelecerem-se como chefes de família.

Por fim, chegou um jovem Sannyasin, e o rei igualmente lhe perguntou.

Ele respondeu: "Cada um, ó rei, é igualmente grande em seu lugar." "Prove-me isso", pediu o rei.

"Eu provarei a você", disse o Sannyasin, "mas você deve primeiro vir e viver como eu por alguns dias, para que eu possa provar a você o que digo." O rei consentiu e seguiu o Sannyasin para fora de seu próprio território, e passou por muitos outros territórios até que finalmente chegaram a outro reino.

Na capital daquele reino, uma grande cerimônia estava acontecendo. O rei e o Sannyasin ouviram o som de tambores e música, e ouviram também os arautos clamando; o povo estava reunido nas ruas em trajes de gala, e uma grande proclamação estava sendo feita.

O rei e o Sannyasin ficaram ali para ver o que estava acontecendo. O arauto estava proclamando em voz alta que a princesa, filha do rei daquele país, iria escolher um marido entre os que estivessem reunidos diante dela.

Era um costume antigo na Índia as princesas escolherem maridos dessa maneira; e cada uma delas naturalmente tinha certas ideias do tipo de homem que queria para marido; algumas queriam o homem mais belo; outras queriam apenas o mais erudito; outras queriam o mais rico, e assim por diante. Esta princesa, em trajes esplêndidos, estava sendo carregada em um trono, e o anúncio foi feito pelos arautos de que a princesa fulana de tal estava prestes a escolher seu marido.

Então todos os príncipes da vizinhança vestiram seus trajes mais bravios e se apresentaram diante dela.

Às vezes, eles também tinham seus próprios arautos para enumerar suas vantagens e as razões pelas quais esperavam que a princesa os escolhesse.

Enquanto a princesa era levada ao redor e olhava para eles e ouvia o que tinham a oferecer, se não ficasse satisfeita com o que via e ouvia, ela dizia aos seus carregadores: "Sigam em frente", e nenhuma atenção era dada aos pretendentes rejeitados.

Se, no entanto, a princesa se agradasse de algum deles, lançava sobre ele uma grinalda de flores, e ele se tornava seu marido.

A princesa do país ao qual nosso rei e o Sannyasin haviam chegado estava realizando uma dessas cerimônias interessantes.

Ela era a mais bela princesa do mundo, e o marido da princesa se tornaria governante do reino após a morte de seu pai.

A ideia dessa princesa era casar-se com o homem mais belo, mas ela não conseguia, por muito tempo, encontrar o homem certo que a agradasse.

Várias vezes esses encontros haviam ocorrido, e ainda assim a princesa não havia escolhido ninguém para seu marido.

Este encontro foi o mais esplêndido de todos; mais pessoas do que nunca haviam comparecido, e era uma cena magnífica.

A princesa veio num trono, e os carregadores a transportavam de um lugar a outro.

Ela não parecia se importar com ninguém, e todos ficavam decepcionados por este encontro também terminar sem que ninguém fosse escolhido. Justamente então

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chega um jovem, um Sannyasin, tão belo como se o sol tivesse descido à terra, e ele permanece num canto da assembleia, observando o que se passa. O trono com a princesa aproxima-se dele, e assim que ela vê o belo Sannyasin, ela para e lança a grinalda sobre ele.

O jovem Sannyasin agarra a grinalda e a lança fora, exclamando: "Que absurdo você quer dizer com isso? Eu sou um Sannyasin. O que é o casamento para mim?" O rei daquele país pensa que talvez este homem seja pobre, e por isso não ousa casar-se com a princesa; ele lhe diz: "Com minha filha vai metade do meu reino agora, e o reino inteiro após minha morte!" e coloca novamente a grinalda sobre o Sannyasin. O jovem a lança fora mais uma vez, dizendo: "Que absurdo é isto? Eu não quero me casar", e caminha rapidamente para longe da assembleia.

Agora, a princesa havia se apaixonado tanto por este jovem que disse: "Preciso me casar com este homem ou morrerei", e ela foi atrás

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dele para trazê-lo de volta.

Então nosso outro Sannyasin, que havia trazido nosso rei até ali, disse-lhe: “Rei, sigamos este par”; então eles caminharam atrás deles, mas a uma boa distância.

O jovem Sannyasin que havia se recusado a casar com a princesa caminhou para o campo por várias milhas, até chegar a uma floresta e nela adentrar; e a princesa o seguiu, e os outros dois os seguiram.

Ora, este jovem Sannyasin conhecia bem aquela floresta e sabia de todas as passagens intrincadas nela, e de repente saltou para uma delas e desapareceu, e a princesa não conseguiu encontrá-lo.

Depois de tentar por muito tempo achá-lo, ela se sentou debaixo de uma árvore e começou a chorar, pois não sabia o caminho para sair da floresta novamente. Então nosso rei e o outro Sannyasin aproximaram-se dela e disseram: “Não chores; nós te mostraremos a saída desta floresta, mas está escuro demais para encontrá-la agora.

Aqui há uma grande árvore; descansemos debaixo dela, e de manhã cedo iremos e te mostraremos o caminho para sair.”

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Ora, um passarinho e sua esposa e três filhotes viviam naquela árvore, em um ninho.

Este passarinho olhou para baixo e viu as três pessoas debaixo da árvore e disse à sua esposa:

“Minha querida, o que se há de fazer; aqui estão alguns hóspedes na casa, e é inverno, e não temos fogo?” Então ele voou e pegou um pedaço de lenha acesa no bico e o deixou cair diante dos hóspedes, e eles acrescentaram combustível e fizeram uma fogueira brilhante.

Mas o passarinho não ficou satisfeito.

Ele disse novamente à sua esposa: “Minha querida, o que faremos? Não há nada para dar a estas pessoas para comer, e elas estão famintas, e nós somos donos de casa; é nosso dever alimentar qualquer um que venha à casa.

Devo fazer o que puder; darei a eles meu corpo.” Então ele se lançou para o meio do fogo e pereceu.

Os hóspedes o viram cair e tentaram salvá-lo, mas ele foi rápido demais para eles e se atirou no fogo e foi morto.

A esposa do passarinho viu o que seu marido fez, e disse: “Aqui estão três pessoas e apenas um passarinho para elas comerem.

Não é

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basta; é meu dever como esposa não deixar que o esforço de meu marido seja em vão; que eles tenham também o meu corpo”, e ela se lançou ao fogo e foi queimada até a morte.

Então os três filhotes de pássaros, ao verem o que fora feito, e que ainda não havia comida suficiente para os três hóspedes, disseram: “Nossos pais fizeram o que puderam e ainda assim não é suficiente.

É nosso dever dar continuidade à obra de nossos pais; que os nossos corpos também se vão.” E todos se atiraram também ao fogo.

As três pessoas não puderam comer essas aves, e ficaram maravilhadas com o que viram.

De um modo ou de outro, passaram a noite sem alimento, e pela manhã o rei e o Sannyasin mostraram o caminho à princesa, e ela voltou para junto de seu pai.

Então o Sannyasin disse ao rei: “Rei, viste que cada um é grande em seu próprio lugar.

Se queres viver no mundo, vive como aquelas aves, pronto a qualquer momento a te sacrificares pelos outros.

Se queres renunciar ao mundo, sê como aquele jovem para quem a mais bela mulher e um reino eram como nada.

Se queres ser um chefe de família, considera tua vida um sacrifício pelo bem-estar dos outros, e se escolheres a vida de renúncia, nem sequer olhes para a beleza, o dinheiro e o poder.

Cada um é grande em seu próprio lugar, mas o dever de um não é o dever do outro.”

CAPÍTULO III

A CARIDADE DESINTERESSADA É O SEGREDO DA OBRA QUE SALVA.

Ajudar os outros fisicamente, aliviando suas necessidades físicas, é de fato grande; mas a ajuda é maior, conforme a necessidade é maior e conforme a ajuda é de longo alcance.

Se a necessidade de um homem pode ser removida por uma hora, é ajudá-lo de fato; se suas necessidades podem ser removidas por um ano, será uma ajuda maior para ele; se suas necessidades podem ser removidas para sempre, é certamente a maior ajuda que lhe pode ser dada.

O conhecimento espiritual é a única coisa que pode remover nossas misérias para sempre; qualquer outro conhecimento satisfaz as necessidades apenas por um tempo.

Se a natureza do homem for mudada, então somente todas as suas necessidades desaparecerão para sempre.

É somente com o conhecimento do espírito que a faculdade do desejo é aniquilada para sempre; portanto, ajudar o homem espiritualmente é a mais alta ajuda que pode ser dada a ele; aquele que dá ao homem o conhecimento espiritual

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é o maior benfeitor da humanidade, e por isso é que sempre encontramos que os mais poderosos dos homens são aqueles que ajudaram o homem a satisfazer suas necessidades espirituais; de fato, a espiritualidade é a verdadeira base de todas as nossas atividades na vida.

Um homem espiritualmente forte e são será forte em todos os outros aspectos, se assim o desejar; e até que haja força espiritual na humanidade, até mesmo as necessidades físicas não podem ser bem satisfeitas.

Depois da ajuda espiritual vem a ajuda intelectual; o dom do conhecimento é muito superior ao dar alimento e roupas; é até superior a dar vida a um homem, porque a vida real do homem consiste na aquisição do conhecimento da verdade; a ignorância é a morte, o conhecimento é a vida.

A vida tem muito pouco valor, se é uma vida nas trevas, uma vida que tateia cegamente através da ignorância e da miséria.

Em seguida, vem, naturalmente, ajudar um homem fisicamente.

Portanto, ao considerar a questão de ajudar os outros, devemos sempre ter em mente não cometer o erro de pensar que a ajuda física é a única ajuda que pode ser dada de homem a homem; a ajuda física

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é a última e a menor de sua espécie, porque, no que lhe diz respeito, não há satisfação permanente.

A miséria que sinto quando estou com fome é satisfeita comendo, mas a fome retorna novamente; minha miséria pode cessar completamente apenas quando eu estiver satisfeito para além de toda necessidade.

Então a fome não me fará miserável; nenhuma aflição, nenhuma miséria, nenhuma tristeza será capaz de me abalar. Essa ajuda que tende a nos tornar fortes espiritualmente é, naturalmente, ajuda do mais alto valor; depois dela vem a ajuda intelectual, e após essa, a ajuda física.

As misérias do mundo não podem ser curadas simplesmente oferecendo ajuda física; até que a natureza do homem mude, essas necessidades físicas sempre surgirão, e misérias sempre serão sentidas, e nenhuma quantidade de ajuda física dada ao mundo as curará completamente.

A única solução para o problema de todo este mal e miséria no mundo é tornar a humanidade pura.

A ignorância é a mãe de todo o mal e de toda a miséria que vemos.

Que os homens tenham luz, que sejam espiritualmente fortes; e se pudermos realizar isso, se toda a humanidade se tornar pura e

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espiritualmente forte e educada, então somente cessará a miséria no mundo, e não antes disso. Podemos converter cada casa do país em um asilo de caridade; podemos encher a terra de hospitais, mas a miséria do homem continuará a existir até que o caráter do homem mude.

Lemos no Bhagavad-Gita repetidas

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vezes que devemos todos trabalhar incessantemente, e que todo trabalho é por natureza composto de bem e de mal.

Não podemos fazer nenhum trabalho que não tenha alguma parte de bem em algum lugar; não pode haver nenhum trabalho que não tenha uma tendência a causar algum dano em algum lugar.

Todo trabalho que é feito deve necessariamente ser uma mistura de bem e de mal; ainda assim nos é ordenado trabalhar incessantemente; o bem e

o mal terão ambos os seus resultados, produzirão Karma; a ação boa trará sobre nós bom efeito; a ação má, mau efeito; e o bem e o mal são ambos prisões da alma.

A solução alcançada no Gita em relação a essa natureza de trabalho que produz aprisionamento é que, se não nos apegarmos ao trabalho que fazemos, ele não terá qualquer efeito vinculante sobre nossa alma.

Procuraremos entender o que se quer dizer com esse "desapego ao trabalho".

Esta é a grande ideia central do Gita: fazer o trabalho incessantemente, mas não se apegar a ele nem aos seus resultados.

"Samskara" pode ser traduzido muito aproximadamente por tendência inerente.

Usando a símile de um lago para a mente, cada ondulação ou cada onda que se ergue na mente, quando se aquieta, não morre inteiramente, mas deixa uma marca atrás; e há a possibilidade futura de aquela onda surgir novamente.

Essa marca, seja qual for sua natureza, com a possibilidade de a onda reaparecer, é o que se chama Samskara.

Todo trabalho que fazemos, todo movimento do corpo, todo pensamento que pensamos, deixa uma impressão na substância mental, e mesmo quando tais impressões não são óbvias na superfície, são suficientemente fortes para atuar abaixo da superfície, subconscientemente.

O que somos a cada momento é determinado pela soma total de tais impressões anteriores na mente.

O que eu sou exatamente neste

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momento é o efeito da soma total de todas as impressões devidas à minha vida passada.

Isto é realmente o que se entende por caráter; o caráter de cada homem é determinado pela soma total dessas impressões da vida e do pensamento passados.

Se predominam boas impressões, o caráter torna-se bom; se predominam más, torna-se mau.

Se um homem ouve continuamente más palavras, pensa maus pensamentos, pratica más ações, sua mente estará cheia de más impressões ou marcas; e elas, inconscientemente, governarão a tendência de seu pensamento e de seu trabalho.

Na verdade, essas más impressões estão sempre atuando, e sua expressão no caso dele deve ser o mal; e esse homem será um homem mau; ele não pode evitar; a soma total dessas impressões nele cria a forte força motriz para a prática de más ações; ele será como uma máquina nas mãos de suas impressões, e elas o forçarão a fazer o mal.

Da mesma forma, se um homem pensa bons pensamentos e faz boas obras, a soma total de suas impressões mentais geradoras de motivação será boa; e elas, de maneira semelhante, o forçarão a fazer o bem mesmo contra a própria vontade. Quando um homem fez tanto bom trabalho e pensou tantos bons pensamentos que há uma tendência irresistível em sua natureza para fazer o bem, então, mesmo que deseje fazer o mal, sua mente, na soma total de suas tendências, não o permitirá; as tendências o afastarão do mal; ele não pode deixar de estar inteiramente sob a influência das boas tendências.

Quando tal é o caso, diz-se que o bom caráter de um homem está estabelecido.

Assim como a tartaruga recolhe seus pés e cabeça dentro do casco, e você pode matá-la e quebrá-la em pedaços, e ainda assim ela não sairá, da mesma forma o caráter daquele homem que tem controle sobre seus centros motores e órgãos é inabalavelmente estabelecido.

Ele controla suas próprias forças internas, e nada pode extraí-las contra a sua vontade.

Por essa contínua reflexão de bons pensamentos, boas impressões movendo-se sobre a superfície da mente, a tendência para fazer o bem torna-se forte, e o resultado é que nos sentimos capazes de controlar os indriyas [os órgãos sensoriais e motores]. Somente assim a vontade se estabelece;

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o caráter será estabelecido; então, somente então, você chega à verdade; tal homem está seguro para sempre; ele não pode fazer nenhum mal; você pode lançá-lo em qualquer lugar; você pode colocá-lo em qualquer companhia; não haverá perigo para ele.

Há um estágio ainda mais elevado do que ter essa boa tendência, e esse é o desejo de libertação.

Você deve lembrar que a liberdade da alma é o objetivo de todos os nossos Yogas indianos, e cada um deles é igualmente produtivo do mesmo resultado.

Apenas pelo trabalho, os homens podem chegar onde Buda chegou em grande parte pela meditação, ou Cristo pela oração.

Buda era um Jnani ativo; Cristo era um Bhakta, e o mesmo objetivo foi alcançado por ambos.

A dificuldade está aqui.

Libertação significa liberdade total — liberdade das amarras do bem, bem como das amarras do mal.

Uma corrente de ouro é tanto uma corrente quanto uma de ferro.

Há um espinho no meu dedo, e eu uso outro espinho para tirar o primeiro; e quando o tiro, jogo ambos os espinhos fora; não tenho necessidade de guardar o segundo espinho, porque ambos são espinhos, afinal.

Assim, as más tendências

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devem ser contrabalançadas pelas boas tendências, e as más marcas na mente devem ser removidas pelas novas ondas de boas impressões, até que tudo o que é mau quase desapareça, ou seja subjugado e mantido sob controle em um canto da mente; mas depois disso, as boas tendências também têm de ser conquistadas; somente assim o "apegado" torna-se o "desapegado". Trabalhai; mas não deixeis que a ação ou o pensamento produza qualquer impressão forte na mente; deixai as ondulações virem e irem; deixai que grandes ações procedam dos músculos e do cérebro, mas não permitais que elas façam qualquer impressão profunda em vossa alma.

Como pode isso ser feito? Podemos ver facilmente que a impressão de qualquer ação, à qual nos apegamos, permanece duradoura.

Posso encontrar centenas de pessoas durante o dia, e entre elas encontrar também uma a quem amo; e quando me recolho à noite, posso tentar pensar em todos os rostos que vi, mas somente aquele rosto vem à mente — o rosto que encontrei talvez por apenas um minuto, e que amei; todos os outros desapareceram.

Meu apego a essa

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pessoa em particular causou uma impressão mais profunda em minha mente do que todos os outros rostos.

Fisiologicamente, as impressões foram todas as mesmas; cada um dos rostos que vi gravou-se na retina, e o cérebro absorveu as imagens, e, no entanto, não houve similaridade de efeito sobre a mente.

Mas no caso daquele homem, de quem capturei, talvez, apenas um vislumbre, uma impressão mais profunda foi feita, porque, ao contrário de seu rosto, os outros rostos não encontraram associação favorável em minha mente; a maioria deles, talvez, eram rostos inteiramente novos sobre os quais nunca havia pensado antes, mas aquele único rosto, do qual obtive apenas um vislumbre, de alguma forma encontrou associações favoráveis em meu interior.

Talvez eu o tivesse imaginado em minha mente por anos, soubesse centenas de coisas sobre ele, e esta nova visão dele encontrou centenas de coisas afins dentro de minha mente, e todas essas associações foram despertadas; essa impressão em minha visão mental foi cem vezes maior do que a visão de todos aqueles rostos diferentes juntos, e, sendo esse o caso, um efeito tremendo seria

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de uma só vez e naturalmente produzida por ela na mente.

Portanto, sede “desapegados”; deixai as coisas agirem; deixai os centros cerebrais agirem; trabalhai incessantemente, mas não deixeis que uma única ondulação conquiste a mente.

Trabalhai como se fôsseis estranhos nesta terra, peregrinos; trabalhai incessantemente, mas não vos prendais às coisas deste mundo; o aprisionamento é terrível.

Este mundo não é a nossa habitação; é apenas uma das muitas etapas pelas quais estamos passando.

Lembrai-vos daquela grande sentença do Sankhya: “Toda a natureza é para a alma, não a alma para a natureza”. A própria razão da existência da natureza é a educação da alma; não tem outro significado; está ali porque a alma deve ter conhecimento e, através do conhecimento, libertar-se.

Se nos lembrarmos disso sempre, nunca nos apegaremos à natureza; saberemos que a natureza é um livro no qual devemos ler, e que, quando tivermos adquirido o conhecimento necessário, o livro não terá mais valor para nós. Em vez disso, porém, estamos nos identificando com a natureza; estamos

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pensando que a alma é para a natureza, que o espírito é para a carne e, como diz o ditado comum, pensamos que o homem “vive para comer” e não “come para viver”; estamos continuamente cometendo esse erro; estamos considerando a natureza como nós mesmos e nos tornando apegados a ela; e, assim que esse apego surge, há a profunda impressão na alma, que nos amarra e nos faz trabalhar não pela liberdade, mas como escravos.

Toda a essência deste ensinamento é que deveis trabalhar como senhores e não como escravos; trabalhai incessantemente, mas não façais trabalho de escravo.

Não vedes como todos trabalham? Ninguém pode ficar totalmente em repouso; noventa e nove por cento da humanidade trabalha como escravos, e o resultado é a miséria; é trabalho egoísta.

Trabalhai através da liberdade! Trabalhai através do amor! A palavra amor é muito difícil de entender; o amor nunca vem até que haja liberdade.

Não há amor verdadeiro possível no escravo.

Se comprardes um escravo e o amarrardes com correntes e o fizerdes trabalhar para vós, ele trabalhará como um servo, mas não haverá amor nele.

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Quando nós mesmos trabalhamos para as coisas do mundo como escravos, não pode haver amor em nós, e o nosso trabalho não é verdadeiro trabalho.

O mesmo se aplica ao trabalho feito para parentes e amigos, e mais ainda ao trabalho feito para nós mesmos.

O trabalho egoísta é trabalho de escravo; e aqui está uma prova de se qualquer trabalho é egoísta ou não.

Todo ato de amor traz felicidade consigo; não pode haver verdadeiro ato de amor que não traga paz e bem-aventurança como resultado de sua reação.

A existência real, o conhecimento real e o amor real estão eternamente ligados uns aos outros e, de fato, formam três em um: onde um deles está, os outros também devem estar; são os três aspectos do uno sem segundo — a Existência-Conhecimento-Bem-aventurança. Quando essa existência se torna relativa, nós a vemos como o mundo; esse conhecimento, por sua vez, modifica-se no conhecimento das coisas do mundo; e essa bem-aventurança forma o fundamento de todo amor verdadeiro conhecido pelo coração do homem.

Portanto, o amor verdadeiro nunca pode reagir de modo a causar dor, seja ao amante, seja ao amado.

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Suponhamos que um homem ame uma mulher; ele deseja tê-la somente para si e sente extremo ciúme de cada movimento dela; quer que ela se sente perto dele, que fique de pé perto dele, e que coma e se mova sob suas ordens.

Ele é escravo dela e deseja tê-la como sua escrava.

Isso não é amor; é uma espécie de afecção mórbida do escravo, que falsamente se insinua como amor.

Não pode ser amor, porque é doloroso; se ela não faz o que ele quer, isso lhe traz dor.

Com o amor não há reação dolorosa; o amor só traz uma reação de bem-aventurança; se não traz, não é amor; estamos então confundindo outra coisa com amor.

Quando você tiver conseguido amar seu marido, sua esposa, seus filhos, o mundo inteiro, o universo, de tal maneira que não haja reação de dor ou ciúme, nenhum sentimento egoísta, então você estará em condições de ser desapegado.

Krishna diz: “Olha para mim, Arjuna! Se eu parar de trabalhar por um momento, o universo inteiro pereceria.

No entanto, não tenho nada a ganhar com o trabalho; sou o único Senhor; não tenho nada a

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ganho do trabalho; mas por que eu trabalho? Porque amo o mundo.” Deus é desapegado porque Ele ama; esse tipo de amor real nos torna desapegados.

Onde houver mero apego mundano, o tremendo agarrar-se às coisas do mundo, deveis saber que é tudo físico, uma espécie de atração física entre conjuntos de partículas de matéria, algo que atrai dois corpos cada vez mais próximos o tempo todo, e se não conseguem chegar perto o suficiente produz dor; mas onde há amor real, ele não se apoia de modo algum no apego físico.

Pessoas que se amam podem estar a mil milhas de distância uma da outra; o amor verdadeiro será o mesmo; não morre; e nunca haverá dele qualquer reação dolorosa.

Alcançar esse desapego é quase um trabalho de vida, mas assim que chegamos a esse ponto, alcançamos a meta do amor e nos tornamos livres; a escravidão da natureza cai de nós, e vemos a natureza como ela é; a natureza não forja mais correntes para nós; permanecemos inteiramente livres e não levamos em consideração os resultados do trabalho; quem então se importa com o que os resultados

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possam ser? O homem que trabalha através da liberdade e do amor não precisa se importar com os resultados, pois ele é inteiramente altruísta e seu trabalho não pode reagir de modo a produzir dor em lugar algum.

Pedis algo a vossos filhos em troca do que lhes haveis dado? É vosso dever trabalhar por eles, e aí termina a questão.

O que desejardes fazer por uma pessoa particular, uma cidade ou um estado, fazei por todos os meios, mas assumi a mesma atitude que tendes para com vossos filhos — não espereis nada em troca.

Se puderdes incessantemente tomar a posição em que sois sempre o doador, em que tudo o que dais é uma oferta livre ao mundo, sem qualquer pensamento de retorno, então vosso trabalho não vos amarrará pelo apego.

O apego vem somente onde esperamos algo em troca do que fazemos.

Se trabalhar como escravos resulta em egoísmo e apego aos resultados, trabalhar como senhores de nossas próprias mentes dá origem à bem-aventurança do desapego. Frequentemente falamos de direito e justiça, mas encontramos

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que no mundo o direito e a justiça são tratados como meras conversas de criança.

Há apenas duas coisas que são positivamente ativas na condução da conduta dos homens; são o poder e a misericórdia.

O exercício do poder é invariavelmente o exercício do egoísmo.

Todos os homens e mulheres tentam tirar o máximo proveito de qualquer poder ou vantagem que possuam.

A misericórdia é o próprio céu; para sermos bons, todos temos de ser misericordiosos.

Até a justiça, o direito e o poder dependem da misericórdia.

Todo pensamento de obter qualquer retorno pelo trabalho que fazemos impede nosso progresso espiritual; mais ainda, no fim, eles trazem muita miséria em seu rastro.

É somente o trabalho que é feito como uma oferta de livre vontade à humanidade e à natureza que não traz consigo nenhum apego vinculante. Há outra maneira pela qual essa ideia de misericórdia e caridade altruísta pode ser posta em prática; isto é, encarando o trabalho como adoração, caso acreditemos em um Deus pessoal.

Aqui entregamos todos os frutos do nosso trabalho ao Senhor; e, adorando-O assim, não temos o direito de esperar nada da humanidade pelo trabalho que fazemos.

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O próprio Senhor trabalha incessantemente e está sempre sem apego.

Assim como a água não pode molhar a folha de lótus, o trabalho não pode prender o homem altruísta, dando origem ao apego aos resultados.

O homem altruísta e desapegado pode adentrar o próprio coração de uma cidade populosa e pecaminosa; ele não se misturará com o pecado por isso.

Essa ideia de completo autossacrifício é ilustrada na seguinte história: — Após a batalha de Kurukshetra, os cinco irmãos Pandava realizaram um grande sacrifício e fizeram dádivas muito generosas aos pobres.

Todas as pessoas expressaram admiração pela grandeza e riqueza do sacrifício, e disseram que tal sacrifício o mundo jamais vira antes.

Mas, após a cerimônia, veio um pequeno mangusto; metade do seu corpo era dourada, e a outra metade era marrom; e ele começou a rolar no chão do salão sacrificial.

Então ele disse aos que estavam ao redor: "Vocês são todos mentirosos; isto não é sacrifício." "O quê!" exclamaram eles, "você diz que isto não é sacrifício; não sabe como dinheiro e joias foram derramados sobre os pobres e

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Todos ficaram ricos e felizes? Esse foi o mais maravilhoso sacrifício que qualquer homem já realizou.'' Mas o mangusto disse: "Houve uma vez uma pequena aldeia, e nela vivia um pobre brâmane, com sua esposa, seu filho e a esposa de seu filho.

Eram muito pobres e viviam de esmolas obtidas por pregações e ensinamentos, pelos quais os homens lhes faziam pequenas doações.

Sobrevieram naquela terra três anos de fome, e o pobre brâmane sofreu mais do que nunca.

Por fim, por cinco dias a família passou fome, mas no sexto dia o pai trouxe para casa um pouco de farinha de cevada, que tivera a sorte de encontrar, e a dividiu em quatro partes, uma para cada membro da família.

Eles a prepararam para a refeição, e justamente quando estavam prestes a comer, ouviram uma batida na porta.

O pai abriu-a, e ali estava um hóspede.

Ora, na Índia um hóspede é uma pessoa sagrada; ele é como um deus por aquele momento, e deve ser tratado como tal.

Então o pobre brâmane disse: 'Entre, senhor; seja bem-vindo.' Ele colocou diante do hóspede a sua própria porção de comida, e o

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hóspede rapidamente a devorou, e então disse: 'Oh, senhor, o senhor me matou; estou faminto há dez dias, e esta pequena porção apenas aumentou minha fome.' Então a esposa disse ao marido: 'Dê-lhe a minha parte', mas o marido disse: 'Não.' A esposa, porém, insistiu, dizendo: 'Aqui está um pobre homem, e é nosso dever como chefes de família garantir que ele seja alimentado, e é meu dever como esposa dar-lhe minha porção, visto que o senhor não tem mais nada a oferecer-lhe.' Então ela deu sua parte ao hóspede, e ele a devorou, e disse que ainda ardia de fome.

Então o filho disse: 'Tome também a minha porção; é dever de um filho ajudar seu pai a cumprir suas obrigações.' O hóspede comeu aquela, mas permaneceu ainda insatisfeito; então a esposa do filho também lhe deu sua porção.

Isso foi suficiente, e o hóspede partiu, abençoando-os. Naquela noite, aquelas quatro pessoas morreram de fome.

Alguns grãos daquela farinha caíram no chão, e quando rolei meu corpo sobre eles, metade dele tornou-se dourado, como vedes. Desde então, tenho percorrido o mundo inteiro, esperando encontrar outro

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sacrifício como aquele, mas em nenhum lugar encontrei um. Em nenhum outro lugar a outra metade do meu corpo foi transformada em ouro; por isso digo que isto não é sacrifício.”

Essa ideia de caridade está desaparecendo da Índia; grandes homens estão se tornando cada vez mais raros.

Quando eu estava aprendendo inglês, li um livro de histórias inglês, onde a primeira história era sobre um menino cumpridor de seus deveres que saíra para trabalhar e dera parte de seu dinheiro à sua velha mãe, e isso era elogiado em três ou quatro páginas.

O que era isso, afinal? Nenhum menino hindu pode jamais compreender o grande mérito moral dessa história.

Agora entendo isso quando ouço a ideia ocidental — cada um por si.

E alguns homens tomam tudo para si, e pais, mães, esposas e filhos ficam para trás.

Isso nunca e em lugar algum deveria ser o ideal do chefe de família.

Agora vedes o que Karma-Yoga significa; mesmo à beira da morte, ajudar a qualquer um, sem fazer perguntas.

Sede enganados milhões de vezes

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e nunca façais uma pergunta, e nunca penseis no que estais fazendo.

Nunca vos vanglorieis de vossas dádivas aos pobres nem espereis sua gratidão, mas antes sede gratos a eles por vos darem a ocasião de praticar a caridade para com eles.

Assim, é evidente que ser um chefe de família ideal é uma tarefa muito mais difícil do que ser um Sannyasin ideal; a verdadeira vida de ação é de fato tão árdua quanto, se não mais árdua do que, a igualmente verdadeira vida de renúncia.

CAPÍTULO IV.

O QUE É O DEVER?

É necessário, no estudo do Karma-Yoga, saber o que é trabalho, e com isso surge naturalmente a questão do que é dever. Se tenho de fazer algo, devo primeiro conhecer meu dever em relação a isso, e então é que posso fazê-lo bem.

A ideia de dever, como já foi mostrado, é tão diferente nas diferentes nações.

O maometano diz que o que está escrito em seu livro, o Alcorão, é seu dever; o hindu diz que o que está em seu livro, os Vedas, é seu dever; e o cristão diz que o que está em sua Bíblia é seu dever.

Assim, descobrimos que há e deve haver ideias variadas de dever, diferindo conforme os diferentes estados de vida, e diferindo com diferentes períodos históricos e com diferentes nações.

O termo "dever", como todo outro termo abstrato universal, é impossível de definir claramente; só podemos ter uma ideia dele descrevendo seus arredores e conhecendo suas

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operações práticas e resultados.

Quando certas coisas ocorrem diante de nós, todos temos um impulso natural ou treinado para agir de certa maneira em relação a elas; quando esse impulso vem, a mente começa a pensar sobre a situação; às vezes pensa que é bom agir de uma maneira particular sob as condições dadas, outras vezes pensa que é errado agir da mesma maneira, mesmo nas mesmas circunstâncias.

A ideia comum de dever em toda parte é que todo homem bom segue os ditames de sua própria mente, ou consciência, como é mais frequentemente caracterizada.

"Mas o que é que torna um ato um dever? Se um cristão encontra um pedaço de carne bovina diante de si e não o come para salvar a própria vida, ou não o dá para salvar a vida de outro homem, ele certamente sentirá que não cumpriu seu dever.

Mas se um hindu ousa comer esse pedaço de carne bovina ou dá-lo a outro hindu, ele igualmente certamente sentirá que também não cumpriu seu dever; o treinamento e a educação dos hindus o fazem sentir assim.

No século passado, havia bandos reconhecidos de ladrões na Índia

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chamados Thugs; eles pensavam que era seu dever matar qualquer homem que pudessem e tomar todo o seu dinheiro; quanto maior o número de homens que matavam assim, melhores pensavam que eram. Ordinariamente, se um homem sai à rua e atira em outro homem, ele tende a sentir pena disso, pensando que fez algo errado e que não cumpriu claramente seu dever.

Mas se o próprio homem, de pé como soldado combatente nas fileiras de seu regimento, mata não um homem, mas vinte homens ao abatê-los a tiros, certamente sentirá alegria e pensará que cumpriu seu dever notavelmente bem.

Portanto, deve ser fácil perceber que não é a coisa feita que define um dever.

"Dar uma definição objetiva de dever é, portanto, inteiramente impossível; não existe algo como um dever objetivamente definido.

Contudo, há dever do lado subjetivo; qualquer ação que nos faz ir em direção a Deus é uma boa ação, e é nosso dever; qualquer ação que nos faz descer é uma ação má, e não é nosso dever.

Do ponto de vista subjetivo, podemos ver que certos atos têm uma

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tendência a exaltar e enobrecer-nos, enquanto certos outros atos têm uma tendência a degradar e brutalizar-nos. Mas não é possível determinar com certeza quais atos têm qual tipo de tendência em relação a todas as pessoas de todos os tipos e condições.

Há, no entanto, apenas uma ideia de dever que foi universalmente aceita por toda a humanidade, de todas as épocas e seitas e países, e que foi resumida num aforismo sânscrito assim: — "Não firais nenhum ser; não ferir nenhum ser é virtude; ferir qualquer ser é vício." Esta é a única definição universal e objetiva de dever que podemos encontrar.

Quanto ao aspecto subjetivo do dever, não podemos dizer mais do que o espírito no qual certos atos são realizados acontece de ser elevador e enobrecedor, enquanto o espírito no qual certos outros atos são realizados tende a nos rebaixar, muitas vezes até em nossa própria estima.

O Bhagavad-Gita frequentemente alude a deveres dependentes do nascimento e da posição na vida.

O nascimento e a posição na vida e na sociedade determinam em grande parte a atitude mental e moral dos

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indivíduos em relação às várias atividades da vida.

É, portanto, nosso dever fazer aquele trabalho que nos exaltará e enobrecerá de acordo com os ideais e atividades da sociedade na qual nascemos.

Mas deve ser particularmente lembrado que os mesmos ideais e atividades não prevalecem em todas as sociedades e países; nossa ignorância disso é a principal causa de grande parte do ódio de uma nação contra outra.

Um americano pensa que tudo o que um americano faz, de acordo com o costume de seu país, é a melhor coisa a fazer, e que quem não segue seu costume deve ser um homem muito perverso.

Um hindu pensa que seus costumes são os únicos certos e são os melhores do mundo, e que quem não os obedece deve ser o homem mais perverso que existe.

Este é um erro bastante natural, no qual todos nós caímos facilmente.

É um erro muito prejudicial, e é a causa de mais da metade da falta de caridade que se encontra no mundo.

Quando vim a este país e estava percorrendo a Feira de Chicago, um homem veio atrás de mim e deu um puxão muito violento no meu turbante.

Olhei para trás e vi que ele era um homem de aparência muito distinta, bem vestido.

Falei com ele em inglês, e quando o fiz, ele ficou muito envergonhado, aparentemente porque não pensou que eu soubesse falar inglês.

Em outra ocasião, na mesma Feira, outro homem me empurrou.

Quando lhe perguntei a razão de ele ter feito isso, ele também ficou envergonhado e, por fim, gaguejou um pedido de desculpas e disse: "Por que você se veste dessa maneira?" As simpatias desses homens estavam limitadas ao estreito âmbito de sua própria língua e de seu próprio modo de vestir.

Aquele mesmo homem que me perguntou por que eu não me vestia como ele, e que queria me maltratar por causa de minha vestimenta, é, com toda probabilidade, um homem muito bom; pode ser um bom pai e um bom cidadão em todos os sentidos; mas a bondade de sua natureza se extinguiu assim que viu um homem com roupas diferentes.

Estrangeiros são explorados em todos os países, porque geralmente não sabem como se defender na nova situação; portanto, levam para casa impressões falsas dos povos que veem.

Marinheiros, soldados e comerciantes comportam-se em terras estrangeiras de maneiras muito estranhas, embora jamais sonhassem em fazer algo assim em seu próprio país; talvez seja por isso que os chineses chamam europeus e americanos de "demônios estrangeiros".

Portanto, o único ponto que devemos lembrar é que devemos sempre tentar ver o dever dos outros através dos olhos deles, e nunca desejar julgar os costumes de outras raças ou outros povos pelo nosso próprio padrão.

"Eu não sou o padrão do universo." Esta é a grande lição a aprender: "Tenho de me adaptar ao mundo, e não o mundo a mim." Portanto, vemos que os ambientes mudam a natureza dos nossos deveres, e cumprir da melhor maneira possível aquele dever que é nosso em qualquer momento particular é a melhor coisa que podemos fazer neste mundo.

Cumpramos o dever que é nosso por nascimento; e quando o tivermos cumprido, cumpramos o dever que é nosso pela nossa posição na vida e na sociedade.

Cada homem está colocado em alguma posição ou outra na vida e deve cumprir os deveres dessa

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posição.

Há, no entanto, um grande perigo na natureza humana, a saber: que o homem nunca olha claramente para si mesmo.

Ele pensa que é perfeitamente apto a estar no trono tanto quanto o rei.

Mesmo que seja, ele deve primeiro mostrar que cumpriu plenamente o dever da sua própria posição; e quando tiver feito isso, deveres mais elevados virão a ele.

Que um homem mostre ao mundo que é forte o bastante para fazer bem a pequena tarefa que lhe foi designada; e quando tiver feito isso, outra tarefa, mais elevada, virá a ele.

Quando começamos a trabalhar seriamente no mundo, a natureza nos dá golpes à direita e à esquerda e logo nos permite descobrir a nossa devida posição.

Nenhum homem pode ocupar por muito tempo, satisfatoriamente, uma posição para a qual não é apto.

Não adianta reclamar contra o ajuste da natureza. Aquele que faz o trabalho inferior não é, portanto, um homem inferior.

Nenhum homem deve ser julgado pela mera natureza dos seus deveres, mas todos devem ser julgados pela maneira e pelo espírito com que os executam.

Mais adiante descobriremos que mesmo essa ideia de dever tem de ser mudada, e que o maior e

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O mais nobre trabalho só é realizado quando quase não há motivo nos impulsionando por trás.

Contudo, é através do senso de dever que somos levados a trabalhar sem qualquer ideia de dever; quando o trabalho se tornar adoração — ou algo ainda mais elevado, então o trabalho se sustentará por si mesmo.

Mas esse é o ideal mais alto, e o caminho até ele passa pelo dever.

Descobriremos que a filosofia por trás de todas as concepções de dever, seja na forma de ética ou de amor, é a mesma que em todo tipo de Yoga — o objetivo sendo a atenuação do eu inferior para que o verdadeiro eu superior possa brilhar em glória; circunscrever a dissipação de energias nos planos inferiores da existência, para que a alma possa se manifestar nos planos mais elevados e grandiosos.

Isso se realiza pela negação contínua dos desejos baixos, que o dever rigorosamente exige.

Toda a organização da sociedade tem assim se desenvolvido, consciente ou inconscientemente, no campo das ações e no terreno da experiência, onde, ao limitar os baixos desejos do egoísmo, abrimos o caminho para uma

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expansão ilimitada da verdadeira natureza superior do homem.

É uma lei bem estabelecida do dever que, visto subjetivamente, o egoísmo e a sensualidade conduzem ao vício e à maldade, enquanto o amor desinteressado e o autocontrole conduzem ao desenvolvimento da virtude.

E o dever raramente é doce.

É somente quando o amor lubrifica suas rodas que ele corre suavemente; caso contrário, é um atrito contínuo.

Que pais podem, de outra forma, cumprir seus deveres para com seus filhos? Que filhos para com seus pais? Que marido para com sua esposa? Que esposa para com seu marido? Não encontramos casos de atrito todos os dias em nossas vidas? O dever só é doce através do amor, e o amor brilha sozinho em liberdade.

Contudo, é liberdade ser escravo dos sentidos, da raiva, dos ciúmes e de cem outras pequeninas coisas que devem e de fato ocorrem todos os dias na vida humana? Em todas essas pequenas asperezas que encontramos na vida, a mais alta expressão de liberdade e de poder é abster-se.

Mulheres, escravas de seus próprios temperamentos irritadiços e ciumentos, são muitas vezes propensas a atribuir culpa aos maridos e a afirmar sua própria "liberdade", como pensam,

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não sabendo que, ao fazer isso, apenas provam que são escravas.

Assim também acontece com os maridos que vivem eternamente a criticar suas esposas.

A castidade é a primeira virtude no homem ou na mulher, e o homem que, por mais que tenha se desviado, não puder ser trazido de volta ao caminho certo por uma esposa gentil, amorosa e casta, é deveras raro.

Este mundo ainda não é tão mau assim.

Ouvi muito sobre maridos brutais em todo o mundo e sobre a impureza dos homens, mas minha experiência mostra que há tantas mulheres brutais e impuras quanto homens.

Se as mulheres da América fossem tão boas e puras quanto suas próprias afirmações constantes levariam um estrangeiro a crer, estou perfeitamente convencido de que não haveria um único homem impuro neste país.

Com quem, então, poderiam os homens tornar-se impuros? Que brutalidade existe que a pureza e a castidade não possam conquistar? Uma boa esposa casta, que considera todo outro homem, exceto seu próprio marido, como seu filho, e tem a atitude de uma mãe para com todos os homens, crescerá tanto no poder de sua pureza

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que não poderá haver um único homem, por mais brutal que seja, que não respire uma atmosfera de santidade em sua presença.

Da mesma forma, todo marido deve olhar para todas as mulheres, exceto sua própria esposa, à luz de sua própria mãe, filha ou irmã. Aquele homem, novamente, que deseja ser um professor de religião deve olhar para toda mulher como sua mãe e sempre se comportar para com ela como tal.

A posição da mãe é a mais elevada do mundo, pois é o único lugar em que devemos aprender e exercitar o maior desprendimento: o amor de Deus é o único amor mais elevado que o amor de mãe; todos os outros tipos de amor são inferiores.

É dever da mãe pensar primeiro em seus filhos e depois em si mesma.

Mas, em vez disso, se os pais estão sempre pensando em si mesmos primeiro, mesmo em coisas tão pequenas como a comida, tomando as melhores porções para si e deixando que os filhos fiquem com o que puderem, o resultado é que a relação entre pais e filhos torna-se quase como a relação entre as aves e seus filhotes, que, assim que emplumam, não reconhecem mais os pais. Bendito, de fato, é o homem que consegue olhar para a mulher como a representante da maternidade de Deus.

Bendita, de fato, é a mulher para quem o homem representa a paternidade de Deus.

Benditos são os filhos que olham para seus pais como a Divindade manifestada na terra.

O único caminho para ascender é cumprindo o dever que está em nossas mãos agora, e tornando-nos mais fortes; e assim continuar crescendo cada vez mais alto, até alcançarmos o estado mais elevado.

Nem dever algum deve ser menosprezado.

Digo novamente que um homem que faz o trabalho inferior não é, por isso, um homem inferior àquele que faz o trabalho superior; um homem não deve ser julgado pela natureza de seus deveres, mas pela maneira como os executa.

Sua maneira de executá-los e seu poder de executá-los são, de fato, o teste do homem.

Um sapateiro que consegue produzir um par de sapatos resistente e bonito no menor tempo possível é um homem melhor, segundo sua profissão e seu trabalho, do que um professor que fala tolices todos os dias de sua vida.

Um certo jovem Sannyasin foi para uma floresta e lá meditou, adorou e praticou Yoga por muito tempo.

Após doze anos de árduo trabalho e prática, estava ele um dia sentado sob uma árvore, quando algumas folhas secas caíram sobre sua cabeça.

Ele olhou para cima e viu um corvo e uma garça brigando no topo da árvore, e eles o deixaram muito irado. Ele disse: "O quê! Ousais atirar essas folhas secas sobre minha cabeça!", e enquanto os olhava com ira, um clarão de fogo irrompeu de sua cabeça — tal era o poder do iogue — e queimou as aves até virarem cinzas.

Ele ficou muito contente; ficou quase eufórico com esse desenvolvimento de poder em si mesmo; ele pudera queimar com um olhar o corvo e a garça.

Depois de algum tempo, teve de ir à cidade para mendigar o pão.

Chegou e parou diante de uma porta e disse: "Mãe, dá-me comida." Uma voz veio de dentro da casa: — "Espera um pouco, meu filho." O jovem pensou: "Mulher miserável, como ousas fazer-me esperar! Ainda não conheces o meu poder." Enquanto pensava assim, a voz de dentro veio novamente: — "Rapaz, não

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penses demasiado bem de ti mesmo.

Aqui não há nem corvo nem grou." Ele ficou assombrado; ainda assim teve de esperar.

Por fim, veio uma mulher, e ele caiu a seus pés e disse: — "Mãe, como soubeste disso?" Ela disse: — "Meu filho, eu não conheço o teu Yoga nem as tuas práticas.

Sou uma mulher comum, do dia a dia, mas fiz-te esperar porque o meu marido está doente, e eu estava a cuidar dele, e esse era o meu dever.

Toda a minha vida lutei para cumprir o meu dever.

Como filha, quando era solteira, cumpri o meu dever; e agora, que sou casada, ainda cumpro o meu dever; esse é todo o Yoga que pratico, e por cumprir o meu dever tornei-me iluminada; assim pude ler os teus pensamentos e o que fizeste na floresta.

Mas se queres saber algo mais elevado do que isto, vai a tal e tal cidade e ao mercado, e lá encontrarás um açougueiro; e ele te dirá algo que ficarás muito contente em aprender." O pensamento: "Por que haveria eu de ir àquela cidade e a um açougueiro!" (Os açougueiros são a classe mais baixa no nosso país; são chamados

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Chandalas; não são tocados porque são açougueiros; além do seu trabalho como açougueiros, cumprem o dever de varredores e assim por diante).

Mas depois do que vira, a sua mente abriu-se um pouco, então foi; e quando se aproximou da cidade, encontrou o mercado, e lá viu, à distância, um grande e gordo açougueiro a retalhar animais com grandes facas, conversando e negociando com diferentes pessoas.

O jovem disse: “Senhor, ajudai-me! É este o homem de quem vou aprender sabedoria? Ele é a encarnação de um demônio, se é que é alguma coisa.” Enquanto isso, o homem ergueu os olhos e disse: “Ó Swamin, foi a senhora que o enviou até aqui? Sente-se até eu terminar meus negócios.” O Sannyasin pensou: “O que é que me espera aqui?” E sentou-se; mas o homem continuou, e depois de terminar toda a sua venda e negociação, pegou seu dinheiro e disse ao Sannyasin: “Venha cá, senhor; venha à minha casa.” Então foram para lá, e o açougueiro lhe deu um assento e disse: “Espere aí.” Depois entrou em casa, e lá estavam seu pai e sua mãe. Ele os lavou, alimentou-os e fez tudo o que pôde para agradá-los, e então veio e sentou-se diante do Sannyasin e disse: “Agora, senhor, o senhor veio aqui para me ver; o que posso fazer por você?” Então o grande Sannyasin lhe fez algumas perguntas sobre a alma e sobre Deus, e o açougueiro lhe deu uma lição que até hoje constitui uma obra muito célebre na Índia — o “Vyadha-Gita”. Contém um dos voos mais elevados do Vedanta, o mais alto voo da metafísica.

Vocês já ouviram falar do Bhagavad Gita, o sermão de Krishna. Quando terminarem de lê-lo, deveriam ler o Vyadha-Gita; ele contém a essência concentrada da filosofia Vedanta.

Quando o açougueiro terminou seu ensinamento, o Sannyasin ficou espantado. Ele disse: “Por que você está nesse corpo? Com tal conhecimento como o seu, por que está num corpo de açougueiro, fazendo um trabalho tão sórdido e feio?” O açougueiro respondeu: “Nenhum dever é feio, nenhum dever é impuro. Meu nascimento, circunstâncias e ambientes já estavam lá quando nasci. Na minha infância aprendi o ofício; sou desapegado e procuro fazer bem o meu dever. Procuro cumprir meu dever como chefe de família e faço tudo o que posso para tornar meu pai e minha mãe felizes. Não conheço o seu Yoga, nem me tornei Sannyasin, nem jamais saí do mundo para uma floresta; no entanto, tudo o que você ouviu e viu veio a mim através do cumprimento desapegado do dever que pertence à minha posição.”

Há um sábio na Índia, um grande iogue, um dos homens mais extraordinários que já vi em minha vida.

Ele é um homem peculiar; não ensina a ninguém; se você lhe fizer uma pergunta, ele não responderá.

É demais para ele assumir a posição de mestre; ele não o fará. Se você fizer uma pergunta e então esperar por alguns dias, no decorrer da conversa ele trará o assunto à tona por si mesmo, e

que luz maravilhosa ele lançará sobre ele! Ele me contou uma vez o segredo do trabalho perfeito, e o que disse foi: "Que o fim e os meios sejam unidos em um só, e esse é o

segredo do trabalho." Quando você estiver fazendo qualquer trabalho, não pense em nada além disso.

Faça-o como adoração, como a mais elevada adoração, e dedique sua vida inteira a ele por enquanto.

Essa adoração do trabalho é por si mesma.

Assim, nesta história, o açougueiro e a mulher cumpriram seu dever com alegria, inteireza de coração e disposição; e o resultado foi que se tornaram iluminados.

Todo dever é sagrado, e a devoção ao dever é a forma mais elevada de adoração a Deus; é certamente uma fonte de grande auxílio para iluminar e emancipar a alma iludida e sobrecarregada pela ignorância dos Baddhas — os aprisionados.

Esta história nos mostra claramente que o desempenho correto dos deveres de qualquer posição na vida, sem nos apegarmos a resultados e consequências, conduz-nos à mais alta realização da perfeição da alma.

Nossos deveres são em grande parte determinados por nosso ambiente, e não pode haver alta ou baixa consideração por eles.

É o trabalhador apegado aos resultados que reclama da natureza do dever que lhe coube realizar; para o trabalhador desapegado, todos os deveres são igualmente bons, e são instrumentos eficientes com os quais o egoísmo e a sensualidade podem ser efetivamente mortos, e a liberdade da alma infalivelmente assegurada.

Todos tendemos a pensar demasiadamente bem de nós mesmos.

Quando eu era menino, costumava sonhar que era um grande imperador e um grande isto e um grande aquilo;

assim, suponho, você também já sonhou.

Mas tudo é um sonho, e a justiça da natureza é uniformemente severa e implacável.

Portanto, nossos deveres também são determinados por nossos méritos em uma extensão muito maior do que estamos dispostos a admitir.

Ao cumprirmos bem o dever que nos é mais próximo, o dever que está em nossas mãos agora, tornamo-nos mais fortes; e, melhorando nossa força dessa maneira, passo a passo, podemos até alcançar um estado em que seja nosso privilégio realizar os deveres mais cobiçados e honrados da vida e da sociedade.

A competição desperta a inveja e mata a bondade do coração.

Para o resmungão, todos os deveres são desagradáveis;

nada jamais o satisfará, e toda a sua vida está

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fadada a ser um fracasso.

Trabalhemos, fazendo, ao longo do caminho, o que quer que seja nosso dever, e estando sempre prontos a colocar os ombros à roda.

Então, certamente veremos a Luz!

CAPÍTULO V.

AJUDAMOS A NÓS MESMOS, NÃO AO MUNDO.

Antes de considerar mais a fundo como a devoção ao dever nos ajuda em nosso progresso espiritual, permita-me apresentar diante de vocês, da forma mais breve possível, outro aspecto do que nós, na Índia, entendemos por Karma.

Em toda religião há três partes; primeiro, há a filosofia; depois, há a mitologia; e, por último, há o ritual.

A filosofia é, naturalmente, a essência de cada uma das religiões; a mitologia dá expressão a essa filosofia e a explica e ilustra por meio das vidas mais ou menos lendárias de grandes homens e de histórias e fábulas de coisas maravilhosas e assim por diante; o ritual dá a essa filosofia uma forma ainda mais concreta, para que todos possam compreendê-la — o ritual é, de fato, filosofia concretizada.

Esse ritual é Karma; é necessário em toda religião, porque a maioria de nós não consegue compreender coisas espirituais abstratas até crescermos muito

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espiritualmente.

É fácil para os homens pensar que podem compreender qualquer coisa, mas, quando se trata da experiência prática, descobrem que ideias abstratas são muitas vezes muito difíceis de entender.

Portanto, os símbolos são de grande ajuda, e não podemos dispensar o método simbólico de apresentar as coisas diante de nós. Desde tempos imemoriais, os símbolos têm sido usados por todos os tipos de religiões.

Em um sentido, não podemos deixar de pensar em símbolos; as próprias palavras são símbolos do pensamento.

Em outro sentido, tudo no universo pode ser encarado como um símbolo.

O universo inteiro é um símbolo e Deus é a essência por trás dele.

Esse tipo de simbologia não é simplesmente uma criação do homem; não é que certas pessoas pertencentes a uma religião se reúnam e elaborem certos símbolos — mãos, pés e assim por diante — e os façam surgir de suas próprias mentes.

Os símbolos da religião têm um crescimento natural.

Caso contrário, por que se dá que certos símbolos estão associados a certas ideias na mente de quase todas as pessoas? Certos símbolos são universalmente predominantes.

Muitos

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de vocês pensam que a cruz surgiu primeiramente como símbolo em conexão com a religião cristã, mas, de fato, ela existia antes do Cristianismo, antes do nascimento de Moisés, antes de os Vedas serem revelados, antes de haver qualquer registro humano das coisas humanas.

A cruz pode ser encontrada em existência entre os astecas e os fenícios; todos parecem ter tido a cruz.

Igualmente, o símbolo do Salvador crucificado, de um homem crucificado numa cruz, parece ter sido conhecido por quase todas as nações.

O círculo tem sido um grande símbolo

em todo o mundo.

Há também o mais

universal de todos os símbolos, a Suástica. Em certa época, pensou-se que os budistas a haviam levado pelo mundo consigo, mas descobriu-se que, eras antes do Budismo, ela era usada entre nações.

Na antiga Babilônia e no Egito, ela era encontrada.

O que isso demonstra? Todos esses símbolos não poderiam ter sido puramente convencionais.

Deve haver alguma razão para eles, alguma associação natural entre eles e a mente

humana.

A linguagem não é resultado de convenção; não é que as pessoas tenham alguma vez concordado em representar certas ideias por certas palavras; nunca houve uma ideia sem uma palavra correspondente, ou uma palavra sem uma ideia correspondente; ideias e palavras são, por sua natureza, inseparáveis.

Os símbolos que representam ideias podem ser símbolos sonoros ou símbolos de cor.

Pessoas surdas e mudas têm de pensar com outros símbolos que não os sonoros.

Cada pensamento na mente tem uma forma como sua contraparte; isso é chamado em filosofia sânscrita de *nanta-rupa* — nome e forma.

É tão impossível criar por convenção um sistema de símbolos quanto é criar uma linguagem.

Nos símbolos ritualísticos do mundo temos uma expressão do pensamento religioso da humanidade.

É fácil dizer que não há utilidade em rituais, templos e todo esse aparato; toda criança diz isso nos tempos modernos. Mas deve ser fácil para todos verem que aqueles que adoram dentro de um templo são, em muitos aspectos, diferentes daqueles que não querem adorar ali.

Portanto, a associação de templos, rituais e outras formas concretas particulares com religiões particulares tem uma tendência a trazer à mente dos seguidores dessas religiões os pensamentos pelos quais essas coisas concretas servem como símbolos; e não é seguro ignorar completamente rituais e simbologia.

O estudo e a prática dessas coisas formam naturalmente uma parte do Karma-Yoga.

Há muitos outros aspectos dessa ciência do trabalho: um deles é conhecer a relação entre pensamento e palavra e o que pode ser alcançado pelo poder da palavra.

Em toda religião o poder da palavra é reconhecido, tanto que em algumas delas a própria criação é dita ter surgido da palavra.

O aspecto externo do pensamento de Deus é a Palavra, e, como Deus pensou e quis antes de criar, a criação surgiu da Palavra.

Nessa tensão e pressa de nossa vida materialista, nossos nervos perdem a sensibilidade e se endurecem como uma corda de ferro.

Quanto mais velhos ficamos, quanto mais somos atirados pelo mundo, mais endurecidos se tornam nossos nervos; e somos propensos a negligenciar coisas que estão mesmo persistente e proeminentemente acontecendo ao nosso redor. A natureza humana, no entanto, afirma-se às vezes e somos levados a investigar e nos maravilhar com alguns desses acontecimentos comuns; e maravilhar-se assim é o primeiro passo na aquisição de luz.

Aparte do mais elevado valor filosófico e religioso da Palavra, podemos ver que os símbolos sonoros desempenham um papel proeminente no drama da vida humana.

Estou falando com vocês, não estou tocando em vocês; as pulsações do ar causadas pela minha fala entram em seus ouvidos, tocam seus nervos e produzem efeitos em suas mentes.

Vocês não podem resistir a isso.

O que pode ser mais maravilhoso do que isto? Um homem chama outro de tolo, e este outro se levanta, cerra o punho e desfere um golpe no nariz dele; Olhem o poder da palavra! Há uma mulher chorando e miserável; outra mulher se aproxima e lhe diz algumas palavras gentis; o corpo encurvado da mulher que chora se endireita imediatamente, sua tristeza desaparece e ela já começa a sorrir.

Pensem

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no poder das palavras! Elas são uma grande força tanto na filosofia superior quanto na vida comum.

Dia e noite manipulamos essa força sem pensar e sem questionar.

Conhecer a natureza dessa força e usá-la bem também é uma parte do Karma-Yoga.

. Nosso dever para com os outros significa ajudar os outros; isto é, fazer o bem ao mundo.

Por que deveríamos fazer o bem ao mundo? Aparentemente para ajudar o mundo, mas na realidade é para ajudarmos a nós mesmos.

Deveríamos sempre tentar ajudar o mundo; esse deveria ser o mais elevado motivo em nós; mas, quando analisamos a coisa adequadamente, descobrimos que o mundo não precisa de nossa ajuda de forma alguma. Este mundo não foi feito para que você ou eu viéssemos ajudá-lo. Certa vez li um sermão em que se dizia: "Todo este belo mundo é muito bom, porque dá

tempo e oportunidade para ajudar os outros." Aparentemente, este é um sentimento muito belo; mas, em certo sentido, é uma grande maldição pensar assim; pois não é blasfêmia dizer que o mundo precisa de nossa ajuda? Não podemos negar que há muita miséria

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no mundo; sair e ajudar os outros é, portanto, o mais elevado motivo que podemos ter, embora, no fim das contas, descubramos que ajudar os outros é apenas ajudar a nós mesmos.

Quando menino, eu tinha alguns camundongos brancos.

Eles ficavam numa caixinha e tinham pequenas rodas feitas para eles, e quando os camundongos tentavam atravessar as rodas, as rodas giravam e giravam, e os camundongos nunca chegavam a lugar nenhum.

Assim é com o mundo e com o nosso auxílio a ele. A única ajuda é que obtenhamos exercício moral.

Este mundo não é nem bom nem mau; cada homem fabrica um mundo para si mesmo.

Se um cego começa a pensar no mundo, é ou como macio ou duro, ou como frio ou quente.

Somos uma massa de felicidade ou miséria; vimos que assim é conosco centenas de vezes em nossas vidas.

Como regra, os jovens são otimistas e os velhos pessimistas. Os jovens têm toda a vida diante de si; os velhos se queixam de que seu dia se foi; centenas de desejos, que não podem realizar, lutam em seus corações.

A vida está quase no fim para eles.

Ambos são tolos, no entanto. Esta vida não é nem boa nem má.

[ ]

É de acordo com os diferentes estados de mente em que a encaramos. O homem mais prático não a chamaria nem de boa nem de má.

O fogo, por si só, não é nem bom nem mau. Quando nos mantém aquecidos, dizemos: "Como é belo o fogo!" Quando queima nossos dedos, culpamos o fogo.

Ainda assim, em si mesmo, não é nem bom nem mau.

Conforme o usamos, ele produz em nós o sentimento de bom ou mau; e assim também é este mundo.

Ele é perfeito.

Por perfeição entende-se que ele está perfeitamente adaptado para cumprir seus fins.

Podemos todos estar perfeitamente certos de que ele continuará lindamente bem sem nós, e não precisamos nos preocupar desejando ajudá-lo.

Contudo, devemos fazer o bem; o desejo de fazer o bem é o mais alto poder motivador moral que temos, se soubermos, o tempo todo, que é um privilégio ajudar os outros.

Não fique em um alto pedestal e pegue cinco centavos em sua mão e diga: "Aqui está, meu pobre homem", mas agradecido por o pobre homem estar ali, para que, dando-lhe um presente, você seja capaz de ajudar a si mesmo. Não é o receptor que é abençoado, mas é o doador.

Seja grato por você ser

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permitido exercitar seu poder de benevolência e misericórdia no mundo, e assim tornar-se puro e perfeito.

Todos os bons atos tendem a nos tornar puros e perfeitos.

O que podemos fazer, na melhor das hipóteses? Construir um hospital, abrir estradas ou erguer asilos de caridade! Podemos organizar uma instituição de caridade e arrecadar dois ou três milhões de dólares, construir um hospital com um milhão, com o segundo dar bailes e beber champanhe, e do terceiro deixar os diretores roubarem metade, e o restante finalmente chegar aos pobres; mas o que é tudo isso? Um vento poderoso, em cinco minutos, pode destruir todos os seus edifícios. O que faremos então? Uma erupção vulcânica pode varrer todas as nossas estradas, hospitais, cidades e construções.

Abandonemos toda essa conversa tola sobre fazer o bem ao mundo.

Ele não está esperando pela sua ou pela minha ajuda; ainda assim, devemos trabalhar e constantemente fazer o bem, porque isso é uma bênção para nós mesmos.

Esse é o único caminho pelo qual podemos nos tornar perfeitos.

Nenhum mendigo a quem ajudamos jamais nos deveu um único centavo; devemos tudo a ele, porque ele nos permitiu exercitar nossos poderes de piedade e compaixão e

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caridade sobre ele.

É totalmente errado pensar que fizemos, ou podemos fazer, o bem ao mundo, ou pensar que ajudamos tais e tais pessoas.

É um pensamento tolo, e todos os pensamentos tolos trazem sofrimento.

Pensamos que ajudamos alguém e esperamos que ele nos agradeça; e, porque ele não o faz, a infelicidade nos sobrevém. Por que deveríamos esperar qualquer coisa em troca do que fazemos? Seja grato ao homem que você ajuda, pense nele como Deus.

Não é um grande privilégio poder adorar a Deus ajudando nosso próximo? Se fôssemos verdadeiramente desapegados, escaparíamos de toda essa dor da vã expectativa e poderíamos alegremente fazer o bem no mundo.

Nunca a infelicidade ou o sofrimento virão através do trabalho feito sem apego.

O mundo continuará com sua felicidade e miséria por toda a eternidade.

Havia um homem pobre que queria dinheiro; e, de algum modo, ele ouvira que, se pudesse obter um fantasma ou algum espírito, poderia ordenar-lhe que trouxesse dinheiro ou qualquer coisa que desejasse; então ele estava muito ansioso para obter um

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fantasma.

Ele saiu em busca de um homem que lhe desse um fantasma; e por fim encontrou um sábio, com grandes poderes, e suplicou a esse sábio que o ajudasse.

O sábio perguntou-lhe o que faria com um fantasma.

“Quero um fantasma para trabalhar para mim; ensina-me como obter um, senhor; desejo muito isso”, respondeu o homem.

Mas o sábio disse: “Não se perturbe, vá para casa.” No dia seguinte, o homem foi novamente ao sábio e começou a chorar e a suplicar.

“Dê-me um fantasma; preciso de um fantasma, senhor, para me ajudar.” Por fim, o sábio ficou enojado e disse: “Tome este encanto, repita esta palavra mágica, e um fantasma virá, e tudo o que você disser a esse fantasma ele fará por você.

Mas cuidado; são seres terríveis e devem ser mantidos continuamente ocupados.

Se você falhar em dar-lhe trabalho, ele tirará sua vida.” O homem respondeu: “Isso é fácil; posso dar-lhe trabalho para toda a vida.” Então ele foi a uma floresta e, após longa repetição da palavra mágica, um enorme fantasma apareceu diante dele, com grandes dentes, e disse: —

Sou um fantasma.

Fui conquistado pela sua magia.

Mas você deve me manter constantemente ocupado.

No momento em que você falhar em me dar trabalho, eu o matarei. O homem disse: — “Construa-me um palácio”, e o fantasma disse: “Está feito; o palácio está construído.”

“Traga-me dinheiro”, disse o homem.

“Aqui está o seu dinheiro”, disse o fantasma.

“Derrube esta floresta e construa uma cidade em seu lugar.” “Está feito”, disse o fantasma; “mais alguma coisa?” Agora o homem começou a ficar assustado e disse: — “Não posso dar-lhe mais nada para fazer; ele faz tudo num instante.” O fantasma disse: — “Dê-me algo para fazer ou eu o devoro.” O pobre homem não conseguia encontrar mais ocupação para ele e ficou aterrorizado.

Então ele correu e correu e por fim chegou ao sábio e disse: “Oh, senhor, proteja minha vida!” O sábio perguntou-lhe o que havia acontecido, e o homem respondeu: — “Não tenho nada para dar ao fantasma para fazer. Tudo o que mando ele fazer, ele faz num momento, e ele ameaça me devorar se eu não lhe der trabalho.” Nesse instante, o fantasma chegou, dizendo: “Vou engoli-lo”, e ele teria engolido o homem.

O homem começou a tremer e suplicou ao sábio que lhe salvasse a vida.

O sábio disse: — “Encontrarei um meio de te livrar.

Olha para aquele cão de rabo encaracolado.

Tira a tua espada rapidamente, corta o rabo e dá-o ao fantasma para que o endireite.” O homem cortou o rabo do cão e deu-o ao fantasma, dizendo: “Endireita isso para mim.” O fantasma pegou-o e, lenta e cuidadosamente, endireitou-o, mas assim que o soltou, ele imediatamente se enrolou de novo. Mais uma vez, laboriosamente, endireitou-o, apenas para vê-lo enrolar-se novamente assim que tentou soltá-lo. De novo, pacientemente, endireitou-o, mas assim que o soltou, enrolou-se outra vez.

Assim, continuou por dias e dias, até ficar exausto, e disse: “Nunca estive em tamanha aflição em toda a minha vida.

Sou um velho fantasma veterano, mas nunca antes estive em tamanha aflição.

Farei um acordo contigo,” disse ele ao homem.

“Deixa-me ir e eu te deixarei ficar com tudo o que te dei e prometerei não te fazer mal.” O homem ficou muito satisfeito e aceitou a oferta com alegria.

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Este mundo é o rabo encaracolado daquele cão, e as pessoas têm se esforçado para endireitá-lo, cada uma à sua maneira, por centenas de anos; mas quando o soltam, ele se enrola de novo.

Como poderia ser de outro modo? É preciso primeiro saber como trabalhar sem apego; então não se será um fanático.

Quando soubermos que este mundo é como um rabo de cão encaracolado e que nunca se endireitará do modo como queremos, não nos tornaremos fanáticos.

Há fanáticos de vários tipos, fanáticos por vinho, fanáticos por charuto e assim por diante. Houve uma vez uma jovem senhora nesta classe.

Ela é uma de várias senhoras em Chicago que construíram uma casa onde acolhem os trabalhadores e lhes oferecem um pouco de música e ginástica.

Um dia, essa jovem senhora falava comigo sobre os males da bebida e do fumo e assim por diante, e me disse que conhecia o remédio para tudo isso.

Perguntei a ela o que era, e ela disse: "Você não conhece a Hall House?" Evidentemente, na opinião dela, essa Hall House é uma grande panaceia "para todos os males a que a carne humana está sujeita". Há alguns fanáticos na Índia que pensam que, se uma

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mulher puder ter dois ou três maridos, isso curará todo o mal.

Tudo isso é fanatismo, e homens sábios nunca serão fanáticos.

Eles nunca podem fazer um trabalho real.

Se não houvesse fanatismo no mundo, ele progrediria muito mais do que progride agora.

É tudo um absurdo tolo pensar que o fanatismo contribui para o progresso da humanidade.

Em vez disso, é um bloqueio retardador, porque desperta ódio e raiva, e faz as pessoas lutarem umas contra as outras, e as torna insensíveis.

Pensamos que tudo o que fazemos ou possuímos é a melhor coisa do mundo, e que aquilo que não fazemos ou possuímos não tem valor.

Então, lembre-se sempre deste rabo enrolado do cachorro sempre que tiver tendência a se tornar um fanático.

Você não precisa se preocupar ou perder o sono por causa do mundo; ele continuará apesar de você.

O Senhor Deus é seu Governador e Mantenedor, e apesar dos fanáticos do vinho, dos fanáticos do charuto e de todos os tipos de fanáticos extravagantes, o mundo continuará sob Seu cuidado.

Quando você tiver evitado o fanatismo, só então

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trabalhará bem. É o homem sensato, o homem calmo, de bom julgamento e nervos frios, de grande simpatia e amor, que faz um bom trabalho e assim faz o bem a si mesmo.

O fanático é tolo e não tem simpatia; ele nunca pode endireitar o mundo, nem tornar-se puro e perfeito.

Vocês não se lembram do povo do Mayflower em sua própria história, e de como eles vieram para esta terra como Puritanos? No início, eles eram muito puros e bons, mas logo também começaram a perseguir outras pessoas.

É o mesmo em toda parte na história da humanidade; mesmo aqueles que fogem da perseguição entregam-se a perseguir outros assim que surge uma oportunidade favorável para isso. Li sobre dois navios maravilhosos.

A primeira é a Arca de Noé e a segunda é o "Mayflower". Os judeus sustentam que toda a criação saiu da Arca de Noé, e as Américas dizem que do "Mayflower" saiu quase metade do mundo.

Dificilmente encontro alguém neste país que não diga: "Meu avô ou bisavô saiu do Mayflower". Isso é fanatismo de outra espécie.

Em noventa casos de cem, os fanáticos devem ter problemas no fígado, ou são dispépticos, ou estão de alguma forma doentes.

Com o tempo, até os médicos descobrirão que o fanatismo é uma espécie de doença.

Já vi muito disso — Deus me livre disso! Minha experiência se condensou nesta forma, a saber: que devemos nos afastar de todos os tipos de reformas fanáticas.

Você quer dizer que os fanáticos da temperança amam os pobres coitados que se tornam bêbados? Fanáticos são fanáticos porque esperam obter algo para si mesmos do fanatismo.

Assim que a batalha termina, eles vão atrás do butim.

Assim que você sai da companhia de fanáticos, aprende a realmente amar e a ter compaixão.

Tornar-se-á possível para você compadecer-se do bêbado e saber que ele também é um homem como você.

Então você tentará compreender as muitas circunstâncias que o estão arrastando para baixo, e sentirá que, se estivesse no lugar dele, talvez tivesse cometido suicídio.

Lembro-me de uma mulher cujo marido é um grande bêbado queixando-se a mim de sua embriaguez.

Estou convencido de que uma grande proporção de bêbados é fabricada por suas esposas.

Meu dever é dizer a verdade e não lisonjear ninguém.

Aquelas mulheres desregradas, de cujas mentes as palavras "suportar e tolerar" desapareceram para sempre, e cujas falsas ideias de independência as levam a dizer que querem os homens sob seus pés, e que começam a gritar e uivar tão logo os homens ousam dizer-lhes algo de que não gostam — tais mulheres estão se tornando a praga do mundo, e é uma maravilha que não levem metade dos homens a cometer suicídio.

Essas mulheres conseguem que seus pregadores meio famintos fiquem do lado delas, e lhes digam: "Senhoras, vocês são os seres mais maravilhosos já criados." Então as mulheres declaram sobre cada um desses pregadores: "Este é o pregador para nós", e lhes dão dinheiro e outras coisas.

É assim que as coisas vão acontecendo. A vida não é uma piada tão grande assim; é um pouco mais séria.

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Peço-lhes agora que se lembrem dos pontos principais da palestra de hoje.

Primeiramente, temos de ter em mente que somos todos devedores do mundo e que o mundo não nos deve nada.

É um grande privilégio para todos nós podermos fazer qualquer coisa pelo mundo.

Ao ajudar o mundo, na verdade ajudamos a nós mesmos.

O segundo ponto a lembrar é que há um Deus neste universo.

Não é verdade que este universo esteja à deriva, necessitando de ajuda de você e de mim. Deus está sempre presente nele.

Ele é imortal e eternamente ativo e infinitamente vigilante.

Quando todo o universo dorme, Ele não dorme; Ele está trabalhando incessantemente — todas as mudanças e manifestações do mundo são Dele.

Terceiramente, não devemos odiar ninguém.

Este mundo sempre continuará a ser uma mistura de bem e mal.

Nosso dever é simpatizar com os fracos e amar até mesmo o que erra.

O mundo é um grande ginásio moral onde todos temos de nos exercitar, para nos tornarmos cada vez mais fortes espiritualmente.

Quartamente, não devemos

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ser fanáticos de qualquer tipo, porque o fanatismo é oposto ao amor.

Vocês ouvem fanáticos dizerem com desenvoltura: "Eu não odeio o pecador, odeio o pecado; mas estou disposto a ir a qualquer distância para ver o rosto daquele homem que pode realmente fazer uma distinção entre o pecado e o pecador."

É fácil dizer isso. Se pudermos distinguir bem entre qualidade e substância, poderemos nos tornar homens perfeitos.

Não é fácil fazer isso.

E, além disso, quanto mais calmos estivermos e quanto menos perturbados estiverem nossos nervos, mais amaremos e melhor será nosso trabalho.

CAPÍTULO VI.

O DESAPEGO É A COMPLETA ABREGAÇÃO DE SI MESMO.

Assim como toda ação que emana de nós retorna a nós em reação, também nossas ações podem atuar sobre outras pessoas e as delas podem atuar sobre nós. Talvez todos vocês já tenham observado como fato que, quando as pessoas praticam más ações, tornam-se cada vez mais más, e quando começam a praticar o bem, tornam-se cada vez mais fortes e aprendem a fazer o bem em todos os momentos.

Essa intensificação da influência da ação não pode ser explicada por nenhuma outra razão, senão que podemos agir e reagir uns sobre os outros.

Para tomar uma ilustração da ciência física, quando estou realizando uma certa ação, pode-se dizer que minha mente está em um certo estado de vibração; todas as mentes que estão em circunstâncias semelhantes terão a tendência de serem afetadas pela minha mente.

Se houver diferentes instrumentos musicais afinados igualmente em uma sala, todos vocês podem ter notado que, quando um é tocado, os outros têm a tendência de vibrar de modo a emitir a mesma nota.

Assim, nesta ilustração, pode-se ver que os instrumentos tinham todos a mesma tensão e eram afetados igualmente pelo mesmo impulso.

Todas as mentes que têm a mesma tensão, por assim dizer, serão igualmente afetadas pelo mesmo pensamento.

Naturalmente, essa influência do pensamento sobre a mente variará, de acordo com a distância e outras causas, mas a mente está sempre aberta a ser afetada.

Suponhamos que eu esteja praticando um ato mau; minha mente está em um certo estado de vibração, e todas as mentes no universo que estão em um estado semelhante têm a possibilidade de serem afetadas pela vibração da minha mente.

Assim, quando estou praticando uma boa ação, minha mente está em outro estado de vibração; e todas as mentes igualmente afinadas têm a possibilidade de serem afetadas pela minha mente; e esse poder da mente sobre a mente é maior ou menor conforme a força da tensão seja maior ou menor.

Seguindo essa comparação adiante, é bem possível que, assim como as ondas de luz podem viajar por milhões de anos antes de alcançarem qualquer objeto, também as ondas de pensamento possam viajar centenas de anos antes de encontrarem um objeto que vibre em uníssono com elas.

É bem possível, portanto, que esta nossa atmosfera esteja cheia de tais pulsações de pensamento, tanto do bem quanto do mal.

Todo pensamento projetado de cada cérebro continua pulsando, por assim dizer, até encontrar um objeto adequado que o receba. Qualquer mente que esteja aberta para receber alguns desses impulsos os receberá imediatamente.

Assim, quando um homem pratica ações más, ele coloca sua mente em certo estado de tensão; e todas as ondas que correspondem a esse estado de tensão, e que se pode dizer que já estão na atmosfera, lutarão para entrar em sua mente.

Por isso, um praticante do mal geralmente continua praticando cada vez mais o mal. Suas ações se intensificam.

Tal será também o caso do praticante do bem; ele se abrirá a todas as boas ondas que estão na atmosfera, e suas boas ações também se intensificarão.

Corremos, portanto, um duplo perigo ao fazer o mal: primeiro, abrimo-nos a todas as influências malignas que nos cercam; segundo, criamos o mal que afetará os outros.

É possível que nossas más ações afetem outros daqui a centenas de anos. Ao fazer o mal, prejudicamos a nós mesmos e também aos outros. Ao fazer o bem, fazemos o bem a nós mesmos e também aos outros; e, como todas as outras forças no homem, essas forças do bem e do mal também ganham força do exterior.

De acordo com o Karma-Yoga, a ação que qualquer homem tenha feito não pode ser destruída até que tenha produzido seu fruto; nenhum poder na natureza pode impedi-la de gerar seus resultados. Se eu pratico uma ação má, devo sofrer por ela; não há poder neste universo para detê-la ou sustê-la. Da mesma forma, se pratico uma ação boa, não há poder no universo que possa impedir que ela produza bons resultados. A causa deve ter seu efeito; nada pode prevenir ou conter isso.

Agora surge uma questão muito sutil e séria para consideração sobre o Karma — a saber, que essas nossas ações, tanto boas quanto más, estão todas intimamente ligadas umas às outras. Não podemos traçar uma linha de demarcação e dizer: esta ação é inteiramente boa e esta inteiramente má. Não há ação que não

Produzem bons e maus frutos ao mesmo tempo.

Para

tomar o exemplo mais próximo: estou falando com vocês,

#

e alguns de vocês, talvez, pensem que estou fazendo o bem; e ao mesmo tempo estou, talvez, matando milhares de micróbios na atmosfera; estou assim fazendo o mal a algo mais.

Não pode haver qualquer ação dos homens que seja inteiramente boa ou inteiramente má.

Quando a ação está muito próxima de nós e afeta aqueles que conhecemos, dizemos que é uma ação muito boa, desde que os afete de maneira boa.

Por exemplo, vocês podem chamar minha fala a vocês de muito boa, mas os micróbios não; os micróbios vocês não veem, mas a vocês mesmos vocês veem.

A maneira como minha fala os afeta é óbvia para vocês, mas como ela afeta os micróbios não é tão óbvia.

E assim, se analisarmos também nossas más ações, podemos descobrir que algum bem possivelmente resulta delas em algum lugar.

Aquele que na boa ação vê que há algo mau

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nela, e em meio ao mal vê que há algo bom nela em algum lugar — esse conheceu o segredo do trabalho.

Mas o que segue disso? É esta conclusão — que, por mais que tentemos, não pode haver qualquer ação que seja perfeitamente pura, nem qualquer que seja perfeitamente impura, tomando pureza e impureza no sentido de dano e não-dano.

Não podemos respirar ou viver sem prejudicar outros, e cada pedaço de comida que comemos é tirado da boca de outro: nossas próprias vidas estão excluindo outras vidas.

Assim diz o Bhagavad Gita.

Podem ser homens, ou animais, ou pequenos micróbios, mas a um ou outro destes temos de excluir.

Sendo esse o caso, segue-se naturalmente que uma perfeição totalmente inofensiva nunca pode ser alcançada em relação a qualquer trabalho.

Podemos trabalhar por toda a eternidade, mas não haverá saída deste labirinto intrincado; vocês podem trabalhar, e trabalhar, e trabalhar; não haverá fim para essa associação inevitável de bem e mal nos resultados do trabalho.

[ 121 ]

O segundo ponto a considerar é: qual é o fim do trabalho? Encontramos a vasta maioria das pessoas em todos os países acreditando que haverá um tempo em que este mundo se tornará perfeito, quando não haverá doença, nem morte, nem infelicidade, nem maldade.

Essa é uma ideia muito boa, uma força motriz muito boa para inspirar e elevar os ignorantes; mas, se pensarmos por um momento, veremos à primeira vista que não pode ser assim. Como pode ser, visto que o bem e o mal são o anverso e o reverso da mesma moeda? Como se pode ter o bem sem o mal ao mesmo tempo? O que se entende por perfeição? Uma vida perfeita é quase uma contradição em termos.

A vida em si é um estado de luta contínua entre nós mesmos e tudo o que está fora.

A cada momento estamos lutando de fato com a natureza externa e, se formos derrotados, nossa vida tem de ir. É, por exemplo, uma luta contínua por alimento e ar.

Se o alimento ou o ar falham, morremos.

A vida não é uma coisa simples e que flui suavemente, mas é um efeito composto.

Essa luta complexa entre algo interior e o mundo externo é o que chamamos de vida.

Portanto, é claro à primeira vista que, quando essa luta cessar, haverá um fim da vida.

O que se entende por felicidade ideal é que, quando for alcançada, essa luta cessará por completo.

Mas então a vida cessará, e a luta só pode cessar quando a própria vida tiver cessado.

Além disso, antes de alcançarmos mesmo a milésima parte dessa felicidade ideal, esta terra terá esfriado muito; e nós não existiremos. Portanto, esse milênio não pode ser neste mundo, embora possa ser em qualquer outro lugar.

Já vimos que, ao ajudar o mundo, ajudamos a nós mesmos.

O principal efeito do trabalho feito para os outros é purificar-nos.

Por meio do esforço constante de fazer o bem aos outros, tentamos esquecer a nós mesmos; esse esquecimento de si é a grande lição que temos de aprender na vida.

O homem pensa tolamente que pode se fazer feliz e, após anos de luta, descobre por fim que a verdadeira felicidade consiste em matar o egoísmo e que ninguém pode fazê-lo feliz, exceto ele mesmo.

Cada ato de caridade, cada

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pensamento de simpatia, cada ação de ajuda, cada boa ação, retira tanto de autoimportância de nossos pequenos eus e nos faz pensar em nós mesmos como os mais baixos e os menores; e, portanto, tudo isso é bom.

Aqui encontramos que Jnana, Bhakti e Karma chegam todos a um mesmo ponto. O ideal mais elevado é a eterna e completa autoabnegação, onde não há "eu", mas tudo é "tu"; e, quer esteja consciente ou inconsciente disso, o Karma-Yoga conduz o homem a esse fim.

Um pregador religioso pode ficar horrorizado com a ideia de um Deus impessoal; ele pode insistir em um Deus pessoal e desejar manter sua própria identidade e individualidade, seja o que for que ele queira dizer com isso.

Mas suas ideias de ética, se forem realmente boas, não podem deixar de se basear na mais elevada autoabnegação.

É a base de toda moralidade; você pode estendê-la aos homens, aos animais ou aos anjos; é a única ideia básica, o único princípio fundamental que perpassa todos os sistemas éticos.

Você encontrará várias classes de homens neste mundo.

Primeiro, há os homens-deuses, cuja autoabnegação é completa e que fazem apenas o bem aos outros, mesmo ao sacrifício de suas próprias vidas.

Esses são os mais elevados dos homens.

Se houver cem deles em qualquer país, esse país nunca precisará desesperar.

Mas eles são, infelizmente, pouquíssimos.

Depois, há os homens bons que fazem o bem aos outros enquanto isso não os prejudica; e há uma terceira classe, as pessoas diabólicas, que, para fazerem o bem a si mesmas, prejudicam os outros.

Diz um poeta sânscrito que há uma quarta classe inominável de pessoas que prejudicam os outros meramente pelo prazer de prejudicar.

Assim como há, em um polo da existência, os homens mais elevados e bons, que fazem o bem pelo próprio bem, assim, no outro polo, há outros que prejudicarão os outros apenas pela injúria em si.

Eles não ganham nada com isso, mas é sua natureza fazer o mal.

Vemos assim que, segundo nosso poeta, o homem que se sacrifica para fazer o bem aos outros, o homem com a mais elevada abnegação, é realmente o maior homem.

Aqui estão duas palavras sânscritas. Uma é "Pravritti", que significa "revolvendo em direção a"; a outra é "Nivritti", que significa "revolvendo para longe".

O "revolver em direção a" é o que chamamos de mundo, o "eu e o meu"; inclui todas aquelas coisas que estão sempre enriquecendo esse "eu" por meio de riqueza e dinheiro e poder, e nome, e fama, e que são de natureza agarrante, sempre tendendo a acumular tudo em um centro, sendo esse centro "mim mesmo". Isso é o "pravritti", a tendência natural de todo ser humano; tomar tudo de todos os lugares e amontoá-lo em torno de um centro, sendo esse centro o próprio e doce eu do homem.

Quando essa tendência começa a se romper, quando é "nivritti" ou "afastando-se de", então começam a moralidade e a religião.

Tanto "pravritti" quanto "nivritti" são da natureza do trabalho; o primeiro é trabalho mau, e o último é trabalho bom. Esse "nivritti" é a base fundamental de toda moralidade e de toda religião, e a própria perfeição dele é a abnegação total, a prontidão para sacrificar mente e corpo e tudo por outro ser. Quando um homem alcançou esse estado, ele atingiu a perfeição do Karma Yoga. Este é o mais alto resultado das boas obras.

Embora um homem não tenha estudado um único sistema de filosofia, embora não acredite em nenhum Deus e nunca tenha acreditado, embora não tenha orado nem uma vez em toda a sua vida, se o simples poder das boas ações o trouxe àquele estado em que ele está pronto para dar sua vida e tudo o mais pelos outros, ele chegou ao mesmo ponto ao qual o homem religioso chegará por meio de suas orações e o filósofo por meio de seu conhecimento; e assim você pode ver que o filósofo, e o trabalhador, e o devoto, todos se encontram em um ponto, sendo esse ponto a abnegação.

Por mais que seus sistemas de filosofia e religião possam diferir, toda a humanidade permanece em reverência e temor diante do homem que está pronto para sacrificar-se pelos outros.

Aqui, não se trata de modo algum de credo ou doutrina — mesmo homens muito opostos a todas as ideias religiosas, quando veem um desses atos de completo auto-sacrifício, sentem que devem reverenciá-lo. Não vistes mesmo um cristão fanático, ao ler o "Luz da Ásia", de Edwin Arnold, erguer-se em reverência a Buda, que não pregou Deus algum, não pregou nada além de auto-sacrifício? A única questão é que o fanático não sabe que seu próprio fim e objetivo na vida é exatamente o mesmo daqueles de quem ele difere.

O devoto, mantendo constantemente diante de si a ideia de Deus e um ambiente de bondade, chega ao mesmo ponto por fim e diz: "Seja feita a Tua vontade", e nada guarda para si.

Isso é abnegação.

O filósofo, com seu conhecimento, vê que o eu aparente é uma ilusão e, de imediato, facilmente o abandona; isso é abnegação.

Assim, Karma Yoga, Bhakti e Jnana encontram-se aqui; e foi isso que quiseram dizer todos os grandes pregadores dos tempos antigos, quando ensinaram que Deus não é o mundo.

Há uma coisa que é o mundo e outra que é Deus; e essa distinção é muito verdadeira — o que eles querem dizer por mundo é egoísmo. A ausência de egoísmo é Deus.

Um pode viver num trono, num palácio dourado, e ser perfeitamente desapegado; e, portanto, ser Deus.

Outro pode viver numa cabana e vestir trapos, e não ter nada no mundo; contudo, se for egoísta, está intensamente imerso no mundo.

Para voltar a um de nossos pontos principais, dizemos que não podemos fazer o bem sem, ao mesmo tempo, fazer algum mal, nem fazer o mal sem fazer algum bem.

Sabendo disso, como podemos agir? Houve, portanto, seitas neste mundo que, de maneira assombrosamente absurda, pregaram o suicídio lento como o único meio de sair do mundo — porque, se um homem vive, tem de matar pobres animaizinhos e plantas, ou causar dano a algo ou a alguém.

Assim, segundo elas, o único caminho para fora do mundo é morrer; os jainistas pregaram essa doutrina como seu ideal mais elevado.

Esse ensinamento parece ser muito lógico.

Mas a verdadeira solução é encontrada no Gita. É a teoria do desapego, de não estar apegado a nada enquanto realizamos nosso trabalho da vida.

Saiba que você está inteiramente separado do mundo; que você está no mundo, e que tudo o que possa estar fazendo nele, você não o faz por si mesmo.

Qualquer ação que você faça por si mesmo trará seu efeito para recair sobre você.

Se for uma boa ação, você terá que receber o bom efeito, e, se for uma má ação, terá que receber o mau efeito; mas qualquer ação que não seja feita por sua própria causa, seja ela qual for, não terá efeito sobre você.

Encontra-se em nossas escrituras uma frase muito expressiva que incorpora essa ideia: — 'Mesmo que ele mate o universo inteiro (ou seja ele mesmo morto), ele não é nem o morto nem o matador, quando sabe que não está agindo de modo algum por si mesmo.' Portanto, o Karma-Yoga ensina: "Não abandone o mundo; viva no mundo, absorva suas influências tanto quanto puder; mas se for por causa de seu próprio prazer — não trabalhe de modo algum.

O prazer não deve ser o objetivo.

Primeiro mate a si mesmo e então tome o mundo inteiro como a si mesmo; como os antigos cristãos costumavam dizer: 'o homem velho deve morrer.' Esse homem velho é a ideia egoísta de que o mundo inteiro foi feito para nosso prazer.

Pais tolos ensinam seus filhos a rezar: 'Ó Senhor, criaste este sol para mim e esta lua para mim', como se o Senhor não tivesse mais nada a fazer senão criar tudo para esses bebês.

Não ensine a seus filhos tais bobagens.

E então, há pessoas que são tolas de outra maneira; elas nos ensinam que todos esses animais foram criados para nós matarmos e comermos, e que este universo é para o prazer dos homens.

Isso é tudo tolice.

Um tigre pode dizer: 'O homem foi criado para mim', e rezar: 'Ó Senhor, como são perversos esses homens, que não vêm e se colocam diante de mim para serem comidos; eles estão quebrando tua lei.' Se o mundo foi criado para nós, nós também fomos criados para o mundo.

Que este mundo seja criado para nosso prazer é a ideia mais perversa que nos aprisiona. Este mundo não existe por nossa causa; milhões partem dele todos os anos; o mundo não o sente. Milhões de outros são supridos em seu lugar, exatamente da mesma forma. O mundo é para nós, e nós também somos para o mundo.

Para trabalhar corretamente, portanto, deveis primeiro abandonar a ideia de apego.

Em segundo lugar, não vos envolveis no caminho; mantende-vos como testemunha e continuai trabalhando.

Meu velho mestre costumava dizer:

"Olhai para vossos filhos como uma ama o faz." A ama pegará vosso bebê, o acariciará, brincará com ele e se comportará com ele tão gentilmente como se fosse seu próprio filho; mas, assim que lhe derdes aviso para partir, ela está pronta a sair de casa com bagagem e tudo.

Tudo em forma de apego é esquecido; não causará à ama comum a menor pontada deixar vossos filhos e tomar conta de outras crianças.

Assim também deveis ser com tudo aquilo que considerais vosso.

Vós sois a ama e, se credes em Deus, crede que todas essas coisas que considerais vossas são realmente d'Ele. A maior fraqueza muitas vezes se insinua como o maior bem e força.

É uma fraqueza pensar que alguém depende de mim e que eu posso fazer o bem a outro.

Esse orgulho é a mãe de todo o nosso apego, e através desse apego vem toda a nossa dor.

Devemos informar nossas mentes de que ninguém neste universo depende de nós; nem um mendigo depende de nossa caridade; nem uma alma de nossa bondade; nem um ser vivo de nossa ajuda.

Todos são ajudados pela natureza, e assim o serão mesmo que milhões de nós não estivéssemos aqui.

O curso da natureza não parará por causa de vós e de mim; é, como já foi apontado, apenas um privilégio abençoado para vós e para mim que nos seja permitido, no caminho de ajudar os outros, educar a nós mesmos.

Esta é uma grande lição a aprender na vida, e quando a tivermos aprendido plenamente, nunca mais seremos infelizes; podemos sair e nos misturar sem dano na sociedade, em qualquer lugar e em toda parte.

Você pode ter esposas e maridos, e regimentos de servos, e reinos para governar; se apenas agir com o princípio de que o mundo não é para você e não precisa inevitavelmente de você, eles não poderão lhe causar dano algum.

Neste mesmo ano, alguns de seus amigos podem ter morrido.

Será que o mundo está esperando, sem seguir adiante, que eles voltem? Sua corrente foi interrompida? Não, ela segue. Então expulse e elimine da sua mente a ideia de que você tem de fazer algo pelo mundo; o mundo não requer nenhuma ajuda de você.

É pura tolice da parte de qualquer homem pensar que nasceu para ajudar o mundo; é simplesmente orgulho, é egoísmo insinuando-se sob a forma de virtude.

Quando você tiver treinado sua mente e seus músculos para perceber essa ideia da não dependência do mundo em relação a você ou a qualquer pessoa, então não haverá reação em forma de dor resultante do trabalho.

Quando você dá algo a um homem e não espera nada — nem mesmo espera que o homem seja grato — a ingratidão dele não afetará você, porque você nunca esperou nada, nunca pensou ter direito a qualquer coisa em termos de retorno; você deu a ele o que ele merecia; o próprio Karma dele obteve isso para ele; o seu Karma fez de você o portador disso.

Por que você deveria se orgulhar de ter dado algo? Você é o porteiro que carregou o dinheiro ou outro tipo de dádiva, e o mundo a mereceu por seu próprio Karma. Onde está então a razão para o orgulho em você? Não há nada muito grande no que você dá ao mundo.

Quando você tiver adquirido o sentimento de desapego, então não haverá nem bem nem mal para você.

É somente o egoísmo que causa a diferença entre o bem e o mal.

É uma coisa muito difícil de entender, mas você chegará a aprender com o tempo que nada no universo tem poder sobre você até que você permita que ele exerça tal poder.

Nada tem poder sobre o Eu do homem, até que esse Eu se torne um tolo e perca a independência.

Assim, pelo desapego, você supera e nega o poder de qualquer coisa agir sobre você.

É muito fácil dizer que nada tem o direito de agir sobre você até que você o permita; mas qual é o verdadeiro sinal do homem que realmente não permite que nada atue sobre ele, que não é nem feliz nem infeliz quando o mundo externo age sobre ele? O sinal é que não causa mudança em sua mente se uma montanha desaba sobre ele e o esmaga em pedaços, ou se as cenas mais abençoadas se apresentam diante dele e as coisas mais abençoadas lhe acontecem; ele é o mesmo na boa fortuna ou na má fortuna; em todas as condições ele permanece o mesmo.

Houve um grande sábio na Índia chamado Vyasa.

Este Vyasa é conhecido como o autor dos aforismos do Vedanta; e era um homem santo. Seu pai havia tentado tornar-se um homem muito perfeito e falhara. Seu avô também tentara e falhara. Seu bisavô igualmente tentara e falhara. Ele próprio não obteve sucesso perfeito, mas seu filho, Suka, nasceu perfeito.

Vyasa ensinou sabedoria a seu filho e, após ensinar-lhe ele próprio o conhecimento da verdade, enviou-o à corte do Rei Janaka.

Ele era um grande rei e era chamado Janaka Videha.

Videha significa "fora do corpo". Embora fosse um rei, ele havia esquecido inteiramente que era um corpo; sentia que era um espírito o tempo todo.

Este jovem Suka foi enviado para ser instruído por ele.

O rei sabia que o filho de Vyasa vinha até ele para aprender sabedoria; portanto, fez certos preparativos de antemão; e quando o jovem se apresentou aos portões do palácio, os guardas não lhe deram atenção alguma.

Apenas lhe deram um assento, e ele ali ficou sentado por três dias e três noites, sem que ninguém lhe falasse, sem que ninguém lhe perguntasse quem era ou de onde vinha. Ele era filho de um grande sábio; seu pai era honrado por todo o país, e ele próprio era uma pessoa muito respeitável; ainda assim, os guardas baixos e vulgares do palácio não lhe davam atenção.

Depois disso, subitamente, os ministros do rei e todos os altos funcionários vieram ali e o receberam com as maiores honras.

Conduziram-no para dentro e o mostraram a suntuosos aposentos, deram-lhe os mais fragrantes banhos e vestes maravilhosas, e por oito dias o mantiveram ali em toda sorte de luxo.

Aquela face solenemente serena de Suka não se alterou nem no mais mínimo grau com a mudança no tratamento que lhe era dispensado; ele era o mesmo em meio àquele luxo como quando aguardava à porta.

Então foi levado diante do rei.

O rei estava em seu trono, a música tocava, e danças e outras diversões ocorriam. O rei então lhe deu uma taça de leite, cheia até a borda, e pediu-lhe que desse sete voltas ao redor do salão sem derramar sequer uma gota do leite. O jovem tomou a taça e seguiu em meio à música e à atração dos belos rostos desejada pelo rei; sete vezes ele deu a volta, e nem uma gota do leite foi derramada.

A mente do jovem não podia ser atraída por nada no mundo, a menos que ele o permitisse afetá-lo.

E quando trouxe a taça ao rei, o rei lhe disse: "O que seu pai lhe ensinou, e o que você aprendeu por si mesmo, eu apenas posso repetir; você conheceu a verdade; volte para casa."

Assim, o homem que praticou o domínio sobre si mesmo não pode ser influenciado por nada que esteja fora; não há mais escravidão para ele; sua mente tornou-se livre; somente tal homem é apto a viver bem no mundo.

Geralmente encontramos os homens sustentando duas opiniões a respeito do mundo.

Alguns são pessimistas e dizem: "Quão horrível é este mundo, quão perverso!" Outros são otimistas e dizem: "Quão belo é este mundo, quão maravilhoso!" Para aqueles que não dominaram suas próprias mentes, o mundo é ou cheio de mal ou uma mistura de bem e mal.

Este mesmo mundo tornar-se-á para nós um mundo otimista quando nos tornarmos senhores de nossas próprias mentes.

Nada então atuará sobre nós como bem ou mal; encontraremos tudo em seu devido lugar, harmonioso.

Alguns homens, que começam dizendo que o mundo é um inferno, muitas vezes terminam dizendo que é um céu quando obtêm êxito na prática do autocontrole.

Se somos genuínos Karma-Yogins e desejamos nos treinar para alcançar esse estado, onde quer que comecemos, certamente terminaremos em perfeita autoabnegação; e assim que esse eu aparente desaparecer, o mundo inteiro, que a princípio nos parece cheio de mal, parecerá o próprio céu e repleto de bem-aventurança, sua própria atmosfera será abençoada; cada rosto humano ali será bom.

Tal é o fim e o objetivo do Karma-Yoga; e tal é sua perfeição na vida prática.

Nossos diversos Yogas não entram em conflito uns com os outros; cada um deles nos leva à mesma meta e nos torna perfeitos; apenas cada um tem de ser praticado com afinco.

Todo o segredo está na prática.

Primeiro você tem de ouvir, depois pensar, e então praticar.

Isso é verdadeiro para todo Yoga.

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Você tem primeiro de ouvir sobre ele e compreender o que é; e muitas coisas que você não entende serão esclarecidas para você pela constante audição e reflexão.

É difícil compreender tudo de uma vez.

A explicação de tudo está, afinal, em você mesmo.

Ninguém jamais foi realmente ensinado por outro; cada um de nós tem de ensinar a si mesmo.

O professor externo oferece apenas a sugestão que desperta o professor interno para trabalhar e compreender as coisas.

Então as coisas serão esclarecidas para nós por nosso próprio poder de percepção e pensamento, e nós as realizaremos em nossas próprias almas; e essa realização crescerá até se tornar o intenso poder da vontade.

Primeiro é sentimento, depois se torna querer, e desse querer surge a tremenda força para o trabalho que percorrerá cada veia e nervo e músculo, até que toda a massa do seu corpo seja transformada em um instrumento do Yoga desinteressado do trabalho, e o desejado estado de perfeita autoabnegação e total altruísmo seja devidamente alcançado.

Essa realização não depende de nenhum dogma, ou doutrina, ou crença.

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Se alguém é cristão, ou judeu, ou gentio, isso não importa. Você é desinteressado? Essa é a questão. Se você é, será perfeito sem ler um único livro religioso; sem entrar em uma única igreja ou templo.

Cada um de nossos Yogas é adequado para tornar o homem perfeito, mesmo sem a ajuda dos outros, porque todos têm o mesmo objetivo em vista.

Os Yogas do Trabalho, do conhecimento e da devoção são todos capazes de servir como meios diretos e independentes para a obtenção do Moksha. "Somente os tolos dizem que o trabalho e a filosofia são diferentes, não os sábios." Os sábios sabem que, embora aparentemente diferentes entre si, eles por fim conduzem ao mesmo objetivo da perfeição humana.

CAPÍTULO VI

KARMA

Além de significar trabalho, afirmamos que psicologicamente a palavra Karma também implica causalidade.

Qualquer trabalho, qualquer ação, qualquer pensamento que produz um efeito é chamado de Karma.

Assim, a lei do Karma significa a lei da causalidade, da inevitável causa e sequência.

Onde quer que haja uma causa, ali um efeito deve ser produzido — essa necessidade não pode ser resistida, e essa lei do Karma, segundo nossa filosofia, é verdadeira em todo o universo.

Tudo o que vemos, ou sentimos, ou fazemos; qualquer ação que exista em qualquer lugar do universo; ao mesmo tempo que é efeito do trabalho passado, por um lado, torna-se, por outro lado, uma causa por sua vez, e produz seu próprio efeito.

É necessário, juntamente com isso, considerar o que se entende pela palavra lei. Podemos ver psicologicamente que por lei se entende a tendência de uma série a se repetir. Quando vemos um evento seguido por outro, ou às vezes ocorrendo simultaneamente com outro, esperamos que essa sequência ou coexistência se repita.

Mas nossos antigos lógicos e filósofos da escola Nyaya chamam essa lei pelo nome de Vyapti. Segundo eles, todas as nossas ideias de lei se devem à associação.

Uma série de fenômenos torna-se associada às coisas em nossa mente em uma espécie de ordem invariável, de modo que tudo o que percebemos a qualquer momento é imediatamente referido a outros fatos na mente.

Qualquer ideia única ou, segundo a nossa psicologia, qualquer onda única que seja produzida na matéria mental, *chitta*, deve sempre dar origem a muitas outras ondas. Esta é a ideia psicológica da associação, e a causalidade é apenas um aspecto deste grande e penetrante princípio da associação. Esta penetrabilidade da associação é o que, em sânscrito, se chama *Vyapiu*. No mundo externo, a ideia de lei é a mesma que no mundo interno — a expectativa de que um fenômeno particular será seguido por outro, e que a série se repetirá até onde podemos ver. Falando com rigor, portanto, a lei não existe na natureza.

Na prática, é um erro dizer que a gravitação existe na terra, ou que há qualquer lei existindo objetivamente em qualquer lugar da natureza.

A lei é o método, a maneira pela qual nossa mente apreende uma série de fenômenos; está toda na mente.

Certos fenômenos ocorrendo um após outro ou juntos, e seguidos pela convicção da regularidade de sua recorrência, habilitando assim nossas mentes a apreender o método de toda a série, constituem o que chamamos de lei.

A próxima questão a considerar é o que queremos dizer com lei sendo universal.

Nosso universo é aquela porção da existência que é caracterizada pelo que os psicólogos sânscritos chamam de *desa-kala-nimika*, ou o que é conhecido na psicologia europeia como espaço, tempo e causalidade.

Este universo é apenas uma parte da existência infinita; uma parte que é lançada em um molde peculiar, ou é composta de espaço, tempo e causalidade.

Aquela parte do estado de existência que preenche este molde é o nosso universo.

Segue-se necessariamente que a lei só é possível dentro deste universo condicionado; além dele não pode haver qualquer lei.

Quando falamos deste universo, queremos dizer apenas aquela porção da existência que é limitada pela nossa mente; o universo dos sentidos, aquilo que podemos ver, sentir, tocar, ouvir, pensar, imaginar; somente esse universo está sob lei; mas, além disso, a existência não pode estar sujeita à lei, porque a causalidade não se estende além do mundo das nossas mentes.

Tudo o que está além do alcance de nossa mente e de nossos sentidos não está sujeito à lei da causação, pois não há associação mental de coisas na região além dos sentidos, e não há causação sem associação de ideias.

É somente quando o "ser" ou a existência se molda em nome e forma que obedece à lei da causação, e se diz que está sob lei; porque toda lei tem sua essência na causação.

Portanto, vemos de imediato que não pode existir algo como livre-arbítrio; as próprias palavras são uma contradição, pois o que conhecemos, e tudo o que conhecemos, está dentro do nosso universo; e tudo dentro do nosso universo é moldado pelas condições de espaço, tempo e causação.

Tudo o que conhecemos, ou podemos possivelmente conhecer, deve estar sujeito à causação, e aquilo que obedece à lei da causação não pode ser livre.

É influenciado por outros agentes e torna-se uma causa por sua vez.

Mas aquilo que se converteu em vontade, que não era vontade antes, mas que, ao cair neste molde de espaço, tempo e causação, se converteu em vontade humana, é livre; e quando essa vontade sai deste molde de espaço, tempo e causação, será livre novamente.

Da liberdade ela vem, e se molda nesta escravidão, e sai e retorna à liberdade novamente.

A questão foi levantada sobre de quem vem este universo, em quem ele repousa, e para quem ele vai; e a resposta foi dada: da liberdade ele vem, repousa na escravidão e retorna àquela liberdade novamente.

Assim, quando falamos do homem como nada mais que aquele ser infinito que se manifesta, queremos dizer que apenas uma parte muito pequena dele é o homem; este corpo e esta mente que vemos são apenas uma parte do todo, apenas um ponto do ser infinito.

Este universo inteiro é apenas um grão do ser infinito, e todas as nossas leis, e nossas escravidões, nossas alegrias e nossas tristezas, nossas felicidades e nossas expectativas, estão apenas dentro deste pequeno universo; todo o nosso progresso e nosso declínio estão dentro de seu pequeno compasso.

Vê-se, portanto, quão infantil é esperar uma continuação deste universo, a criação de nossas mentes, e esperar e ansiar por ir ao céu, o que, afinal, só pode significar uma repetição deste mundo que conhecemos.

Percebe-se de imediato que é um desejo impossível e infantil fazer toda a existência infinita conformar-se à existência limitada e condicionada que conhecemos.

Assim, quando um homem diz que terá, repetidas vezes, esta mesma coisa que tem agora, ou, como às vezes o expresso, quando ele pede uma religião confortável, podeis saber que ele se tornou tão degenerado que não consegue pensar em nada mais elevado do que aquilo que é agora; ele é apenas o seu pequeno ambiente presente e nada mais.

Ele esqueceu sua natureza infinita, e toda a sua ideia está confinada a essas pequenas alegrias e tristezas, e ciúmes do coração do momento.

Ele pensa que esta coisa finita é o infinito; e não apenas isso, ele não deixará essa tolice ir. Ele se agarra desesperadamente a Thrishna — a sede de vida, o que os budistas chamam de Tanha e Trissa. Pode haver milhões de tipos de felicidade, e seres, e leis, e progresso, e causalidade, todos agindo fora do pequeno universo que conhecemos, e, afinal, tudo isso compreende apenas uma seção de nossa natureza.

Para adquirir liberdade, temos de ir além das limitações deste universo; ela não pode ser encontrada aqui.

O equilíbrio perfeito, ou o que os cristãos chamam de a paz que excede todo entendimento, não pode ser obtido neste universo, nem no céu, nem em qualquer lugar aonde nossa mente e pensamentos possam ir, onde os sentidos possam sentir, ou que a imaginação possa conceber.

Nenhum tal lugar pode nos dar essa liberdade, porque todos esses lugares estariam dentro de nosso universo, e ele é limitado por espaço, tempo e causalidade.

Pode haver lugares mais etéreos do que esta nossa Terra, onde os prazeres possam ser mais intensos, mas mesmo esses lugares devem estar no universo e, portanto, em sujeição à lei; assim, temos de ir além, e a religião verdadeira começa ali onde este pequeno universo termina.

Essas pequenas alegrias, e

dores, e o conhecimento das coisas termina ali, e a realidade começa.

Até que renunciemos à sede de vida, ao forte apego a esta nossa existência transitória e condicionada, não temos esperança de vislumbrar sequer aquela liberdade infinita além.

É lógico, então, que há apenas um caminho para alcançar aquela liberdade que é a meta de todas as mais nobres aspirações da humanidade, e esse único caminho é renunciando a esta pequena vida, renunciando a este pequeno universo, renunciando a esta terra, renunciando ao céu, renunciando ao corpo, renunciando à mente, renunciando a tudo que limitava e condicionava.

Se renunciarmos aos nossos apegos a este pequeno universo dos sentidos, ou da mente, imediatamente seremos livres! O único

[ 149 ]

caminho para sair do cativeiro é ir além das limitações da lei, ir além de onde prevalece a causalidade.

Mas é algo muito difícil renunciar ao apego a este universo; poucos jamais alcançam isso.

Há dois caminhos para fazer isso, mencionados em nossos livros.

Um é chamado de "neti neti" (não isto, não isto); o outro é chamado de "iti iti"; o primeiro é o negativo e o último o positivo.

O caminho negativo é o mais difícil.

Só é possível aos homens de mentes excepcionalíssimas e vontades gigantescas que simplesmente se levantam e dizem: "Não, não quero isto", e a mente e o corpo obedecem à sua vontade, e eles saem vitoriosos.

Mas tais pessoas são muito raras; a vasta maioria da humanidade escolhe o caminho positivo, o caminho através do mundo, usando os próprios grilhões para quebrar esses mesmos grilhões.

Isso também é uma espécie de renúncia; apenas é feita lenta e gradualmente, conhecendo as coisas, desfrutando as coisas e, assim, obtendo experiência e conhecendo a natureza das coisas, até que a mente

as abandone todas por fim e se torne desapegada.

O primeiro modo de obter o desapego é pelo raciocínio, e o último modo é através do trabalho e da experiência.

O primeiro é o Jnana-Yoga e se caracteriza pela recusa em fazer qualquer trabalho de construção; o segundo é o do Karma-Yoga, no qual não há cessação do trabalho.

Todos devem trabalhar no universo.

Somente aqueles que estão perfeitamente satisfeitos com o Self, cujos desejos não vão além do Self, cuja mente nunca se desvia do Self, para quem o Self é tudo em tudo, somente esses não trabalham.

Os demais devem todos trabalhar.

Uma corrente que desce livremente, de acordo com sua própria natureza, cai numa depressão e forma um redemoinho e, após girar um pouco nesse redemoinho, emerge novamente na forma da corrente livre para seguir sem obstáculos.

Cada vida humana é como essa corrente.

Ela entra no redemoinho, envolve-se neste mundo de espaço, tempo e causalidade, gira um pouco, clamando "meu pai, meu irmão, meu tio, minha fama" e assim por diante, e por fim emerge dele e recupera sua liberdade original.

O universo inteiro está fazendo isso.

Quer saibamos ou não, quer estejamos conscientes ou inconscientes disso, todos estamos trabalhando para sair do sonho do mundo.

A experiência do homem no mundo é para habilitá-lo a sair do redemoinho.

Mas o que é Karma-Yoga? É o conhecimento do segredo do trabalho.

Vemos que o universo inteiro está trabalhando.

Para que ele faz isso? Para a salvação, para a liberdade; consciente ou inconscientemente, tudo, do menor átomo ao mais elevado ser, está trabalhando para isso; trabalhando com o único objetivo de obter liberdade para a mente, para o corpo, para o Espírito e para tudo; todas as coisas estão sempre tentando obter liberdade, estão fugindo da escravidão.

O sol, a lua, a terra, os planetas, todos estão tentando fugir da escravidão.

As forças centrífuga e centrípeta da natureza são de fato típicas do nosso universo.

Karma-Yoga nos diz o segredo e o método do trabalho.

Em vez de sermos atirados neste universo e, após longa demora e agitação, chegarmos a conhecer as coisas como elas são, Karma-Yoga nos ensina o segredo do trabalho, o método do trabalho, o poder organizador do trabalho.

Uma vasta massa de energia pode ser gasta em vão, se não soubermos como usá-la e utilizá-la. O Karma-Yoga faz da ciência do trabalho uma ciência; você aprende com ele como melhor utilizar todas as operações deste mundo.

O trabalho é inevitável, assim deve ser; mas temos trabalho para o mais elevado propósito.

O Karma-Yoga nos faz admitir que este mundo é um mundo de apenas cinco minutos; que é algo pelo qual temos inevitavelmente de passar; e que a liberdade não está aqui, mas só pode ser encontrada além.

Para encontrar a saída das amarras do mundo, temos de atravessá-lo lenta e seguramente.

Pode haver aquelas pessoas excepcionais sobre as quais acabei de falar, aquelas que podem se afastar e renunciar ao mundo, como uma serpente que se despe de sua pele e se afasta e a contempla; há, sem dúvida, alguns desses seres excepcionais; mas o resto da humanidade tem de avançar lentamente através do processo que o Karma-Yoga nos mostra, o segredo e o método de fazê-lo para a melhor vantagem de todos os envolvidos.

O que ele diz? "Trabalhai incessantemente, mas renunciai a todo apego ao trabalho." Não vos identifiqueis com coisa alguma.

Mantende vossa mente livre.

Tudo isto que vedes, as dores e as misérias, são apenas as condições necessárias deste mundo; a pobreza e a riqueza e a felicidade são apenas momentâneas; não pertencem de modo algum à nossa natureza real.

Nossa natureza está muito além da miséria ou da felicidade, além de todo objeto dos sentidos, além da imaginação; e, no entanto, devemos continuar trabalhando o tempo todo.

"A miséria vem através do apego, não através do trabalho." Assim que nos identificamos com o trabalho que fazemos, sentimo-nos miseráveis; mas se não nos identificamos com ele, não sentimos essa miséria.

Se uma bela pintura pertencente a outro é queimada, um homem geralmente não fica muito miserável; mas quando a sua própria pintura é queimada, como se sente miserável! Por quê? Ambas eram belas pinturas, talvez cópias do mesmo original; mas num caso muito mais miséria é sentida do que no outro.

É porque num caso ele se identifica com a pintura, e não no outro.

Esse "eu e meu" causa toda a miséria.

Com o senso de posse veio o egoísmo, e o egoísmo trouxe a miséria.

Cada ato de egoísmo ou pensamento de egoísmo nos torna apegados a algo, e imediatamente nos tornamos escravos.

Cada onda no "chitta" que diz "eu e meu" imediatamente coloca uma corrente ao nosso redor e nos torna escravos; e quanto mais dizemos "eu e meu", mais a escravidão cresce, mais a miséria aumenta.

Portanto, o Karma-Yoga nos diz para desfrutar da beleza de todas as imagens do mundo, mas não nos identificarmos com nenhuma delas ou com todas elas.

Nunca diga "meu". Sempre que dizemos que uma coisa é minha, a miséria virá imediatamente.

Não diga nem mesmo "meu filho" em sua mente.

Possua o filho, mas não diga "meu". Se o fizer, então virá a miséria.

Não diga "minha casa", não diga "meu corpo". Toda a dificuldade está aí.

O corpo não é seu, nem meu, nem de ninguém. Esses corpos vêm e vão pelas leis da natureza, mas nós somos livres, permanecendo como testemunhas.

Este corpo não é mais livre do que uma imagem ou uma parede.

Por que deveríamos estar tão apegados a um corpo? Se alguém pinta um quadro, ele o faz e depois desaparece.

Por que ele deveria estar apegado a isso? Deixe passar.

Não projete esse tentáculo do egoísmo, "eu devo possuí-lo". Assim que isso é projetado, a miséria começará.

Então o Karma-Yoga diz: primeiro destrua a tendência de projetar esse tentáculo do egoísmo e, quando você tiver o poder de contê-lo, segure-o e não permita que a mente entre nesse tipo de onda de egoísmo.

Então você pode sair para o mundo e trabalhar o quanto puder. Misture-se em toda parte; vá aonde quiser; você nunca será poluído ou contaminado pelo mal.

Há a folha de lótus na água; a água não a toca nem adere a ela; assim você estará no mundo.

Isso é chamado de "Vairagya", desapego ou o não-apego do Karma-Yoga.

Acredito que já lhe disse que sem o desapego não pode haver nenhum tipo de Yoga.

O desapego é a base de todos os Yogas.

O homem que abandona viver em casas, e vestir roupas finas, e comer boa comida, e vai para o deserto, pode ser uma pessoa extremamente apegada.

Sua única possessão, seu próprio corpo, pode tornar-se tudo para ele; e enquanto vive, estará simplesmente lutando por causa de seu corpo.

O desapego não significa qualquer coisa que possamos fazer em relação ao nosso corpo externo, mas está tudo na mente.

O elo que prende o "eu e meu" está no corpo.

Se não temos esse elo com o corpo e com as coisas dos sentidos, somos desapegados, onde quer que estejamos e seja o que formos. Um homem pode estar em um trono e perfeitamente desapegado; outro homem pode estar em farrapos e ainda muito apegado.

Primeiro, temos que alcançar esse estado de desapego, e então trabalhar incessantemente.

O Karma-Yoga nos dá o método que nos ajudará a abandonar todo apego; é de fato uma coisa difícil abandonar o apego.

[ 57 ]

Aqui estão os dois caminhos para abandonar todo apego no Karma-Yoga. Um caminho é para aqueles que não creem em Deus, ou em qualquer ajuda externa. Eles são deixados aos seus próprios recursos; têm simplesmente de trabalhar com sua própria vontade, com o poder de sua mente, dizendo "devo ser desapegado", e trabalhar também com seu próprio poder de Viveka, ou discriminação.

Para aqueles que creem em Deus há o outro caminho, que é muito menos difícil de percorrer.

Eles entregam os frutos do trabalho ao Senhor; trabalham e nunca se apegam aos resultados.

Tudo o que veem, sentem, ouvem ou fazem, é para Ele. Qualquer boa obra que possamos fazer, não reivindiquemos nenhum louvor para nós mesmos. A obra é do Senhor; temos de entregar os frutos a Ele. A mais grandiosa obra que possamos fazer em nossas vidas, nunca pensemos que vamos receber os benefícios dela, ou que fizemos qualquer boa obra. Toda obra é Dele. Coloquemo-nos de lado e pensemos que somos apenas servos obedecendo ao Senhor, nosso mestre, e que todo impulso para a ação vem Dele a cada momento.

[ 58 ]

O que quer que adores, o que quer que percebas, o que quer que faças, entrega tudo a Ele e permanece em paz.

Estejamos em paz, paz perfeita, conosco mesmos, e entreguemos todo o nosso corpo e mente e tudo como um sacrifício eterno ao Senhor.

Em vez do antigo sacrifício de derramar oblações no fogo, realizai este único grande sacrifício dia e noite — o sacrifício do vosso pequeno eu.

"Em busca de riqueza neste mundo, Tu és a única riqueza que encontrei; sacrifico-me a Ti.

Em busca de alguém para amar, Tu és o único amado que encontrei; sacrifico-me a Ti." Repitamos isto dia e noite e sempre: "Nada para mim; não importa se a coisa é boa, má ou indiferente; não me importo com ela; sacrifico tudo a Ti." Dia e noite renunciemos ao nosso eu aparente até que isso se torne um hábito em nós, até que se incorpore ao sangue, aos nervos e ao cérebro, e todo o corpo esteja a cada momento obediente a esta ideia de renúncia do eu.

Ide então para o meio do campo de batalha, com o troar

[ 159 ]

dos canhões e o estrondo da guerra, e vos encontrareis livres e em paz.

O Karma-Yoga nos ensina que a ideia comum de dever está no plano inferior; no entanto, todos nós temos que cumprir o nosso dever.

Contudo, podemos ver que esse peculiar senso de dever é muito frequentemente uma grande causa de miséria.

O dever se torna uma doença em nós; arrasta-nos sempre para a frente.

Agarra-nos e torna toda a nossa vida miserável.

É o flagelo da vida humana.

"Esse dever, essa ideia de dever é o sol do meio-dia de verão que queima a alma mais íntima da humanidade." Olhai para esses pobres escravos do dever.

O dever não lhes deixa tempo para rezar, nem tempo para se banhar.

O dever está sempre sobre eles.

Saem para trabalhar, o dever está sobre eles! Voltam para casa e pensam no trabalho do dia seguinte.

O dever está sobre eles! É viver uma vida de escravo, por fim caindo na rua e morrendo na labuta, como um cavalo.

Tal é o dever como é compreendido.

O único dever verdadeiro é ser desapegado e trabalhar como seres livres, entregar todo o trabalho a Deus.

Todos os nossos deveres são Dele,

[ 160 ]

Bem-aventurados somos nós, pois fomos ordenados a sair daqui. Servimos ao nosso tempo; se o fazemos mal ou bem, quem sabe? Se o fazemos bem, não colhemos os frutos. Se o fazemos mal, tampouco recebemos o cuidado. — Fica em paz, sê livre, e trabalha.

Esse tipo de liberdade é algo muito difícil de alcançar.

Como é fácil interpretar a escravidão como dever — a apego mórbido da carne como dever! Os homens saem pelo mundo e lutam e batalham por dinheiro ou por qualquer outra coisa à qual sintam apego.

Perguntai-lhes por que o fazem. Eles dizem: — “É um dever.” É a absurda ganância por ouro e lucro, e tentam cobri-la com algumas flores.

— O que é, afinal, o dever? É realmente a imitação da carne, do nosso apego; e quando um apego se estabelece, chamamo-lo de dever.

Por exemplo, em países onde não há casamento, não há dever entre marido e mulher; quando o casamento surge, marido e mulher vivem juntos por causa do apego; e esse tipo de convivência torna-se estabelecida após gerações; e quando se torna tão estabelecida, torna-se um dever.

É, por assim dizer, uma forma crônica da doença.

Quando é aguda, chamamo-la doença; quando é crônica, chamamo-la natureza.

É uma doença.

Assim, quando o apego se torna crônico, nós o batizamos com o nome altissonante de dever. Espalhamos flores sobre ele, trombetas soam por ele, textos sagrados são recitados sobre ele, e então o mundo inteiro luta, e os homens roubam uns aos outros seriamente por causa desse dever.

O dever é bom na medida em que refreia a brutalidade.

Para os tipos mais baixos de homens, que não podem ter nenhum outro ideal, ele é de alguma utilidade; mas aqueles que querem ser Karma Yogins devem lançar fora até mesmo essa ideia de dever. Não há dever para você e para mim. Tudo o que tens para dar ao mundo, dá por todos os meios, mas não como um dever.

Não te preocupes com isso.

Não sejas compelido.

Por que haverias de ser compelido? Tudo o que fazes por compulsão contribui para construir apego. Por que haverias de ter algum dever? Entrega todas as coisas a Deus — esta tremenda fornalha ardente onde o fogo do amor divino queima a todos.

[ >2  J

bebe este cálice de néctar e sê feliz.” Nós estamos simplesmente cumprindo a Sua vontade, e nada temos a ver com recompensas e punições.

Se queres a recompensa, deves ter também a punição; o único modo de escapar da punição é renunciar à recompensa.

O único modo de sair da miséria é renunciando à ideia de felicidade, porque essas duas estão inseparavelmente ligadas uma à outra.

De um lado está a felicidade, do outro está a miséria.

De um lado está a vida, do outro está a morte.

O único modo de ir além da morte é renunciar ao amor pela vida.

Vida e morte são a mesma coisa, vistas de pontos diferentes.

Assim, a ideia de felicidade sem miséria, ou de vida sem morte, é muito boa para meninos de escola e crianças; mas o pensador vê que isso é uma contradição em termos e renuncia a essas coisas opostamente relacionadas.

Não busques elogio, nem recompensa, por nada que faças. Mal realizamos uma boa ação, começamos a desejar crédito por ela. Mal damos dinheiro a alguma caridade, queremos ver nossos nomes

[ I'Ss  ]

estampados nos jornais.

A miséria deve vir como resultado de tais desejos.

Os maiores homens do mundo passaram despercebidos.

Os Budas e os Cristos que conhecemos são apenas heróis de segunda categoria em comparação com os maiores homens, dos quais o mundo nada sabe.

Centenas desses heróis desconhecidos viveram em todos os países, trabalhando silenciosamente.

Silenciosamente vivem e silenciosamente passam; e com o tempo seus pensamentos encontram expressão em Budas ou Cristos, e são estes últimos que se tornam conhecidos para nós. Os homens mais elevados não buscam obter nome ou fama de seu conhecimento.

Eles deixam suas ideias para o mundo; não fazem reivindicações para si mesmos e não estabelecem escolas ou sistemas em seu nome. Sua natureza inteira se encolhe diante de tal coisa.

Eles são os puros Sáttvicos, que nunca podem fazer alarde, mas apenas se derretem em amor.

Eu vi um tal Iogue que vive numa caverna na Índia.

Ele é um dos homens mais maravilhosos que já vi.

Ele perdeu tão completamente o senso de sua própria individualidade que podemos dizer

I 14 J

que o homem n'Ele está completamente aniquilado, restando apenas o sentido oniabrangente do divino.

Se um animal morde um de seus braços, ele está pronto para oferecer também o outro braço, e dizer que é a vontade do Senhor.

Tudo o que lhe

sobrevém vem do Senhor.

Ele não se mostra

aos homens, e, no entanto, é um manancial de amor e de ideias verdadeiras e doces.

Em seguida, vêm os homens com mais Rajas, ou atividade, naturezas combativas, que assumem as ideias dos perfeitos e as pregam ao mundo.

A mais alta espécie de homens silenciosamente recolhe ideias verdadeiras e nobres, e outros — os Budas e Cristos — vão de lugar em lugar pregando-as e trabalhando por elas.

Na vida de Gautama Buda, notamo-lo constantemente dizendo que ele é o vigésimo quinto Buda.

Os vinte e quatro anteriores a ele são desconhecidos da história, embora o Buda conhecido pela História deva ter construído sobre fundamentos por eles lançados. Os homens mais elevados são calmos, silenciosos e desconhecidos.

São homens que realmente conhecem o poder do pensamento;

[165]

estão certos de que, mesmo que entrem numa caverna e fechem a porta e simplesmente pensem cinco pensamentos verdadeiros e então faleçam, esses cinco pensamentos deles viverão pela eternidade.

Na verdade, tais pensamentos penetrarão através das montanhas e cruzarão os oceanos, e viajarão pelo mundo, e entrarão profundamente nos corações e cérebros humanos e erguerão homens e mulheres que lhes darão expressão prática nas obras da vida humana.

Esses homens Sattvicas estão próximos demais do Senhor para serem ativos e lutarem, para estarem trabalhando, esforçando-se, pregando e fazendo o bem, como dizem, aqui na terra à humanidade.

Os trabalhadores ativos, por mais bons que sejam, ainda têm um pequeno resquício de ignorância neles.

Quando nossa natureza ainda tem impurezas remanescentes, só então podemos trabalhar.

Está na natureza do trabalho ser impelido ordinariamente por motivo e por apego. Na presença de uma providência sempre ativa e diante d'Aquele que nota até a queda do pardal, como pode o homem atribuir qualquer importância ao seu próprio trabalho? Não será uma blasfêmia fazê-lo, quando

[166]

saiba que Ele cuida das menores coisas do mundo.

Nós apenas temos de nos colocar em admiração e reverência diante d’Ele, dizendo: “Seja feita a Tua vontade; Os homens mais elevados não podem trabalhar, pois para eles há apego.

Aqueles cuja alma inteira se fundiu no Self, aqueles cujos desejos estão confinados no Self, que se tornaram sempre associados ao Self, para eles não há trabalho.” Tais são, de fato, os mais elevados da humanidade; mas, à parte deles, todos os outros têm de trabalhar.

Ao trabalhar assim, nunca devemos pensar que podemos ajudar sequer a menor coisa neste universo.

Não podemos.

Apenas ajudamos a nós mesmos neste ginásio do mundo.

Esta é a atitude correta do trabalho.

Se trabalharmos dessa maneira, se sempre lembrarmos que nossa oportunidade atual de trabalhar assim é um privilégio que nos foi dado, nunca estaremos apegados a coisa alguma.

Milhões como você e eu pensam que são grandes pessoas no mundo; mas todos morremos e, em poucos minutos, o mundo terá nos esquecido. Mas a vida de Deus é infinita.

“Quem pode viver

[ 67 ]

um momento, respirar um momento, se este Todo-Poderoso não o quiser?” Ele é a Providência sempre ativa.

Todo poder é d’Ele e está sob Seu comando.

Através de Seu comando os ventos sopram, o sol brilha, a terra vive, e a morte espreita sobre a terra.

Ele é o tudo em tudo; Ele é tudo e em tudo.

Nós só podemos adorá-Lo; abandone todos os frutos do trabalho; faça o bem por si mesmo; só então virá o perfeito desapego.

Os laços do coração assim se romperão; e alcançaremos a perfeita liberdade.

Essa liberdade é, de fato, a meta do Karma-Yoga.

CAPÍTULO VIII.

O IDEAL DO KARMA-YOGA.

— A ideia mais grandiosa na religião dos Vedas é que podemos alcançar a mesma meta por diferentes caminhos; e esses caminhos generalizei em quatro, a saber: os do trabalho, do amor, da psicologia e do conhecimento.

Mas vocês devem, ao mesmo tempo, lembrar que essas divisões não são muito marcadas nem totalmente exclusivas umas das outras; cada uma se mescla com a outra. Mas, de acordo com o tipo que prevalece, nomeamos as divisões.

Não é que não se possa encontrar um homem que não tenha outra faculdade senão a do trabalho, nem que não se possam encontrar homens que sejam apenas adoradores devotados, nem que não existam homens que tenham mais do que mero conhecimento.

Essas divisões são feitas de acordo com o tipo ou tendência que se pode ver prevalecer em um indivíduo. Todas as religiões e todos os métodos de trabalho e adoração nos conduzem a um único e somente um objetivo.

Já tentei apontar esse objetivo.

É a liberdade, como a entendo. Tudo o que percebemos ao nosso redor está lutando em direção à liberdade, desde o átomo até o homem, desde a partícula insensível e sem vida da matéria até a mais elevada existência na terra, a alma humana.

O universo inteiro é, de fato, o resultado dessa luta pela liberdade.

Em todas as combinações, cada partícula está tentando seguir seu próprio caminho, fugir das outras partículas; mas as outras a estão contendo.

Nossa terra está tentando fugir do sol, e a lua da terra.

Tudo tem uma tendência à dispersão infinita.

Tudo o que vemos no universo tem por base essa única luta em direção à liberdade; é sob o impulso dessa tendência que o santo ora e o ladrão rouba.

Quando a linha de ação adotada não é adequada, chamamo-la de mal; e quando a manifestação dela é adequada e elevada, chamamo-la de bem.

Mas o impulso é o mesmo, a luta em direção à liberdade.

O santo está oprimido pelo conhecimento de sua condição de cativeiro, e quer se livrar dela; então adora a Deus.

O ladrão está oprimido pela ideia de que não possui certas coisas, e tenta se livrar dessa carência, obter liberdade dela; então rouba.

A liberdade é o único objetivo de toda a natureza, senciente ou insenciente; e consciente ou inconscientemente, tudo está lutando em direção a esse objetivo.

A liberdade que o santo busca é muito diferente daquela que o ladrão busca; a liberdade amada pelo santo o conduz ao gozo de uma bem-aventurança infinita e inefável, enquanto aquela em que o ladrão fixou o coração apenas forja outras cadeias para a sua alma.

Em toda religião encontra-se a manifestação dessa luta rumo à liberdade.

Ela é o fundamento de toda moralidade, do desapego, que significa livrar-se da ideia de que os homens são o mesmo que seu pequeno corpo.

Quando vemos um homem fazendo o bem, ajudando os outros, isso significa que esse homem não pode ser confinado dentro do círculo limitado de "eu e meu". Não há limite para esse sair do egoísmo.

Todos os grandes sistemas de ética pregam o desapego absoluto como meta: supondo que esse desapego absoluto possa ser alcançado por um homem, o que acontece com esse homem? Ele não é mais o pequeno Sr. Fulano de Tal; ele adquiriu uma expansão infinita. Aquela pequena personalidade que ele tinha antes agora está perdida para ele para sempre; ele se tornou infinito, e a obtenção dessa expansão infinita é de fato a meta de todas as religiões e de todos os ensinamentos morais e filosóficos.

O personalista, quando ouve essa ideia exposta filosoficamente, fica assustado.

Ao mesmo tempo, se ele prega a moralidade, ele acaba ensinando a mesma ideia ele mesmo.

Ele não põe limite ao desapego do homem.

Suponha que um homem se torne perfeitamente desapegado sob o sistema personalista; como podemos distingui-lo dos aperfeiçoados em outros sistemas? Ele se tornou uno com o universo, e tornar-se isso é a meta de todos; somente o pobre personalista não tem a coragem de levar seu próprio raciocínio à sua conclusão correta.

Karma-Yoga é a obtenção dessa liberdade que é a meta de toda a natureza humana.

Portanto, toda ação egoísta retarda nosso alcance da meta, e toda ação não egoísta nos aproxima da meta'; por isso a única definição que se pode dar de moralidade é esta: 'O que é egoísta é imoral, e o que é não egoísta é moral'. Mas, se entrarmos em detalhes, a questão não parecerá tão simples.

Por exemplo, o ambiente frequentemente torna os detalhes diferentes, como já mencionei.

A mesma ação sob um conjunto de circunstâncias pode ser não egoísta, e sob outro conjunto, bastante egoísta.

Assim, só podemos dar uma definição geral, deixando os detalhes para serem resolvidos levando-se em consideração as diferenças de tempo, lugar e circunstância.

Em um país, um tipo de conduta é considerado moral, e em outro, exatamente o mesmo é imoral, porque as circunstâncias diferem.

A meta de toda a natureza é a liberdade, e a liberdade deve ser alcançada pelo perfeito desapego; toda ação, pensamento, palavra ou feito que seja não egoísta nos leva

[ 173 ]

em direção à meta e, como tal, é chamado moral.

Essa definição, vocês verão, é válida em toda religião e em todo sistema de ética.

Em alguns sistemas de pensamento, a moralidade é derivada de um Ser Superior — Deus.

Se perguntarem por que um homem deve fazer isto e não aquilo, a resposta deles é: "Porque tal é o mandamento de Deus." Mas, seja qual for a fonte da qual se derive, seu código de ética também tem a mesma ideia central — não pensar em si mesmo, mas renunciar a si mesmo.

E, no entanto, algumas pessoas, apesar dessa elevada ideia ética, ficam assustadas com a ideia de terem de renunciar às suas pequenas personalidades.

Podemos pedir ao homem que se apega à ideia de pequenas personalidades que considere o caso de uma pessoa que se tornou perfeitamente não egoísta, que não tem pensamento para si mesma, que não pratica nenhuma ação para si mesma, que não pronuncia nenhuma palavra para si mesma, e então diga onde está o seu "si mesmo"? Esse "si mesmo" é conhecido por ele apenas enquanto ele pensa, age ou fala para si mesmo... Se ele está apenas consciente dos outros, do universo e do todo, onde está o seu "si mesmo"? Ele se foi para sempre.

[ 174 ]

Karma Yoga, portanto, é um sistema de ética e religião destinado a alcançar a liberdade por meio do desapego e das boas obras.

O Karma Yogi não precisa acreditar em doutrina alguma.

Ele pode não acreditar nem mesmo em Deus, pode não perguntar o que é sua alma, nem pensar em qualquer especulação metafísica. Ele tem seu próprio objetivo especial de realizar o desapego; e tem de trabalhá-lo por si mesmo.

Cada momento de sua vida deve ser realização, porque ele tem de resolver, apenas pelo trabalho, sem a ajuda de doutrina ou teoria, o próprio problema ao qual o Jnani aplica sua razão e inspiração, e o Bhakta, seu amor.

Agora vem a próxima questão.

O que é esse trabalho? O que é esse fazer o bem ao mundo? Podemos fazer o bem ao mundo? Em sentido absoluto, não; em sentido relativo, sim.

Nenhum bem permanente e eterno pode ser feito ao mundo; se pudesse ser feito, o mundo não seria este mundo. Podemos satisfazer a fome de um homem, mas ele terá fome novamente. Cada suprimento que fazemos pode ser visto como momentâneo.

Ninguém pode curar permanentemente essa febre recorrente de prazer e dor.

Pode-se dar alguma felicidade permanente ao mundo? No oceano, não podemos erguer uma onda sem causar uma depressão em algum outro lugar.

A soma total das coisas boas do mundo tem sido a mesma ao longo do tempo em sua relação com a necessidade e a cobiça do homem.

Não pode ser aumentada nem diminuída.

Tomemos a história da raça humana como a conhecemos hoje. Não encontramos as mesmas misérias e as mesmas felicidades, os mesmos prazeres e dores, as mesmas diferenças de posição? Não há alguns ricos, alguns pobres, alguns altos, alguns baixos, alguns saudáveis, alguns doentes? Tudo isso era exatamente o mesmo com os egípcios, os gregos e os romanos na antiguidade, como é com os americanos hoje.

Até onde a história é conhecida, sempre foi o mesmo; no entanto, ao mesmo tempo, descobrimos que, correndo junto com todas essas diferenças incuráveis de prazer e dor, sempre houve a luta para aliviá-las. Cada período da história deu origem a

Milhares de homens e mulheres que trabalharam arduamente para suavizar a passagem da vida para outros.

E até que ponto eles tiveram sucesso? Só podemos brincar de empurrar a bola de um lugar para outro. Tiramos a dor do plano físico, e ela vai para o plano mental. É como aquela imagem no inferno de Dante, onde os avarentos recebiam uma massa de ouro para rolar morro acima.

Cada vez que a rolavam um pouco para cima, ela rolava novamente para baixo.

Todas as nossas conversas sobre o milênio são muito bonitas como histórias de meninos de escola, mas não valem mais do que isso.

Todas as nações que sonham com o milênio também pensam que, de todos os povos do mundo, serão elas que terão o melhor para si mesmas então.

Essa é a ideia maravilhosamente altruísta do milênio!

Não podemos acrescentar felicidade a este mundo; da mesma forma, também não podemos acrescentar dor a ele. A soma total das energias de prazer e dor manifestadas aqui na terra será a mesma em todo o tempo. Apenas a empurramos deste lado para o outro e daquele lado para este, mas ela permanecerá a mesma, porque assim permanecer é a sua própria natureza.

[ 77 ]

Essa vazante e fluxo, essa subida e descida, está na própria natureza do mundo; seria tão lógico sustentar o contrário quanto dizer que podemos ter vida sem morte.

Isso é um completo absurdo, porque a própria ideia de vida implica morte constante, e a própria ideia de prazer implica dor.

A lâmpada está constantemente se consumindo, e essa é a sua vida.

Se você quer ter vida, tem que morrer a cada momento por ela. Vida e morte são apenas expressões diferentes da mesma coisa, vistas de pontos de vista diferentes; são a queda e a ascensão da mesma onda, e as duas formam um todo. Um olha para o lado da "queda" e se torna pessimista; outro olha para o lado da "ascensão" e se torna otimista. Quando um menino está indo para a escola e seu pai e sua mãe cuidam dele, tudo parece abençoado para ele; suas necessidades são simples, ele é um grande otimista.

Mas o velho, com sua experiência variada, torna-se mais calmo e certamente terá seu entusiasmo consideravelmente esfriado.

Assim, nações decadentes, com sinais de deterioração ao seu redor, são menos esperançosas do que nações novas.

[ 178 ]

Há um provérbio na Índia: "Mil anos uma cidade, e mil anos uma floresta." Essa mudança de cidade em floresta e vice-versa está ocorrendo em toda parte, e isso torna os povos otimistas ou pessimistas conforme o lado que veem dela.

A próxima ideia que abordamos é a ideia de igualdade.

Essas ideias milenares têm sido grandes forças motrizes para o trabalho.

Muitas religiões pregam isso como um elemento em si mesmas — que Deus está vindo para governar o universo, e que então não haverá nenhuma diferença nas condições.

As pessoas que pregam essa doutrina são meros fanáticos, e os fanáticos são, de fato, os mais sinceros da humanidade.

O cristianismo foi pregado justamente com base no fascínio desse fanatismo, e foi isso que o tornou tão atraente para os escravos gregos e romanos.

Eles acreditavam que, sob a religião milenar, não haveria mais escravidão, que haveria abundância de comida e bebida; e por isso se agruparam em torno do estandarte cristão.

Aqueles que primeiro pregaram a ideia eram, naturalmente, fanáticos ignorantes, mas muito sinceros.

Nos tempos modernos, essa

[ 179 ]

aspiração milenar assume a forma de igualdade — liberdade, igualdade e fraternidade.

Isso também é fanatismo.

A verdadeira igualdade nunca existiu e nunca pode existir na Terra.

Como podemos todos ser iguais aqui? Esse tipo impossível de igualdade implica morte total.

O que faz deste mundo o que ele é? Equilíbrio perdido.

No estado primordial, que é chamado de caos, há equilíbrio perfeito.

Como surgem então todas as forças formativas do universo? Pela luta, competição, conflito.

Suponha que todas as partículas da matéria fossem mantidas em equilíbrio; haveria então algum processo de criação? Sabemos pela ciência que isso é impossível.

Perturbe uma superfície de água, e você verá cada partícula da água tentando se acalmar novamente, uma se chocando contra a outra; e da mesma forma, todos os fenômenos que chamamos de universo — todas as coisas nele — estão lutando para voltar ao estado de equilíbrio perfeito.

Novamente uma perturbação de potências, e novamente temos combinação e criação.

A desigualdade é a própria base da criação.

Ao mesmo tempo, as forças que lutam para obter

[ 180 ]

a igualdade são tão necessárias à criação quanto aquelas que a destroem.

A igualdade absoluta, aquela que significa um perfeito equilíbrio de todas as forças em luta em todos os planos, nunca poderá existir neste mundo; antes de atingirdes esse estado, o mundo ter-se-á tornado totalmente impróprio para qualquer tipo de vida, e ninguém ali estará.

Descobrimos, portanto, que todas essas ideias do milênio e da igualdade absoluta não são apenas impossíveis, mas também que, se tentarmos colocá-las em prática, nos conduzirão, com certeza, ao dia da destruição.

O que faz a diferença entre homem e homem? É em grande parte a diferença no cérebro.

Hoje em dia, ninguém, exceto um lunático, dirá que todos nascemos com o mesmo poder cerebral.

Viemos ao mundo com dotes desiguais; viemos como homens maiores ou como homens menores, e não há como escapar dessa condição determinada pré-natalmente.

Os índios americanos estiveram neste país por milhares de anos, e alguns punhados de vossos ancestrais vieram para a sua terra. Que diferença causaram eles

[ 181 ]

no aspecto do país? Por que não fizeram os índios melhorias e não construíram cidades, se todos são iguais? Com vossos ancestrais, um tipo diferente de poder cerebral veio à terra, diferentes feixes de impressões passadas vieram, e eles se manifestaram e se expressaram.

A não-diferenciação absoluta é a morte.

Enquanto este mundo durar, a diferenciação existirá e deverá existir, e o milênio da perfeita igualdade só virá quando um ciclo de criação chegar ao seu fim.

Antes disso, a igualdade não pode ser. No entanto, essa ideia de realizar o milênio é um grande poder motivador.

Assim como a desigualdade é necessária para a própria criação, a luta para limitá-la também é necessária.

Se não houvesse luta para nos tornarmos livres e voltarmos a Deus, não haveria criação tampouco.

É a diferença entre essas duas forças que determina a natureza dos motivos dos homens.

Haverá sempre esses motivos para trabalhar, uns tendendo à escravidão e outros à liberdade.

A roda dentro da roda deste mundo é um mecanismo terrível; se nela pusermos as mãos, assim que

[ 182 ]

formos apanhados, estamos perdidos.

Todos pensamos que, quando tivermos cumprido certo dever, estaremos em repouso; mas, antes de cumprirmos uma parte desse dever, outro já está à espera.

Todos estamos sendo arrastados por esta poderosa e complexa máquina do mundo.

Há apenas duas saídas dela; uma é renunciar a toda preocupação com a máquina, deixá-la seguir e ficar de lado; renunciar aos nossos desejos.

Isso é muito fácil de dizer, mas quase impossível de fazer. Não sei se em vinte milhões de homens um pode fazê-lo.

A outra maneira é mergulhar no mundo e aprender o segredo do trabalho, e essa é a via do Karma-Yoga.

Não fujas das rodas da máquina do mundo, mas permanece dentro dela e aprende o segredo do trabalho.

Através do trabalho adequado realizado internamente, também é possível sair.

Através dessa própria maquinaria é que está a saída.

Vimos agora o que é o trabalho. É uma parte do fundamento da natureza e prossegue sempre.

Aqueles que creem em Deus compreendem isso melhor, porque sabem que Deus não é um ser tão incapaz

[ 183 ]

que precise da nossa ajuda.

Embora este universo prossiga sempre, nossa meta é a liberdade; nossa meta é o desapego; e, segundo o Karma-Yoga, essa meta deve ser alcançada através do trabalho.

Todas as ideias de tornar o mundo perfeitamente feliz podem ser boas como forças motrizes para fanáticos; mas devemos saber que o fanatismo produz tanto mal quanto bem.

O Karma-Yogin pergunta por que necessitas de qualquer motivo para trabalhar além do amor inato à liberdade.

Sê além dos motivos mundanos comuns.

Tens o direito de trabalhar, mas não aos frutos disso. O homem pode treinar-se para conhecer e praticar isso, diz o Karma-Yogin. Quando a ideia de fazer o bem se torna parte do seu próprio ser, então ele não buscará qualquer motivo externo.

Façamos o bem, porque é bom fazer o bem; aquele que faz o bem mesmo para ir ao céu se amarra, diz o Karma-Yogin. Qualquer trabalho que seja feito, com o menor motivo egoísta, em vez de nos tornar livres, forja mais uma corrente para nossos pés.

[>84]

Portanto, o único caminho é abandonar todos os frutos do trabalho, ser desapegado deles.

Saiba que este mundo não é nosso, nem nós somos este mundo; que realmente não somos o corpo; que realmente não trabalhamos.

Nós somos o Self, eternamente em repouso e em paz.

Por que deveríamos ser amarrados por qualquer coisa? Não devemos chorar; não há choro para a Alma.

Não devemos nem mesmo chorar por simpatia.

Apenas gostamos desse tipo de coisa e, em nossa imaginação, pensamos que Deus está chorando dessa maneira em Seu trono.

Tal Deus não valeria a pena ser alcançado.

Por que Deus deveria chorar? Chorar é um sinal de fraqueza, de escravidão? É muito bom dizer que devemos ser perfeitamente desapegados, mas qual é o caminho para fazer isso? Cada boa ação que fazemos sem qualquer motivo ulterior, em vez de forjar uma nova corrente, quebrará um dos elos das correntes existentes.

Cada bom pensamento que enviamos ao mundo sem pensar em qualquer retorno será armazenado lá e quebrará um elo em uma corrente, e nos tornará mais puros e mais puros, até nos tornarmos os mais puros dos mortais.

[185]

No entanto, tudo isso pode parecer um tanto quixotesco e filosófico demais, mais teórico do que prático; li muitos argumentos contra o Bhagavad Gita e muitos disseram que sem motivos você não pode trabalhar.

Eles nunca viram trabalho desinteressado exceto sob a influência do fanatismo, e portanto, falam dessa maneira.

Deixe-me dizer-lhes em conclusão algumas palavras sobre um homem que realmente colocou esse ensinamento do Karma-Yoga em prática.

Esse homem é Buda.

Ele é o único homem que alguma vez levou isso à prática perfeita.

Todos os profetas do mundo, exceto Buda, tiveram motivos externos para movê-los à ação desinteressada.

Os profetas do mundo, com esta única exceção, podem ser divididos em dois grupos: um grupo sustentando que são encarnações de Deus que desceram à terra, e o outro sustentando que são apenas mensageiros de Deus; e ambos extraem seu ímpeto para o trabalho de fora, esperam recompensa de fora, por mais altamente espiritual que seja a linguagem que usam.

Mas Buda é o único profeta que disse:

[ i86 ]

"Não me importo de conhecer vossas várias teorias sobre Deus. Qual é a utilidade de discutir todas as sutis doutrinas sobre a alma? Fazei o bem e sede bons.

E isto vos levará à liberdade e a qualquer verdade que exista." Ele foi, na conduta de sua vida, absolutamente sem motivos pessoais; e que homem trabalhou mais do que ele? Mostrai-me na história um caráter que tenha se elevado tão alto acima de todos.

A raça humana inteira produziu apenas um tal caráter; tão elevada filosofia; tão ampla simpatia; este grande filósofo, pregando a mais alta filosofia, ainda assim tinha a mais profunda simpatia pelos mais baixos dos animais, e nunca apresentou quaisquer reivindicações para si mesmo.

Ele é o ideal Karma-Yogin, agindo inteiramente sem motivo, e a história da humanidade o mostra como o maior homem já nascido; sem comparação, a maior combinação de coração e cérebro que já existiu, o maior poder da alma que já se manifestou.

Ele é o primeiro grande reformador que o mundo viu.

Ele foi o primeiro que ousou dizer: "Não acrediteis porque alguns velhos manuscritos

[ 87 ]

são produzidos, não acrediteis porque é vossa crença nacional, porque fostes levados a acreditar desde vossa infância; mas raciocinai sobre tudo, e depois de terdes analisado, então, se descobrirdes que isso fará bem a um e a todos, acreditai, vivei de acordo com isso, e ajudai outros a viver de acordo com isso." Trabalha melhor quem trabalha sem qualquer motivo — nem por dinheiro, nem por fama, nem por qualquer outra coisa; e quando um homem puder fazer isso, ele será um Buda, e dele sairá o poder de trabalhar de tal maneira que transformará o mundo.

Este homem representa o mais elevado ideal de Karma Yoga.

bhakti-yoga.

Definição de Bhakti

BHAKTI-YOGA é uma busca genuína e real pelo Senhor — uma busca que começa, continua e termina em Amor.

Um único momento da loucura do amor extremo a Deus nos traz a liberdade eterna.

"Bhakti", diz Narada em sua explicação dos Aforismos de Bhakti, "é amor intenso a Deus." — "Quando um homem o obtém, ama a todos, não odeia ninguém; torna-se satisfeito para sempre." — "Esse amor não pode ser reduzido a nenhum benefício terreno," porque enquanto durarem os desejos mundanos, esse tipo de amor não vem; é maior que Karma, maior que...

( I— a )

BHAKTI-YOGA.

Yoga, porque estes se destinam a um objetivo em vista, enquanto Bhakti é sua própria fruição, seu próprio meio e seu próprio fim." Bhakti tem sido o único tema constante de nossos sábios.

À parte dos escritores especiais sobre Bhakti, como Sandilya ou Narada, os grandes comentaristas dos Vydsa-Sutras, evidentemente defensores do Conhecimento (Jnana), também têm algo muito sugestivo a dizer sobre o Amor.

Mesmo quando o comentarista está ansioso para explicar muitos, senão todos, dos textos de modo a fazê-los importar uma espécie de conhecimento seco, os Sutras, especialmente no capítulo sobre adoração, não se prestam a ser facilmente manipulados dessa maneira.

( II— 7 )

( IV— 25 )  4T   imfinKr:

( rv— 30 )

DEFINIÇÃO DE BHAKTI.

Não há realmente tanta diferença entre Conhecimento (Jnana) e Amor (Bhakti) como às vezes as pessoas imaginam.

Veremos à medida que avançamos que no final eles convergem e se encontram no mesmo ponto.

Assim também com Raja-Yoga, que, quando perseguido como um meio para alcançar a libertação, e não (como infelizmente frequentemente se torna nas mãos de charlatães e mercadores de mistérios) como um instrumento para enganar os incautos, também nos leva ao mesmo objetivo.

A grande vantagem de Bhakti é que é o caminho mais fácil e mais natural para alcançar o grande fim divino em vista; sua grande desvantagem é que em suas formas inferiores, muitas vezes degenera em fanatismo hediondo.

A tripulação fanática no Hinduísmo, ou no Maometismo, ou no Cristianismo, sempre foi recrutada quase exclusivamente entre esses adoradores nos planos inferiores de Bhakti. Essa singularidade de apego (*Niskthá*) a um objeto amado, sem a qual nenhum amor genuíno pode crescer, é muito frequentemente também a causa da denúncia de tudo o mais.

Todas as mentes fracas e subdesenvolvidas em qualquer religião ou país têm apenas uma maneira de amar seu próprio ideal, ou seja, odiando todos os outros ideais.

Aqui está a explicação de por que o mesmo homem que é tão amorosamente apegado ao seu próprio ideal de Deus, tão devotado ao seu próprio ideal de religião, torna-se um fanático uivante assim que vê ou ouve qualquer coisa sobre qualquer outro ideal.

Esse tipo de amor é um tanto semelhante ao instinto canino de guardar a propriedade do mestre contra intrusões; apenas o instinto do cão é melhor do que a razão do homem, pois o cão nunca confunde seu mestre com um inimigo, qualquer que seja a roupa com que ele se apresente diante dele. Além disso, o fanático perde todo o poder de julgamento.

Considerações pessoais são, no seu caso, de interesse tão absorvente que para ele não é questão alguma o que um homem diz — se é certo ou errado; mas a única coisa que ele está sempre particularmente cuidadoso em saber é quem o diz. O mesmo homem que é gentil, bom, honesto e amoroso com pessoas de sua própria opinião não hesitará em praticar os atos mais vis, quando estes são dirigidos contra pessoas fora do âmbito de sua própria irmandade religiosa.

Mas esse perigo existe apenas naquele estágio de Bhakti que é chamado de preparatório. Quando Bhakti se torna madura e passa para aquela forma que é chamada de suprema (*pará*), não há mais nenhum medo dessas manifestações hediondas de fanatismo; aquela alma que é dominada por essa forma superior de Bhakti está próxima demais do Deus do Amor para se tornar um instrumento para a difusão do ódio.

Não nos é dado a todos sermos harmoniosos na construção de nossos caracteres nesta vida; contudo, sabemos que o caráter é do tipo mais nobre quando todos estes três — Conhecimento, Amor e Yoga — estão harmoniosamente fundidos.

Três coisas são necessárias para um pássaro voar — as duas asas e a cauda como leme para direcionar. Jnana (Conhecimento) é uma asa, Bhakti (Amor) é a outra, e Yoga é a cauda que mantém o equilíbrio. Para aqueles que não podem buscar todas essas três formas de adoração juntas em harmonia e, portanto, adotam apenas Bhakti como seu caminho, é necessário sempre lembrar que formas e cerimoniais, embora absolutamente necessários para a alma em progresso, não têm outro valor senão nos levar àquele estado em que sentimos o mais intenso amor a Deus.

Há uma pequena diferença de opinião entre os mestres do Conhecimento e os do Amor, embora ambos admitam o poder de Bhakti. Os Jnanins consideram Bhakti como um instrumento de libertação; os Bhaktas a veem tanto como o instrumento quanto como a meta a ser alcançada. Para mim, essa é uma distinção sem muita diferença. Na verdade, Bhakti, quando usada para significar apenas um instrumento, realmente denota uma forma inferior de adoração, mas isso parece ser inseparável e contínuo às expressões superiores de Bhakti após a realização. Cada um parece, portanto, dar grande ênfase ao seu próprio método peculiar de adoração, esquecendo que, com o amor perfeito, o verdadeiro conhecimento certamente virá, mesmo quando não buscado, e que, do conhecimento perfeito, o verdadeiro amor é inseparável.

Tendo isso em mente, tentemos compreender o que os grandes comentadores Vedânticos têm a dizer sobre o assunto. Ao explicar o Sutra Cap. IV — I — I, Bhagavan Sankara diz: "Assim, as pessoas dizem — 'Ele é devotado ao Guru'; dizem isso daquele que segue seu Guru e o faz tendo esse seguir como o único fim em vista. Da mesma forma, dizem — 'A esposa amorosa medita frequentemente em seu marido ausente'; aqui também se entende um tipo de lembrança ardente e contínua." Isso é devoção segundo Sankara.

Bhagavan Ramanuja, em seu comentário, assim diz sobre Bhakti: "Meditação, novamente, é uma lembrança constante (da coisa meditada) fluindo como uma corrente ininterrupta de óleo derramado de um vaso a outro."

Quando esse tipo de lembrança é alcançado (em relação a Deus), todos os grilhões se rompem.

Assim, é dito nas escrituras que a lembrança constante é um meio para a libertação.

Essa lembrança, por sua vez, tem a mesma forma que o ver, porque tem o mesmo significado, como na passagem: "Quando Ele, que está longe e perto, é visto, os laços do coração são quebrados, todas as dúvidas desaparecem e todos os efeitos das ações se dissolvem". (Ele, que está perto, pode ser visto, mas Ele, que está longe, só pode ser lembrado.

No entanto, a escritura diz que temos de ver tanto Aquele que está perto quanto Aquele que está longe, indicando-nos assim que o tipo de lembrança acima mencionado é tão bom quanto o ver.) Essa recordação, quando exaltada, assume a mesma forma que o ver. A adoração é a lembrança constante, como se pode ver nos textos essenciais das escrituras.

O conhecimento, que é o mesmo que a adoração repetida, foi descrito como lembrança constante. Assim, a memória, que atingiu a altura do que é tão bom quanto a percepção direta, é mencionada na Shruti como um meio de libertação.

"Este Atman não é alcançado por meio de várias ciências, nem pelo intelecto, nem por muito estudo dos Vedas. A quem este Atman deseja, por ele o Atman é alcançado; a ele este Atman se revela." Aqui, depois de dizer que o mero ouvir, pensar e meditar não são os meios de alcançar este Atman, é dito:

"A quem este Atman deseja, por ele o Atman é alcançado." Somente o extremamente amado é desejado; por quem quer que este Atman seja extremamente amado, ele somente se torna o mais amado do Atman.

Para que esse amado possa alcançar o Atman, o próprio Senhor ajuda.

Pois foi dito pelo Senhor: “Aqueles que estão constantemente apegados a mim e me adoram com amor — eu dou à sua vontade aquela direção pela qual eles vêm a mim.” Portanto, diz-se que, para quem esta lembrança, que tem a mesma forma que a percepção direta, torna-se por si mesma muito querida, por ser querida ao Objeto de tal percepção-memória, somente ele é desejado pelo Atman Supremo, isto é, por ele somente o Atman Supremo é alcançado.

Esta lembrança constante é designada pela palavra Bhakti.

DEFINIÇÃO DE BHAKTI.

Ao comentar o Sutra de Patanjali, Cap. I — 23, isto é, “Pela adoração do Senhor Supremo”, Bhoja diz: “Pranidhana é aquela espécie de Bhakti na qual, sem buscar resultados, tais como prazeres dos sentidos, etc., todas as obras são dedicadas àquele Mestre dos mestres.” Bhagavan Vyasa também, ao comentar o mesmo, define Pranidhana como “a forma de Bhakti pela qual a misericórdia do Senhor Supremo vem ao yogin e o abençoa, concedendo-lhe seus desejos.” Segundo Sandilya, “Bhakti é intenso Amor a Deus.” A melhor definição, no entanto, é a dada pelo rei dos Bhaktas, Prahlada: “Aquele amor imortal que os ignorantes têm pelos objetos fugazes dos sentidos — assim como eu permaneço meditando em Ti — que esse (tipo de) amor (intenso) (por Ti) jamais se desvie do meu coração.” Para quem? Para o Senhor Supremo Isvara.

O amor por qualquer outro ser, por mais grandioso que seja, não pode ser Bhakti; pois, como diz Ramanuja em seu Sri Bhashya, citando um antigo Acharya (um grande mestre): “De Brahma a um tufo de grama, todas as coisas que vivem no mundo são escravas do nascimento e da morte causados pelo Karma; portanto, não podem ser úteis como objetos de meditação, porque estão todas na ignorância e sujeitas à mudança.” Ao comentar a palavra usada por

Sandilya, o comentarista Svapnesvara, diz que isso significa amor, depois e apego; ou seja, "o apego que vem depois do conhecimento da natureza e glória de Deus"; caso contrário, um apego cego a qualquer um, por exemplo, à esposa ou filhos, seria Bhakti.

Vemos claramente, portanto, que Bhakti é uma série ou sucessão de esforços mentais para a realização religiosa, começando com a adoração comum e terminando em amor supremamente intenso por Isvara.

(Sandilya Sutras 1–2, Comentário de Svapnesvara)

A Filosofia de Isvara.

Quem é Isvara? "De quem é o nascimento, a continuação e a dissolução do universo" — Ele é Isvara — "o Eterno, o Puro, o Sempre Livre, o Todo-Poderoso, o Onisciente, o Todo-Misericordioso, o Mestre de todos os mestres"; e acima de tudo "Ele, o Senhor, é, por Sua própria natureza, Amor inexprimível." Essas são certamente as definições de um Deus pessoal.

Há então dois Deuses? O "não isto, não isto", o Sat-chit-ananda, o Existência-Conhecimento-Bem-aventurança, do filósofo, e este Deus do Amor do bhakta? Não, é o mesmo Sat-chit-ananda que é também o Deus do Amor, o impessoal e o pessoal em um.

Sempre deve ser

(Vedanta Sutra 1.2)

A FILOSOFIA DE ISVARA.

entendido que o Deus pessoal adorado pelo bhakta não é separado ou diferente do Brahman. Tudo é Brahman, o Uno sem segundo; apenas o Brahman como unidade ou absoluto é demasiado abstrato para ser amado e adorado; então o bhakta escolhe o aspecto relativo de Brahman, isto é, Isvara, o Governante Supremo.

Para usar uma símile: Brahman é como o barro ou substância do qual uma variedade infinita de artigos são moldados. Como barro, são todos um; mas a forma ou manifestação os diferencia. Antes que qualquer um deles fosse feito, todos existiam potencialmente no barro; e, claro, são idênticos substancialmente; mas quando formados, e enquanto a forma permanece, são separados e diferentes; o rato de barro nunca pode se tornar um elefante de barro, porque, como manifestações, apenas a forma os torna o que são, embora como barro não formado sejam todos um.

Isvara é a mais alta manifestação da realidade absoluta, ou, em outras palavras, a mais alta leitura possível do absoluto pela mente humana.

A criação é eterna, e assim também é Isvara.

No quarto pada do quarto capítulo de seus sutras, após afirmar que poder e conhecimento quase infinitos virão à alma liberada após a obtenção do moksha, Vyasa faz a observação, em um aforismo, de que ninguém, no entanto, obterá o poder de criar, governar e dissolver o universo, porque isso pertence somente a Deus." Ao explicar este sutra, é fácil para os comentaristas dualistas mostrar como é sempre impossível para uma alma subordinada, jiva, ter o poder infinito e a total independência de Deus.

O comentarista dualista completo Madhvacharya trata esta passagem em seu método habitual de resumo, citando um verso do Vardha-Purana,

(Vedanta Sutras, Cap. IV — 4 — 17)

A FILOSOFIA DE ISVARA.

O comentarista, Ramanuja, ao explicar este aforismo, diz: — Esta é a dúvida aqui — se entre os poderes das almas liberadas está incluído aquele poder único do Supremo, de criação, etc., do universo e também o Governo sobre tudo, ou, faltando isso, a glória do liberado consiste apenas na percepção direta do Supremo.

Suponhamos como razoável que os liberados obtenham também o governo do universo. Por quê? Porque, dizem as escrituras, a alma liberada atinge à extrema semelhança com o Supremo nas passagens — "o livre de toda mácula atinge à extrema semelhança" (Mundaka III — 3) e "todos os seus desejos são realizados." Ora, a extrema semelhança e a realização de todos os desejos não podem ser alcançadas sem o poder único do Senhor Supremo, a saber, o de governar o universo. Portanto, em virtude dessas afirmações sobre a realização de todos os desejos e a obtenção da extrema semelhança, temos que os liberados ganham também o poder de governar todo o universo.

A isso respondemos que os liberados obtêm todos os poderes, exceto o de governar o universo.

Governar o universo é dirigir as várias manifestações de forma, vida e desejo de todos os seres sencientes e não sencientes, dos quais ele é composto, e isso não pertence aos liberados, de quem todos os véus foram removidos, e que gozam da glória da percepção desobstruída do Brahman.

Isto é provado pelo próprio texto do livro, que declarou o controle do universo ser a natureza do Brahman Supremo somente: 'De quem todos estes seres nascem, por quem todos os que nascem vivem, e para quem eles, ao partirem, retornam; perguntai sobre Isso, Isso é Brahman!' Se esta qualidade de governar o universo fosse comum também aos liberados, então este texto não seria

A FILOSOFIA DE ISVARA.

aplicável, pois define Brahman através desta própria qualidade de governo do universo.

As qualidades incomuns somente são declaradas numa definição, como nos seguintes textos dos Vedas: 'Meu querido menino! sozinho, no início, existia o Um sem um segundo. Isso viu e sentiu: Eu darei à luz os muitos. Isso projetou calor.' — 'Brahman, de fato, sozinho existia no início. Esse Um evoluiu. Isso projetou uma forma abençoada, o Kshatra. Todos estes deuses são Kshatras: Varuna, Soma, Rudra, Parjanya, Yama, Mrityu, Isana!' — 'Atman, de fato, existia sozinho no início; nada mais vibrava; Ele viu e sentiu como que projetando os mundos. Ele projetou os mundos após as chuvas' — 'Sozinho Narayana existia; nem Brahma nem Isana, nem os Dyava-Prithvi, nem as estrelas, nem a água, nem o fogo, nem Soma nem o Sol. Ele não sentiu prazer em estar sozinho. Ele, após Sua meditação, teve uma filha, os dez órgãos.' — 'Quem vivendo na terra é separado da terra, quem vivendo no Atman' etc. — Em textos como os acima, as Srutis falam do Supremo Uno como o sujeito da obra de governar o universo.


Nem nas descrições acima do governo do universo há qualquer posição atribuída à alma liberada nos textos citados — pois a qualidade de governar o universo está muito distante da província de tal alma.

Ao explicar o próximo sutra, Ramanuja diz: “Se você disser que não é assim, porque há textos diretos nos Vedas em evidência em contrário, esses textos referem-se à glória dos liberados nas esferas das divindades subordinadas.”† Esta também é uma solução fácil para a dificuldade.

Embora o sistema de Ramanuja admita a unidade do todo, dentro dessa totalidade da existência há, segundo ele, diferenças eternas.

Portanto, para todos os fins práticos, este

♦Vedanta Sutras IV.—4—17, Comentário de Ramanuja

† Vedanta Sutras IV. 4—18, Comentário de Ramanuja.

A FILOSOFIA DE ISVARA.

sistema também sendo dualístico, foi fácil para Ramanuja manter a distinção entre a alma pessoal e o Deus pessoal claramente distintas.

Agora tentaremos compreender o que o grande representante da escola Advaita tem a dizer sobre o ponto.

Veremos como o sistema Advaita mantém todas as esperanças e aspirações do dualista intactas e, ao mesmo tempo, propõe sua própria solução para o problema, em consonância com o alto destino da humanidade divina.

Aqueles que aspiram a reter sua mente individual mesmo após a liberação e permanecer distintos da realidade absoluta terão ampla oportunidade de realizar sua aspiração e desfrutar da bênção do Brahman qualificado.

Estes são aqueles de quem se falou no Bhagavata Purana assim: — “Ó rei, tais são as gloriosas qualidades do Senhor que os sábios cujo único prazer está no Ser, e de quem todos os laços caíram fora, mesmo eles amam o Todo-Poderoso com o amor que é pelo amor em si.” Estes são aqueles de quem os Sankhyas falam como “fundidos na natureza”! neste ciclo, para que, após alcançarem a perfeição, possam emergir no próximo como senhores de sistemas mundiais.


Mas nenhum deles jamais se torna igual a Deus (Isvara). Aqueles que alcançam esse estado onde não há nem criação, nem criado, nem criador, onde não há nem conhecedor, nem cognoscível, nem conhecimento, onde não há nem eu, nem tu, nem ele —

não há nem sujeito, nem objeto, nem relação, “lá, quem é visto por quem?” — Tais pessoas foram além de tudo, além de “onde as palavras não podem ir nem a mente,” (Bhagabat, I — Cap. VII — 10)

“fW W, a I”

A FILOSOFIA DE ISVARA,

alcançaram aquela condição abençoada que os Srutis declaram como “não isto, não isto.” Mas para aqueles que não podem, ou não querem alcançar este estado, inevitavelmente permanecerá a visão triuna do Brahman uno e indiferenciado como natureza, alma e o sustentador interpenetrante de ambos — Isvara. Assim, quando Prahlada esqueceu a si mesmo, elevando-se a um plano mais alto de consciência através do excesso de devoção, ele não percebeu nem o universo nem sua causa.

Tudo era para ele como um Ser Infinito, indiferenciado por nome e forma.

Mas assim que ele, descendo ao plano mental comum, lembrou que era Prahlada, novamente apareceu o universo diante dele e com ele o Senhor do universo — “o repositório de um número infinito de qualidades abençoadas.” Assim foi com as abençoadas Gopis.

Enquanto perderam o senso de sua própria identidade pessoal e individualidade por seu intenso amor e anseio por Sri Krishna, todas se sentiram como Krishnas e quando começaram novamente a pensar Nele como o Único a ser adorado, então eram Gopis novamente, e imediatamente “apareceu-lhes Krishna com sorriso em seu rosto de lótus, vestido com vestes amarelas e com guirlandas, o conquistador encarnado (em beleza) do deus do amor.” Agora, voltando ao nosso Acharya Sankara: “Aqueles,” ele diz, “que adorando o Brahman qualificado alcançam conjunção com o Governante Supremo preservando sua mente individual — sua glória é limitada ou ilimitada? Surgindo esta dúvida, temos como argumento: — Sua glória deve ser ilimitada, por causa dos textos das escrituras Eles alcançam seu próprio reino — A ele todos os deuses oferecem adoração — Seus desejos são cumpridos em todos os mundos. Como resposta a isso, Vyasa usa a expressão ‘sem o poder de

— (Bhagabat, X. Cap. 31-2).

A FILOSOFIA DE ISVARA.

governar o universo.’ Exceto o poder de criação, continuação e dissolução do universo, os outros poderes, como animay etc., são adquiridos pelos liberados.

Quanto a governar o universo, isso pertence ao Isvara eternamente perfeito.

Por quê? Porque Ele é o sujeito de todos os textos das escrituras que falam da criação, e as almas liberadas não são mencionadas neles em nenhuma conexão, de modo algum.

O Senhor Supremo, de fato, é o único empenhado em governar o universo.

Os textos sobre a criação apontam todos para Ele, e foi usado o adjetivo “sempre perfeito” em relação a Ele. Além disso, como as escrituras dizem que os poderes animay etc., de outros vêm da busca e da adoração de Deus, portanto seus poderes têm um começo e são limitados; logo, eles não têm lugar no governo do universo.

Novamente, por possuírem suas mentes individuais, é possível que suas vontades difiram, de modo que, enquanto um deseja a criação, outro pode desejar a destruição.


A única maneira de evitar esse conflito é subordinar todas as vontades a uma única vontade.

Portanto, a conclusão é que as vontades dos liberados são dependentes da vontade do Governante Supremo.

Bhakti, então, pode ser dirigida apenas ao aspecto pessoal de Brahman, “O caminho é mais difícil para aqueles cuja mente está apegada ao Absoluto.”t O Bhakta navega suavemente com a corrente da natureza humana.

É verdade que não podemos ter qualquer ideia do Brahman que não seja antropomórfica, mas não é igualmente verdadeiro de tudo o que conhecemos? O maior psicólogo que o mundo já conheceu, Bhagavan Kapila, demonstrou há eras que a consciência humana fornece apenas um dos elementos na constituição de todos os objetos de nossa percepção e concepção,

o

Vedanta Sutras, IV, 4-17, Comentário de Sankara.

(Bhagavad Gita, Cap. XII-5.)

A FILOSOFIA DE ISVARA.

internos e externos.

Começando com nossos próprios corpos e subindo até Isvara, todo objeto de nossa percepção é assim composto desta consciência mais um algo mais, que está além e distinto dela, e a inevitável mistura de ambos é o que vemos em toda parte e consideramos como realidade.

De fato, é, e sempre será, toda a realidade que é possível à mente humana conhecer.

Portanto, dizer que Isvara é irreal, por ser antropomórfico, é puro absurdo.

Isso soa muito como a disputa entre idealismo e realismo na filosofia ocidental, que tem como fundamento o mero jogo com a palavra real.

A ideia de Isvara cobre todo o terreno já denotado e conotado pela palavra real.

Isvara é tão real quanto qualquer outra coisa no universo; e a palavra real nada mais significa para nós do que o que foi apontado.

Tal é a concepção de Isvara, na filosofia hindu.

A Realização Espiritual, o Objetivo do Bhakti-Yoga.

Para o bhakta, esses detalhes áridos são necessários apenas para fortalecer sua vontade.

Além disso, não lhe servem de nada, pois ele trilha um caminho que em breve o conduzirá para além das regiões nebulosas e turbulentas da razão, até o reino da realização.

Em breve, pela misericórdia do Senhor, ele alcança um plano onde a razão pedante e impotente fica para trás, e o mero tatear intelectual através das trevas dá lugar à luz do dia da percepção direta.

Não mais ele raciocina e crê; ele percebe.

Não mais ele argumenta; ele sente.

E não é esse ver, sentir e desfrutar de Deus algo mais elevado do que raciocinar e argumentar sobre Ele? Na verdade, não faltaram bhaktas que sustentaram que isso é mais elevado até mesmo do que Moksha — a liberação.

E não é também

O OBJETIVO DO BHAKTI-YOGA.

em si mesmo a mais alta utilidade? Há pessoas neste mundo, e muitas delas, que estão convencidas de que somente aquilo que traz confortos materiais ao homem é de uso e utilidade.

Religião, Deus, Eternidade, Alma — nada disso lhes serve, pois tais coisas não lhes trazem dinheiro ou conforto físico! Para tais pessoas, as coisas que não gratificam os sentidos ou não apaziguam os apetites não têm qualquer utilidade.

Em toda mente, contudo, a utilidade é condicionada por suas próprias necessidades peculiares.

Para os homens, portanto, que nunca se elevam além de comer, beber, gerar descendência e morrer, o ganho reside apenas nos prazeres dos sentidos; e eles devem esperar e passar por muitas mais reencarnações para aprender a sentir mesmo a mais tênue necessidade de algo mais elevado.

Mas aqueles para quem os interesses eternos da alma são de valor muito mais alto do que os interesses fugazes desta vida mundana, para quem a gratificação dos sentidos é apenas como o brincar impensado do bebê, para eles Deus e o amor a Deus constituem a mais alta e a única utilidade da existência humana.

Graças a Deus, ainda há alguns assim vivendo neste mundo de demasiada mundanidade.

O Bhakti-Yoga, como dissemos, divide-se em *gauni*, ou a forma preparatória, e *para*, ou a forma suprema.

Veremos, à medida que avançarmos, como, no estágio preparatório, inevitavelmente necessitamos de muitos auxílios concretos para nos ajudar a prosseguir; e, de fato, as partes mitológicas e simbólicas de todas as religiões são crescimentos naturais que desde cedo circundam a alma aspirante e a ajudam em direção a Deus.

É também um fato significativo que gigantes espirituais só foram produzidos nos sistemas religiosos onde há um crescimento exuberante de rica mitologia e ritualismo.

As formas secas e fanáticas de religião, que tentam erradicar tudo o que é poético, tudo o que é belo e sublime, tudo o que dá um firme apoio à mente infantil que vacila em seu caminho para Deus — as formas que

O OBJETIVO DO BHAKTI-YOGA.

tentativa de derrubar as próprias cumeeiras do teto espiritual, e em suas concepções ignorantes e supersticiosas da verdade procuram afastar tudo o que é vivificante, tudo o que fornece o material formativo à planta espiritual que cresce na alma humana — tais formas de religião descobrem cedo demais que tudo o que lhes resta é apenas uma casca vazia, uma moldura sem conteúdo de palavras ou talvez sofismas, com um leve sabor de varredura social, o chamado espírito de reforma.

A vasta massa daqueles cuja religião é assim são materialistas conscientes ou inconscientes — o fim e o objetivo de suas vidas aqui e no além sendo o prazer.

É por isso que iJW ou obras como limpeza de ruas e varredura, destinadas a aumentar o conforto material do homem, são para eles o alfa e o ômega, o "ser" e o "fim último" da existência humana! Quanto mais cedo os seguidores dessa curiosa mistura de ignorância e fanatismo se revelarem em suas verdadeiras cores, e se juntarem, como bem merecem, às fileiras dos ateus e materialistas, melhor será para o mundo.


Uma onça de prática de retidão para a autorrealização espiritual pesa mais do que toneladas e toneladas de tais conversas espumosas e sentimentos sem sentido.

Mostre-nos um, apenas um, gigantesco gênio espiritual crescendo de todo esse pó seco de ignorância e fanatismo, ou, se não puder, fechem suas bocas, abram as janelas de seus corações à clara luz da verdade, e sentem-se como crianças aos pés daqueles que sabem do que falam — os sábios da Índia! Ouçamos então atentamente o que eles dizem.

A Necessidade de um Guru.

Toda alma está destinada a ser perfeita, e todo ser, no fim, alcançará o estado de perfeição.

O que somos agora é o resultado de nossos atos e pensamentos no passado; e o que seremos no futuro será o resultado do que pensamos e fazemos agora.

Mas isso, nosso moldar de nossos próprios destinos, não impede que recebamos ajuda de fora; aliás, na vasta maioria dos casos, tal ajuda é absolutamente necessária.

Quando isso acontece, os poderes e possibilidades superiores da alma são despertados, a vida espiritual é ativada, o crescimento é animado, e o homem torna-se santo e perfeito no fim.

Esse impulso de despertamento não pode ser derivado de livros.

A alma só pode receber impulsos de outra alma, e de nada mais.

Podemos estudar livros a vida toda, podemos tornar-nos muito intelectuais, mas no fim descobrimos que não desenvolvemos espiritualmente nada.

Não é verdade que um alto grau de desenvolvimento intelectual sempre ande de mãos dadas com um desenvolvimento proporcional do lado espiritual no homem.

Ao estudar livros, às vezes somos iludidos a pensar que, com isso, estamos sendo ajudados espiritualmente; mas se analisarmos o efeito do estudo de livros sobre nós mesmos, descobriremos que, no máximo, é apenas nosso intelecto que tira proveito de tais estudos, e não nosso espírito interior.

Essa insuficiência dos livros para despertar o crescimento espiritual é a razão pela qual, embora quase todos nós possamos falar maravilhosamente sobre assuntos espirituais, quando se trata de ação e de viver uma vida verdadeiramente espiritual, nos achamos tão terrivelmente deficientes.

Para despertar o espírito, o impulso deve vir de outra alma.

A pessoa de cuja alma tal impulso provém é chamada de guru — o mestre, e a pessoa para cuja alma o impulso é transmitido é chamada de sishya — o estudante.

A NECESSIDADE DE UM GURU.

Para transmitir tal impulso a qualquer alma, em primeiro lugar, a alma da qual ele procede deve possuir o poder de transmiti-lo, e em segundo lugar, a alma à qual ele é transmitido deve ser apta a recebê-lo. A semente deve ser uma semente viva, e o campo deve estar pronto para ser arado; e quando ambas as condições são cumpridas, um crescimento maravilhoso de religião genuína ocorre.

"O verdadeiro pregador da religião tem de possuir capacidades maravilhosas, e hábil deve ser seu ouvinte; e quando ambos são realmente maravilhosos e extraordinários, então resultará um esplêndido despertar espiritual, e não de outra forma."

Somente esses são os verdadeiros mestres, e somente esses são também os verdadeiros estudantes ou aspirantes à espiritualidade.

Todos os outros estão apenas brincando com a espiritualidade.

Eles têm apenas um pouco de curiosidade despertada, apenas uma pequena aspiração intelectual acesa neles, mas estão meramente

(Katha, II-7)

permanecendo na franja externa do horizonte da religião.

Há, sem dúvida, algum valor mesmo nisso, pois pode, com o tempo, resultar no despertar de uma sede real pela religião.

É uma lei misteriosa da natureza que, tão logo o campo esteja pronto, a semente deve e de fato vem; tão logo a alma deseja sinceramente ter religião, o transmissor da força religiosa deve e de fato aparece para ajudar essa alma.

Quando o poder que atrai a luz da religião na alma receptora está pleno e forte, o poder que responde a essa atração e envia a luz vem como questão de curso natural.

Há, no entanto, certos grandes perigos no caminho.

Há, por exemplo, o perigo para a alma receptora de confundir emoções momentâneas com um anseio religioso real.

Podemos estudar isso em nós mesmos.

Muitas vezes em nossas vidas, quando alguém que amamos morre, recebemos um golpe — sentimos que o mundo está escapando entre nossos

A NECESSIDADE DE UM GURU.

dedos, que queremos algo mais seguro e mais elevado, e que devemos nos tornar religiosos.

Em poucos dias, essa onda de sentimento passa e ficamos encalhados exatamente onde estávamos antes! Todos nós, frequentemente, confundimos tais impulsos com sede real de religião; mas enquanto essas emoções momentâneas forem assim confundidas, esse anseio contínuo e real da alma por religião não virá, e não poderemos encontrar o verdadeiro transmissor da espiritualidade.

Assim, sempre que formos tentados a reclamar que nossa busca pela Verdade se mostra vã, em vez de reclamar, nosso primeiro dever deveria ser olhar para dentro de nossas próprias almas e descobrir se o anseio no coração é real.

Então, na vasta maioria dos casos, descobrir-se-ia que não éramos aptos para receber a Verdade, que não havia sede real de espiritualidade.

Há ainda maiores perigos em relação ao "transmissor, o guru.

Há muitos que, embora imersos na ignorância, contudo, no orgulho de seus corações, imaginam saber tudo, e não apenas não param aí, mas se oferecem para carregar outros em seus ombros; e assim, o cego guiando o cego, ambos caem na vala.


"Os tolos, habitando nas trevas, sábios em sua própria presunção e inchados de vão conhecimento, andam em círculos, cambaleando de um lado para outro, como cegos guiados por cegos."¹ O mundo está cheio de tais pessoas.

Todo mundo quer ser mestre, todo mendigo quer doar um milhão de dólares! Assim como esses mendigos são ridículos, assim também são esses mestres.

(Mundaka, I — 2-8)

Qualificações do Aspirante e do Mestre.

Como então reconhecer um mestre? O sol não necessita de tocha para se tornar visível — não precisamos acender uma vela para vê-lo.

Quando o sol nasce, instintivamente nos damos conta do fato; assim, quando um mestre de homens vem para nos ajudar, a alma instintivamente descobrirá que a verdade já começou a brilhar sobre ela. A verdade se sustenta por sua própria evidência — não requer nenhum outro testemunho para provar que é verdadeira — ela é autoluminosa.

Ela penetra nos recantos mais íntimos de nossa natureza, e em sua presença o universo inteiro se ergue e diz: "Isto é verdade." Os mestres cuja sabedoria e verdade brilham como a luz do sol, os melhores que o mundo já conheceu, são adorados como deuses pela maior parte da humanidade.


Mas podemos obter ajuda também de uma classe comparativamente inferior, e como nós mesmos não possuímos intuição suficiente para julgar os méritos do homem de quem vamos receber ensino e orientação; deve haver certos testes, certas condições, que o mestre deve satisfazer, assim como há para o discípulo.

As condições necessárias para o discípulo são pureza, um verdadeiro anseio por conhecimento e perseverança.

Nenhuma alma impura pode ser verdadeiramente religiosa.

Pureza no pensamento, na fala e na ação é absolutamente necessária para que alguém seja religioso.

Quanto a ter sede de conhecimento, é uma lei antiga que todos nós obtemos o que queremos. Nenhum de nós pode obter algo diferente daquilo em que fixamos nossos corações.

Ansiar verdadeiramente por religião é uma coisa muito difícil, não tão fácil quanto geralmente imaginamos. Ouvir palestras religiosas, ler livros religiosos, não é ainda prova de uma necessidade real sentida no coração; deve haver uma luta contínua, uma batalha constante, um embate incessante com nossa natureza inferior, até que a necessidade superior seja realmente sentida e a vitória seja alcançada.

Não é uma questão de um ou dois dias ou anos, ou de uma ou duas vidas — a luta pode ter que continuar por centenas de vidas. O sucesso às vezes pode vir imediatamente, mas devemos estar prontos para esperar pacientemente por aquilo que pode parecer um período de tempo infinito, até mesmo. O estudante que parte com tal espírito de perseverança certamente encontrará sucesso e realização por fim.

Com relação ao mestre, devemos ver que ele conhece o espírito das escrituras. O mundo inteiro lê Bíblias, Vedas e Corões; mas lê apenas as palavras, a sintaxe, a etimologia e a filologia desses — os ossos secos da religião. O mestre que lida demais com palavras e permite que a mente seja levada pela força das palavras perde o espírito. É o conhecimento do espírito das escrituras somente que constitui o verdadeiro mestre religioso. A rede das palavras das escrituras é como uma enorme floresta na qual a mente humana frequentemente se perde e não encontra saída.

“A rede de palavras é uma grande floresta; é a causa de curiosas divagações da mente.” “Os vários métodos de combinar palavras, os vários métodos de falar em linguagem bela, os vários métodos de explicar a dicção das escrituras, bem como as disputas dos eruditos, são bons prazeres intelectuais, mas não conduzem ao desenvolvimento da perfeição espiritual.” † Aqueles que empregam tais métodos para transmitir religião a outros são apenas desejosos de exibir seu aprendizado, para que o mundo os elogie como grandes

( Viveckachud'amani, 62 sloka )

( Vivekachud'âmani, 60 sloka )

O ASPIRANTE E O MESTRE.

Estudiosos.

Descobrireis que nenhum dos grandes mestres do mundo jamais se entregou a essas várias explicações dos textos; não há neles nenhuma tentativa de "torturar os textos", nenhum eterno jogo com o significado das palavras e suas raízes.

Eles simplesmente ensinavam, enquanto outros, que nada têm a ensinar, tomaram às vezes uma palavra e escreveram um livro de três volumes sobre sua origem, sobre o homem que a usou primeiro, e sobre o que esse homem costumava comer, e quanto tempo dormia, e assim por diante!

Bhagavan Ramakrishna costumava contar uma história sobre alguns homens que entraram num pomar de mangas e se ocuparam em contar as folhas, os ramos e as galhas das árvores, examinando sua cor, comparando seu tamanho, e anotando tudo cuidadosamente, e então travando uma erudita discussão sobre cada um desses tópicos, que eram, sem dúvida, altamente interessantes para eles.

Mas um deles, mais sensato que os outros, não se importou com todas essas coisas, e em vez disso, começou a comer o fruto da manga! E não era ele mais sábio? Então deixai essa contagem de folhas e ramos e essas anotações para outros.


Esse tipo de trabalho tem seu lugar apropriado, mas não aqui no domínio espiritual.

Nunca vereis um homem espiritualmente forte entre esses "contadores de folhas". A religião, o mais elevado objetivo, a mais alta glória do homem, não requer tanto trabalho quanto a contagem de folhas.

Se quereis ser um bhakta, não é de modo algum necessário saber se Krishna nasceu em Mathura ou em Vraja, ou o que ele fez durante toda a sua vida, ou a data exata em que proferiu os ensinamentos do Gita.

Somente precisais sentir o anseio pelas belas lições de dever e amor no Gita.

Todos os outros detalhes sobre ele e seu autor são para o deleite dos eruditos.

Que eles tenham o que desejam.

Dizei Shantih, Shantih às suas eruditas controvérsias, e comamos as mangas.

O ASPIRANTE E O MESTRE.

A segunda condição necessária no mestre é — a pureza.

A pergunta é frequentemente feita: “Por que deveríamos examinar o caráter e a personalidade de um mestre? Temos apenas de julgar o que ele diz e aceitar isso.” Isso não é correto.

Se um homem quer me ensinar algo sobre dinâmica ou química, ou qualquer outra ciência física, ele pode ser o que quiser, porque o que as ciências físicas exigem é meramente um equipamento intelectual; mas no que diz respeito às ciências espirituais, é impossível, do início ao fim, que possa haver qualquer luz espiritual na alma que é impura.

Que religião pode um homem impuro ensinar? A condição *sine qua non* para adquirir a verdade espiritual para si mesmo ou para transmiti-la aos outros é a pureza do coração e da alma.

Uma visão de Deus ou um vislumbre do além nunca vem até que a alma seja pura.

Portanto, com o mestre de religião, devemos ver primeiro o que ele é, e depois o que ele diz.

Ele deve ser perfeitamente puro, e então somente então vem o valor de suas palavras, porque só então ele é o verdadeiro “transmissor”. O que ele pode transmitir, se não tem poder espiritual em si mesmo? Deve haver uma intensa vibração espiritual na mente do mestre, para que possa ser simpaticamente transmitida à mente do discípulo.


A função do mestre é, de fato, um assunto de real transferência de algo, e não uma mera estimulação das faculdades intelectuais ou outras já existentes no discípulo.

Algo real e apreciável como uma influência vem do mestre e vai para o discípulo.

Portanto, o mestre deve ser puro.

A terceira condição diz respeito ao motivo.

O mestre não deve ensinar com qualquer motivo egoísta oculto, por dinheiro, nome ou fama; seu trabalho deve ser simplesmente por amor, por puro amor à humanidade em geral.

O único meio através do qual a força espiritual pode ser transmitida é o amor.

Qualquer motivo egoísta, como o desejo de ganho ou de

O ASPIRANTE E O MESTRE.

nome, destruirá imediatamente esse meio de transmissão.

Deus é amor, e somente aquele que conheceu Deus como amor pode ser um mestre da piedade e de Deus para o homem.

Quando você vê que, em seu mestre, todas essas condições estão preenchidas, você está seguro; se não estão, é inseguro permitir-se ser ensinado por ele, pois há o grande perigo de que, se ele não puder transmitir bondade ao seu coração, possa transmitir maldade.

Esse perigo deve ser, por todos os meios, evitado.

"Aquele que é erudito, sem pecado e não contaminado pela luxúria, ele é o maior conhecedor do Brahman."

(Vivekachudamani, sloka 54)

Pelo que foi dito, segue-se naturalmente que não podemos ser ensinados a amar, apreciar e assimilar a religião em toda parte e por qualquer pessoa.

O "sermão nas pedras, livros nos riachos correntes, e o bem em tudo" é tudo muito verdadeiro como figura poética — mas nenhum homem pode transmitir a outro um único grão de verdade, a menos que ele tenha os germes não desenvolvidos dela em si mesmo.

A quem as pedras e os riachos pregam sermões? — à alma humana, o lótus cujo santuário interno e sagrado já está pulsante de vida.

E a luz que causa o belo desabrochar desse lótus vem sempre do mestre bom e sábio.

Quando o coração foi assim aberto, torna-se apto a receber ensinamento das pedras e dos riachos, ou das estrelas, do sol e da lua, ou de qualquer coisa que tenha sua existência neste universo divino; mas o coração não aberto verá neles nada além de meras pedras e meros riachos.

Um cego pode ir a um museu, mas não se beneficiará dele de forma alguma; seus olhos devem ser abertos primeiro, e só então ele poderá aprender o que as coisas no museu podem ensinar.

Este abridor de olhos do aspirante à religião é o mestre.

Com o mestre, portanto, nossa relação é a mesma que existe entre um ancestral e seus descendentes.

E esta nossa vida, isenta do convívio público,
Encontra línguas nas árvores, livros nos riachos correntes,
Sermões nas pedras e o bem em tudo.

Shakespeare, "Como Gostais", Ato II, Cena I.


O ASPIRANTE E O MESTRE.

Sem fé, humildade, submissão e veneração em nossos corações ao nosso mestre religioso, não pode haver qualquer crescimento de religião em nós; e é um fato significativo que, onde esse tipo de relação entre o mestre e o discípulo prevalece, somente aí estão crescendo homens espirituais gigantescos, enquanto naqueles países que negligenciaram manter esse tipo de relação, o mestre religioso tornou-se um mero conferencista — o mestre esperando seus cinco dólares, o discípulo esperando que seu cérebro seja preenchido com as palavras do mestre, e cada um seguindo seu próprio caminho depois que isso é feito! Sob tais circunstâncias, a espiritualidade torna-se quase uma quantidade desconhecida.


Não há ninguém para transmiti-la e ninguém para recebê-la. A religião com tais pessoas torna-se negócio — eles pensam que podem obtê-la com seus dólares.

Quisera Deus que a religião pudesse ser obtida tão facilmente! Mas infelizmente não pode.

A religião, que é o próprio auge do conhecimento e da sabedoria, não pode ser comprada nem adquirida de livros.

Você pode enfiar a cabeça em todos os cantos do mundo, pode explorar o Himalaia, os Alpes e o Cáucaso, pode sondar o fundo do mar e esquadrinhar cada recanto do Tibete e do deserto de Gobi, não o encontrará em lugar algum, até que seu coração esteja pronto para recebê-lo e seu mestre tenha chegado.

E quando esse mestre divinamente designado vier, sirva-o com confiança e simplicidade infantis, abra livremente seu coração à sua influência e veja nele Deus encarnado! Aqueles que vêm buscar a verdade com tal espírito de amor e veneração, a

O ASPIRANTE E O MESTRE.

5$

eles o Senhor da Verdade revela as coisas mais maravilhosas sobre a verdade, a bondade e a beleza.

Mestres Encarnados e Encarnação.

"Onde quer que o nome do Senhor seja pronunciado, esse lugar é santo" — quanto mais o homem que pronuncia Seu nome, e com que veneração devemos nos aproximar dele, de quem nos é transmitida a luz espiritual! Tais mestres da verdade espiritual são de fato muito poucos em número neste mundo, mas o mundo nunca está totalmente sem eles.

O momento em que estiver absolutamente desprovido deles, tornar-se-á um inferno hediondo e apressará a sua destruição.

Eles são sempre as mais belas flores da vida humana, "o oceano de misericórdia sem qualquer motivo!"

"Conhece-Me como o Guru de todos," diz Sri

(Vivekachudamani, 35º sloka)

(Bhagavat, Cap. XI, 17–26)

MESTRES ENCARNADOS E ENCARNAÇÃO.

Krishna no Bhagavat,—Mais sublime e nobre do que todos os ordinários é outro conjunto de mestres no mundo, os Avatares de Ishvara. Eles podem transmitir espiritualidade com um toque, até mesmo com um mero desejo! Os caracteres mais baixos e mais degradados tornam-se em um segundo santos ao seu comando! Eles são os Mestres de todos os mestres, as mais altas manifestações de Deus através do homem.

Não podemos ver Deus exceto através deles.

Não podemos deixar de adorá-los e, de fato, eles são os únicos que somos obrigados a adorar.

Nenhum homem pode realmente ver Deus exceto através dessas manifestações humanas.

Se tentarmos ver Deus de outra forma, criamos para nós mesmos uma caricatura hedionda Dele, e acreditamos que a caricatura não é pior do que o original.

Há uma história de um homem ignorante a quem foi pedido que fizesse uma imagem do Deus Shiva, e que, após dias de árdua luta, fabricou apenas a imagem de um macaco.


Assim, sempre que tentamos pensar em Deus como Ele é em Sua perfeição absoluta, invariavelmente encontramos o mais miserável fracasso; porque enquanto somos homens, não podemos concebê-Lo como algo mais elevado do que o homem.

Chegará o tempo em que transcenderemos nossa natureza humana e O conheceremos como Ele é; mas enquanto somos homens, devemos adorá-Lo no homem e como homem.

Fale o quanto quiser, tente o quanto quiser, você não pode pensar em Deus exceto como um homem.

Você pode proferir grandes discursos intelectuais sobre Deus, pode tornar-se um grande racionalista e provar para sua satisfação que todos esses relatos dos Avatares ou encarnações de Deus como homem são um absurdo—mas voltemos por um momento ao senso comum prático e examinemo-los.

O que existe por trás desses discursos racionais — quanto de substância real? Zero, nada — simplesmente muita espuma! Portanto, da próxima vez que ouvirdes um homem proferir uma grande palestra intelectual contra essa adoração dos Avatares de Deus, agarrai-o e perguntai-lhe qual é a sua ideia de Deus, o que ele entende por "onipotência", "onipresença" e todos os termos semelhantes, além da grafia das palavras.

Ele realmente não quer dizer nada com elas; não consegue formular como seu significado qualquer ideia que não seja afetada pela sua própria natureza humana; ele não está em melhor situação nesse assunto do que o homem comum na rua, que não leu um único livro.

Esse homem na rua, no entanto, é tranquilo e não perturba a paz do mundo — enquanto esse grande falador cria perturbação e miséria entre a humanidade.

Religião é, afinal, realização, e devemos fazer a mais nítida distinção entre falar e experiência intuitiva.

O que experimentamos nas profundezas de nossas almas é realização.

Nada, de fato, é tão raro quanto o senso comum em relação a esse assunto!

Pela nossa constituição atual, somos limitados e obrigados a ver Deus como homem. Se, por exemplo, os búfalos quiserem adorar a Deus, eles, de acordo com sua própria natureza, O verão como um enorme búfalo; se um peixe quiser adorar a Deus, terá que formar uma ideia d'Ele como um grande peixe; e o homem tem que pensar n'Ele como homem.


E essas várias concepções não se devem a uma imaginação morbidamente ativa.

O homem, o búfalo e o peixe, todos podem ser supostos como representando tantos vasos diferentes, por assim dizer, com diferentes formas e capacidades.

Todos esses vasos vão ao mar de Deus para se encherem de água.

No homem, a água toma a forma de homem; no búfalo, a forma de um búfalo; e no peixe, a forma de um peixe.

Agora, como cada um desses vasos, embora contendo a mesma água do mesmo mar de Deus, tem que aparecer de acordo com sua própria forma e capacidade, assim, quando os homens veem Deus, eles O veem como homem, e os animais, se é que têm alguma concepção de Deus, devem vê-Lo como animal, cada um de acordo com sua própria mentalidade.

MESTRES ENCARNADOS E ENCARNAÇÃO.

constituição e capacidade.

Portanto, não podemos deixar de ver Deus como homem e somos obrigados a adorá-Lo como homem.

Não há outro caminho.

Dois tipos de homens não adoram Deus como homem — o bruto humano que não tem religião, e a alma liberta, o Paramahamsa que se elevou acima de todas as fraquezas da humanidade e transcendeu os limites de sua própria natureza humana.

Para ele, toda a natureza tornou-se o seu próprio Ser.

Somente ele pode adorar Deus como Ele é. Aqui também, como em todos os outros casos, os dois extremos se encontram.

O extremo da ignorância e o outro extremo do conhecimento — nenhum deles passa por atos de adoração.

O bruto humano não adora por causa de sua ignorância, e as almas livres (Jivanmuktas) não adoram, porque realizaram Deus em si mesmas.

Estando entre esses dois polos da existência, se alguém lhe disser que não vai adorar Deus como homem, cuide bem desse homem; ele é, para não usar um termo mais duro, um falador irresponsável; sua religião é para cérebros insanos e vazios.

Deus compreende as falhas humanas e se torna homem para fazer o bem à humanidade.

"Quando a virtude declina e a maldade prevalece, Eu Me manifesto.

Para estabelecer a virtude, destruir o mal, salvar os bons, Eu venho em todas as eras." "Os tolos Me ridicularizam, a Mim, que assumi a forma humana, sem conhecer Minha natureza real como o Senhor do universo." Tal é a declaração de Sri Krishna no Gita sobre a encarnação.

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( Gita, Cap. IV. 7-8 )

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( Gita, Cap. IX-ii )

MESTRES ENCARNADOS E ENCARNAÇÃO

onda de maré vem," diz Bhagavan Sri Ramakrishna, "todos os pequenos riachos e valas se enchem até a borda sem nenhum esforço ou consciência de sua própria parte — assim, quando uma encarnação vem, uma onda de maré de espiritualidade irrompe sobre o mundo e as pessoas sentem espiritualidade na própria atmosfera."

O Mantra: Om: Palavra e Sabedoria.

Estamos agora considerando não os Mahapurushas, ou as grandes encarnações de Deus, mas apenas os siddha-gurus, os mestres que alcançaram a meta.

Eles, como regra, têm de transmitir os germes da sabedoria espiritual ao discípulo por meio de palavras (mantra) para serem meditadas.

O que são esses mantras? Todo este universo tem, segundo a filosofia indiana, tanto nome quanto forma como suas condições de manifestação.

No microcosmo humano, não pode haver uma única onda na substância mental (chitta) que não seja condicionada por nome e forma.

Se for verdade que a natureza é construída inteiramente segundo o mesmo plano, esse tipo de condicionamento por nome e forma deve ser também o plano da construção de todo o cosmos.

“Assim como, conhecendo-se um pedaço de argila, todo o barro é conhecido”, * assim o conhecimento do microcosmo deve levar ao conhecimento do macrocosmo.

Ora, a forma é a crosta externa, da qual o nome ou ideia é a essência ou cerne interno.

No microcosmo, o corpo é a forma, e a mente ou o antahkarana é o nome, e os símbolos sonoros estão universalmente associados a esse nome, em todos os seres que têm o poder da fala.

Em outras palavras, no homem individual, as ondas de pensamento que surgem no mahat limitado (substância mental) devem manifestar-se, primeiro como palavras ou ideias, e depois como as formas mais concretas de fala e ação.

No universo também, Brahmã ou Hiranyagarbha (o mahat cósmico ou a mente universal) primeiro manifestou-Se como nome, e depois como forma ou o universo externo.

Todo este universo sensível e expresso é a forma, por trás da qual está o eterno sphota inexprimível ou manifestador, como Logos ou Verbo.

Este sphota eterno, o material eterno e essencial de todas as ideias ou nomes, é o poder através do qual o Senhor cria o universo — mais ainda, o Senhor primeiro torna-Se condicionado como o sphota, e então evolui a Si mesmo como o universo sensível ainda mais concreto.

Este sphota tem uma palavra como seu único símbolo possível, e esta é o Om. E como por nenhum meio possível de análise podemos separar um símbolo sonoro da ideia que ele conota, este Om e o sphota eterno são inseparáveis.

* (Chhândogya, VI— I).

E portanto é a partir desta mais sagrada de todas as palavras sagradas, a mãe de todos os nomes e formas, o eterno Om, que se pode supor ter sido criado todo o universo.

Mas pode-se dizer que, embora ideias e símbolos sonoros sejam inseparáveis, como pode haver vários símbolos sonoros para a mesma ideia, não é necessário que esta palavra particular Om seja a representação sonora do pensamento a partir do qual o universo se manifestou.

A esta objeção respondemos que este Om é o único símbolo possível que cobre todo o terreno de todas as ideias possíveis, e não há nenhum outro como ele. O sphota é o material de todas as ideias, e não qualquer ideia definida em seu estado plenamente formado.

Isto é, se todas as peculiaridades que distinguem uma ideia de outra forem removidas, então o que permanece será o sphota.

Agora, como todo símbolo sonoro, destinado a expressar este inexprimível sphota, o particularizará de tal modo que não será mais o sphota, aquele símbolo sonoro que o particulariza menos e ao mesmo tempo mais aproximadamente expressa sua natureza, será o símbolo mais verdadeiro para ele, e este é o Om, e somente o Om.

As três letras A, U, M (pronunciadas em combinação como Om) podem bem ser o símbolo generalizado de todos os sons possíveis.

Vejamos como pode ser assim. A letra A é o som menos diferenciado de todos; portanto Krishna diz no Gita — "Eu sou A entre as letras." Além disso, todos os sons articulados são produzidos no espaço dentro da boca, começando pela raiz da língua e terminando nos lábios.

O som gutural é A, e M é o último som labial, e o esforço feito para produzir o som U representa exatamente o avanço do impulso que começa na raiz da língua até terminar nos lábios.

Assim, devidamente pronunciado, este Om representará todo o fenômeno da produção sonora, e nenhuma outra palavra pode fazer isso.

Este é, portanto, o símbolo mais adequado para representar o sphota, e a ideia conotada pela palavra sphota é o significado real da palavra Om. E como o símbolo nunca pode ser separado da coisa significada, o Om e o sphota são um só.

(Gita, Cap. X-33)

O MANTRA: OM: PALAVRA E SABEDORIA.

Portanto, o sphota é chamado de Nada-Brahma ( ) ou o Som-Brahman.

E como o sphota, sendo o lado mais sutil do universo manifestado, está mais próximo de Deus, e é de fato a primeira manifestação da Sabedoria Divina, este Om é verdadeiramente simbólico de Deus.

Novamente, assim como o "único" Brahman, o Akhanda — Sachchidananda, o Indiviso — Existência-Conhecimento-Beatitude, só pode ser concebido por almas humanas imperfeitas a partir de pontos de vista particulares e limitados, e estará sempre associado a qualidades particulares, assim também o universo em sua totalidade, o corpo do Senhor, será pensado da mesma maneira por elas.

Agora, a visão particular de Deus e do universo da mente de um adorador específico será sempre determinada por seus elementos predominantes ou tattvas.

E assim, o resultado é que o mesmo Deus será visto por vários adoradores como possuidor de qualidades diferentes e não raramente contraditórias, em Suas várias manifestações; e o mesmo universo também aparecerá como cheio de formas múltiplas e desconexas.


Da mesma forma, novamente — como no caso do símbolo menos diferenciado e mais universal Om, ideia e símbolo sonoro foram vistos como inseparavelmente associados um ao outro — a lei da associação inseparável de ideias e símbolos sonoros se aplicará às muitas visões diferenciadas de Deus e do universo, e cada uma delas terá e deverá ter um símbolo-palavra particular para expressá-la. Esses símbolos-palavra, evoluídos das percepções espirituais mais profundas dos sábios, simbolizam e expressam, tão aproximadamente quanto possível, a visão particular de Deus e do universo que representam.

E assim como o Om representa o Akhanda, ou o Brahman indiferenciado, os outros símbolos sonoros representam o khanda, ou as visões diferenciadas do mesmo Ser; e todos eles serão considerados úteis para a meditação divina e a aquisição do verdadeiro conhecimento, por adoradores que tenham diferentes visões do Senhor e do universo.

Adoração de Substitutos e Imagens.

Os próximos pontos a serem considerados são a adoração de Pratikas, ou de coisas mais ou menos satisfatórias como substitutos de Deus, e a adoração de Pratimas, ou imagens.

O que é a adoração de Deus através de um Pratika? É "unir a mente com devoção àquilo que não é Brahman, tomando-o como Brahman!" Diz Bhagavan Ramanuja: — "'Adore a mente como Brahman' — isto é interno; e 'o Akasa é Brahman' — isto é externo". A mente é um Pratika interno; o Akasa é um externo; contudo, ambos podem ser adorados como substitutos de Deus. Similarmente, Sankara diz — "O Sol é Brahman — este é o comando"... "Aquele que adora o Nome como Brahman!" e em todas essas passagens surge a dúvida quanto à adoração de Pratikas!" A palavra Pratika significa "ir em direção a", e adorar um Pratika é adorar algo que, como substituto, é em um ou mais aspectos semelhante ao Brahman, mas não é o Brahman. Junto com os Pratikas mencionados nos Srutis, há vários outros a serem encontrados nos Puranas e nos Tantras.


Nesta "adoração de Pratika" podem ser incluídas todas as várias formas de adoração a Pitris (antepassados) e a adoração de anjos e seres superiores (Deva, literalmente um ser brilhante ou radiante).

Agora, adorar Isvara, e somente a Ele, é bhakti; a adoração de qualquer outra coisa, como Deva ou Pitri, ou qualquer outro ser, não pode ser chamada de bhakti.

As várias espécies de adoração dos vários Devas devem ser todas incluídas no Karma ritualístico, que dá ao adorador apenas um resultado particular, na forma de algum gozo celestial, mas não pode dar origem a bhakti ou devoção intensa a Deus, nem conduzir a mukti, ou libertação de todos os grilhões.

Uma coisa, portanto, deve ser cuidadosamente lembrada.

ADORAÇÃO DE SUBSTITUTOS E IMAGENS.

I

Se, como pode acontecer em alguns casos, o ideal altamente filosófico do Brahman supremo é rebaixado pela adoração de pratika ao nível do pratika ou do substituto, e o próprio pratika é tomado pelo adorador como seu Ser mais íntimo e o controlador interno de tudo (Antarayamin), o adorador fica completamente enganado, pois nenhum pratika pode realmente ser o Atman do adorador.

Mas onde o próprio Brahman é o objeto de adoração, e o pratika serve apenas como um substituto ou uma sugestão disso — isto é, onde através do pratika o Brahman onipresente é adorado e o pratika está sendo idealizado como a causa do universo, como um meio para alcançar o Brahman — a adoração é positivamente benéfica; mais que isso, é absolutamente necessária para toda a humanidade, até que todos tenham ido além do estado primário ou preparatório da mente em relação à adoração.

Quando, portanto, quaisquer deuses ou outros seres são adorados em si mesmos e por si mesmos, tal adoração é apenas um karma ritualístico; e como uma vidya (ciência) nos dá apenas o fruto pertencente àquela vidya específica; mas quando os devas ou quaisquer outros seres são considerados como Brahman e adorados, o resultado obtido é o mesmo que pela adoração de Isvara, o Governante Supremo.


Isso explica como, em muitos casos, tanto nos Srutis quanto nos Smritis, um deus ou um sábio ou algum outro ser extraordinário foi tomado e elevado gradualmente para além de sua própria natureza pessoal e, após ser idealizado em Brahman, foi adorado como tal.

Em explicação, o Advaitin diz: "Não é tudo Brahman quando o nome e a forma foram removidos dele?" — "Não é Ele, o Senhor, o ser mais íntimo de cada um?" — diz o Visishtadvaitin.

"O fruto mesmo da adoração dos Adityas etc., o próprio Brahman concede, porque Ele é o Governante de tudo.

Aqui, desta maneira, Brahman se torna o

ADORAÇÃO DE SUBSTITUTOS E IMAGENS.

objeto de adoração, porque Ele, como Brahman, é superposto aos pratikas, assim como Vishnu e outros Deuses são superpostos às imagens" — diz Sankara.

As mesmas ideias se aplicam à adoração das pratimas ou imagens, assim como à dos pratikas — isto é, se a imagem representa apenas um deus ou um santo, a adoração não é resultado de bhakti e não conduz à libertação; mas se ela representa o Deus único, a adoração dela trará tanto bhakti quanto mukti.

Das principais religiões do mundo, vemos o Vedantismo, o Budismo e certas formas do Cristianismo usando livremente imagens para auxiliar o adorador — e apenas duas religiões, o Maometismo e o Protestantismo, recusam tal auxílio.

Contudo, os maometanos usam os túmulos de seus santos e mártires, quase em lugar de imagens.

Os protestantes, sozinhos, ao rejeitarem todos os auxílios concretos à religião, afastaram-se cada vez mais, ano após ano, da espiritualidade, até que no presente quase não há diferença entre os protestantes avançados e os seguidores de Auguste Comte ou os agnósticos, que pregam apenas ética! Novamente, no Cristianismo e no Maometismo, tudo o que existe de adoração de imagens deve ser contado sob aquela categoria, na qual o pratika ou a pratima é adorado em si mesmo, mas não como um "auxílio à visão" de Deus. Portanto, é na melhor das hipóteses apenas da natureza dos karmas ritualísticos e não pode produzir nem bhakti nem mukti.

Nesta forma de adoração de imagens, a lealdade da alma é dada a outras coisas que não Isvara, e, portanto, tal uso de imagens ou túmulos, de templos ou mausoléus é verdadeira idolatria.

Contudo, não é em si nem pecaminoso nem perverso — é um rito, um karma, e os adoradores devem e receberão o seu fruto.

O Ideal Escolhido.

A próxima coisa a ser considerada é o que conhecemos como Ishta Nishtha, ou devoção ao ideal escolhido.

Aquele que aspira a ser um bhakta ou devoto deve saber que, na questão de adorar a Deus, "tantas opiniões são tantos caminhos". Ele deve saber que todas as várias seitas das várias religiões são as várias manifestações da glória do mesmo Senhor.

“Eles Te chamam por tantos nomes — dividem-Te, por assim dizer, por meio deles — contudo, em cada um desses Teus nomes, encontra-se Tua onipotência, e Tu alcanças o adorador através de qualquer um deles! Tampouco há um tempo especial mencionado para tomar Teu nome, enquanto a alma tiver intenso amor por Ti.

Tu és tão fácil de acessar! É minha desgraça que eu não possa Te amar, oh!

Ditos de Sree Ramakrishna.


Senhor”. # Não apenas isso, o bhakta deve cuidar para não odiar, nem mesmo criticar, aqueles radiantes filhos da luz que são os fundadores de várias seitas.

Ele não deve sequer ouvir que falem mal deles. Muito poucos, de fato, são aqueles que possuem ao mesmo tempo uma extensa simpatia e poder de apreciação, bem como uma intensidade de amor.

Observamos, como regra, que seitas liberais e simpáticas perdem a intensidade do sentimento religioso, e em suas mãos a religião tende a degenerar em uma espécie de clube político-social.

Por outro lado, sectários intensamente estreitos, embora demonstrem um amor muito louvável por seus próprios ideais, vê-se que adquiriram cada partícula desse amor odiando todos aqueles que não são exatamente da mesma opinião que

( Sree Krishna Chaitanya )

O IDEAL ESCOLHIDO.

eles são.

Quisera Deus que este mundo estivesse cheio de homens que fossem tão intensos em seu amor e tão universais em suas simpatias! Mas tais são apenas poucos e raros.

No entanto, sabemos que é praticável educar um grande número de seres humanos no ideal de uma maravilhosa fusão tanto da amplitude quanto da intensidade do amor; e o caminho para fazer isso é por esta senda do Ishta Nishtha, ou pela devoção a um "ideal escolhido". Cada seita de cada religião apresenta apenas um ideal próprio à humanidade, mas a religião védantica eterna abre um número infinito de portas para o ingresso no santuário interior da Divindade, e coloca diante da humanidade uma série quase inesgotável de ideais, havendo em cada um deles uma manifestação do Uno Eterno. Com a mais bondosa solicitude, o Vedanta aponta aos aspirantes, homens e mulheres, as numerosas estradas talhadas na rocha sólida das realidades da vida humana, pelos gloriosos filhos ou manifestações humanas de Deus, no passado e no presente, e permanece de braços estendidos para acolher a todos — para acolher até mesmo aqueles que ainda hão de vir — àquele Lar da Verdade e àquele Oceano de Bem-aventurança onde a alma humana, liberta da rede de Maya, possa transportar-se com perfeita liberdade e com eterna alegria!


Bhakti-Yoga, portanto, impõe-nos o mandamento imperativo de não odiar nem negar nenhum dos vários caminhos que conduzem à salvação.

Contudo, a planta em crescimento deve ser cercada para proteção, até que se tenha tornado uma árvore.

A tenra planta da espiritualidade morrerá, se exposta cedo demais à ação de uma constante mudança de ideias e ideais.

Muitas pessoas, em nome do que se poderia chamar de liberalismo religioso, podem ser vistas alimentando sua curiosidade ociosa com uma sucessão contínua de diferentes ideais. Com elas, ouvir coisas novas torna-se uma espécie de doença, uma espécie de mania religiosa de beber.

O IDEAL ESCOLHIDO.

Elas querem ouvir coisas novas apenas para obter uma espécie de excitação nervosa temporária, e quando uma dessas influências excitantes produz seu efeito nelas, estão prontas para outra.

A religião é, para essas pessoas, uma espécie de opium-eating intelectual, e aí termina.

"Há outra espécie de homens", diz Bhagavân Ramakrishna, "que são como a ostra perolada da história."

A ostra-pérola deixa seu leito no fundo do mar e sobe à superfície para capturar a água da chuva quando a estrela Svati está em ascensão.

Ela flutua na superfície do mar com sua concha bem aberta até conseguir capturar uma gota da água da chuva, e então mergulha profundamente de volta ao seu leito marinho e ali descansa até conseguir transformar aquela gota de chuva em uma bela pérola.”

Esta é, de fato, a maneira mais poética e contundente pela qual a teoria de Ishta Nishtha já foi apresentada.

Este Eka

8o Nishtha, ou devoção a um único ideal, é absolutamente necessária para o iniciante na prática da devoção religiosa.


Ele deve dizer com Hanumán no Rámáyana — “Embora eu saiba que o Senhor de Srí e o Senhor de Jánakí são ambos manifestações do mesmo Ser Supremo e, portanto, Um e o mesmo, ainda assim meu tudo em tudo é o Ráma de olhos de lótus.” — ou, como disse o sábio Tulasídás, ele deve dizer — “Toma a doçura de todos, senta-te com todos, toma o nome de todos, e dize sim, sim a cada um, mas mantém firmemente a tua própria posição.

Então, se o aspirante devocional é sincero, desta pequena semente surgirá uma árvore gigantesca como o baniano indiano, enviando ramo após ramo e raiz

após raiz para todos os lados, até cobrir todo o

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— Tulasídás.

O IDEAL ESCOLHIDO.

campo da religião.

Assim, o verdadeiro devoto perceberá que Aquele que era seu próprio ideal na vida é adorado em todos os ideais por todas as seitas, sob todos os nomes, e através de todas as formas.

O Método e os Meios.

Com relação ao método e aos meios do Bhakti-Yoga, lemos no comentário de Bhagaván Rámánuja sobre os Vedanta Sutras: — “A obtenção d’Isso (Brahman) vem através da discriminação, do controle das paixões, da prática, do trabalho sacrificial, da pureza, da força e da supressão da alegria excessiva.” Viveka, ou discriminação, é, segundo Rámánuja, discernir, entre outras coisas, o alimento puro do impuro.

Segundo ele, o alimento torna-se impuro por três causas: a saber, (i) pela natureza do próprio alimento, como no caso do alho, etc.

; (2) devido à sua proveniência de pessoas perversas e amaldiçoadas; e (3) de impurezas físicas, tais como sujeira, ou cabelos, etc.

Os Srutis dizem: “pelo alimento puro, o elemento Sattva se purifica e por isso a

O MÉTODO E OS MEIOS.

memória se torna infalível,” e Rāmānuja cita isto do Chāndogya Upanishad. A questão do alimento sempre foi uma das mais vitais para os bhaktas ou devotos.

À parte dos excessos em que algumas das seitas bhakti caíram, há uma grande verdade subjacente a esta questão do alimento.

Devemos lembrar que, de acordo com a filosofia Sāṅkhya, os sattva, rajas e tamas que, no estado de equilíbrio homogêneo, formam a prakriti e, no estado heterogêneo e perturbado, formam o universo, são tanto a substância quanto a qualidade da prakriti ou princípio criativo.

Como tais, são os materiais dos quais toda forma humana foi fabricada, e a predominância do material sattva é o que é absolutamente necessário para o desenvolvimento espiritual.

Os materiais que recebemos através do nosso alimento em nossos corpos contribuem em

(Chāndogya Upanishad, VII—XXVI).


grande medida para determinar nossa constituição mental; portanto, o alimento que comemos deve ser particularmente cuidado. No entanto, nesta questão como em outras, o fanatismo em que os discípulos invariavelmente caíam não deve ser atribuído aos mestres.

E essa discriminação do alimento é, afinal, de importância secundária.

A mesma passagem citada acima é explicada por Śaṅkara em seu bhāṣya sobre os Upanishads de uma maneira diferente, dando um significado inteiramente distinto à palavra āhāra — traduzida geralmente como alimento.

Segundo ele — “Aquilo que é reunido é āhāra. O conhecimento que chega através das diferentes sensações — tais como som, etc. — é reunido na mente para o desfrute do desfrutador (o eu); a purificação do conhecimento assim reunido através da percepção dos sentidos é a purificação do alimento (āhāra). Purificação do alimento significa, portanto, a aquisição do conhecimento de todas

O MÉTODO E OS MEIOS.

as coisas do mundo, intocadas pelos defeitos do apego, da aversão e da ilusão.

Portanto, sendo o conhecimento purificado, o material sattva da mente ou antakarana, o órgão interno, no qual todo esse conhecimento é armazenado, tornar-se-á purificado, e sendo o sattva purificado, resultará uma memória ininterrupta do conhecimento da natureza real do Uno Infinito, que foi alcançado através das escrituras.¹ As explicações de Sankara e Ramanuja sobre a palavra são aparentemente conflitantes, porém ambas são verdadeiras e necessárias.

A manipulação e o controle do que é chamado de corpo sutil² são, sem dúvida, funções mais elevadas do que o controle do corpo grosseiro de carne. Mas o controle do grosseiro é absolutamente necessário para permitir que se chegue ao controle do sutil. O iniciante, portanto, deve prestar atenção particular a todas as regras dietéticas que vieram da linhagem de professores acreditados de bhakti. Mas o fanatismo extravagante e sem sentido, que levou a religião inteiramente para a cozinha, como pode ser notado no caso de muitas de nossas seitas, sem qualquer esperança de que a nobre verdade dessa religião venha à luz do sol da espiritualidade — é uma espécie peculiar de materialismo puro e simples. Não é nem jnana, nem bhakti, nem karma. É um tipo especial de loucura, e aqueles que prendem suas almas a isso têm mais probabilidade de ir para asilos de lunáticos do que para Brahma-loka ou a esfera mais elevada. Portanto, é lógico que a discriminação na escolha dos alimentos é necessária para a obtenção desse estado superior de composição mental, que não pode ser facilmente obtido de outra forma. Controlar as paixões é a próxima coisa.

O MÉTODO E OS MEIOS.

¹ (Vide Bhashya de Sankara sobre o Chhandogya Upanishad VII—26).
² O corpo sutil ou Sukshma Sarira no homem é composto dos cinco órgãos dos sentidos, mais os cinco órgãos de ação, mais o Manas e o Buddhi. Não é destruído pela morte, mas reencarna com todas as experiências passadas até que a alma alcance a perfeição ou mukti.

para ser atendido. Conter os Indriyas (órgãos dos sentidos) de irem em direção aos objetos dos sentidos, controlá-los e colocá-los sob a orientação da vontade, é a virtude central na cultura religiosa.

Em seguida, vem a prática do autocontrole e da autonegação.

Todas as imensas possibilidades de realização divina na alma não podem ser atualizadas sem luta e sem a prática dessas qualidades, por parte do devoto aspirante.

A mente deve sempre pensar no Senhor.

É muito difícil, a princípio, compelir a mente a pensar sempre no Senhor, mas com cada novo esforço o poder de fazê-lo cresce mais forte em nós. "Pela prática, ó filho de Kunti, e pelo desapego, alcança-se o controle da mente", diz Sri Krishna no Gita.

O devoto, portanto, deve cultivar todas essas qualidades que são essenciais para alcançar

(Gita, Cap. VI-35).


a devoção suprema e não deve observar os sacrifícios ritualísticos, prescritos em algumas das escrituras, cujo único objetivo é a obtenção de prazeres dos sentidos, seja neste mundo ou no próximo, levando assim a uma escravidão cada vez maior e cada vez mais longe do Senhor.

Portanto, quanto às obras sacrificiais, deve-se entender que ele terá de realizar apenas os cinco grandes sacrifícios ( ) e nada mais.

A pureza é, portanto, o alicerce, a única rocha fundamental sobre a qual todo o edifício do bhakti repousa.

Limpar o corpo externo e discernir o alimento são ambos fáceis, mas sem a limpeza interna e sem a pureza, essas observâncias externas não têm valor algum.

Na lista das qualidades conducentes à pureza, conforme dada por Ramanuja, foram enumeradas — Satya, veracidade; Arjava, sinceridade.

Daya, fazer o bem aos outros sem expectativa de qualquer ganho para si mesmo; Ahimsa, não ferir os outros por pensamento,

O MÉTODO E OS MEIOS.

palavra ou ação; e Abhidhya, não cobiçar os bens alheios, não pensar pensamentos vãos e não remoer injúrias recebidas de outrem.

A única ideia que merece atenção especial nessa lista é Ahimsa, a não-violência para com os outros.

Este dever de não-agressão é obrigatório para o devoto em relação a todos os seres.

Como acontece com alguns de nós, não significa simplesmente não ferir os seres humanos e ser impiedoso para com os animais inferiores — nem, como com alguns outros, significa proteger gatos e cães e alimentar formigas com açúcar, com liberdade para ferir o irmão-homem de todas as maneiras horríveis.

É notável que quase toda boa ideia neste mundo possa ser levada a um extremo repugnante.

Uma boa prática levada ao extremo e executada de acordo com a letra da lei torna-se um mal positivo, e é motivo de não menos pesar que a prática da não-agressão também não tenha sido uma exceção a isso.

Os monges fétidos de certas seitas religiosas que não se banham para que os vermes em seus corpos não sejam mortos, nunca pensam no desconforto e nas doenças que trazem aos seus semelhantes humanos! É um consolo pensar, no entanto, que eles não pertencem à religião dos Vedas.


O teste de Ahimsa é a ausência de ciúme.

Qualquer homem pode fazer uma boa ação ou dar um presente generoso por impulso do momento, ou sob pressão de alguma superstição ou artimanha sacerdotal; mas o verdadeiro amante da humanidade é aquele que não tem ciúme de ninguém.

Os chamados grandes homens do mundo podem ser vistos todos a sentir ciúme uns dos outros por nome, fama e alguns pedaços de ouro.

Enquanto esse ciúme existir no coração, não importa se alguém é vegetariano, está muito longe da perfeição de Ahimsa. A vaca não come carne, nem a ovelha.

São eles grandes Yogins, grandes não-agressores por isso? Qualquer tolo pode abster-se de comer carne; certamente isso sozinho não lhe dá mais distinção do que aos animais herbívoros.

O homem que engana impiedosamente viúvas e órfãos e comete os atos mais vis por dinheiro é pior do que qualquer bruto, mesmo que viva inteiramente de grama.

O homem cujo coração nunca acalenta sequer o pensamento de ferir alguém, que se alegra com a prosperidade até de seu maior inimigo, esse homem é um Bhakta, esse homem é um Yogin.

Ele é o Guru de todos, mesmo que viva todos os dias de sua vida da carne de porcos.

Portanto, devemos sempre lembrar que as práticas externas têm valor apenas como auxílios para desenvolver a pureza interna.

É melhor tentar alcançar a pureza interna sozinho quando a atenção minuciosa às observâncias externas não for praticável.

Mas ai do homem e ai da nação que esquece o real, o interno, o essencial espiritual da religião, e se agarra mecanicamente, com aperto mortal, a todas as formas externas dela, e nunca as solta. As formas têm valor apenas na medida em que são as expressões da vida interior.


Se deixaram de expressar vida, esmague-as sem piedade.

O próximo meio para a realização do bhakti-yoga é a força ( ). "Este Atman não é alcançado pelos fracos", diz a Sruti.

Tanto a fraqueza física quanto a mental são aqui mencionadas.

"Os fortes, os resistentes" são os únicos estudantes aptos.

O que podem fazer criaturas mirradas, pequenas e decrépitas? Elas se despedaçarão sempre que as forças misteriosas do corpo e da mente forem sequer levemente despertadas pela prática de qualquer um dos Yogas.

É "o jovem, o saudável, o forte" que pode alcançar o sucesso.

A força física, portanto, é absolutamente necessária.

Somente o corpo forte pode suportar o choque da reação resultante da tentativa de controlar os órgãos.

Aquele que quer se tornar um bhakta deve ser forte — deve ser saudável.

Quando os miseravelmente fracos tentam qualquer um dos Yogas, é provável que contraiam alguma doença incurável; e enfraqueçam suas mentes por causa disso; e enfraquecer o corpo voluntariamente não é realmente uma prescrição para o esclarecimento espiritual.

Os mentalmente fracos também não podem ter sucesso em alcançar o Atman. A pessoa que aspira a ser um bhakta deve ser alegre.

Para muitos, o ideal de um homem religioso é — que ele nunca sorri, que uma nuvem escura deve sempre pairar sobre seu rosto, o qual, ainda por cima, deve ser alongado com as mandíbulas quase colapsadas.

Em minha opinião, tais pessoas com corpos emaciados e rostos compridos são assuntos adequados para o médico.

Eles nunca podem ser Yogins. É a mente alegre que é perseverante.

É a mente forte que abre caminho através de mil dificuldades.

E esta, a mais árdua de todas as tarefas — o abrir caminho para fora da rede de Maya — é a obra reservada somente para vontades gigantes.

Contudo, ao mesmo tempo, a alegria excessiva deve ser evitada (*anuddharshd*). A alegria excessiva nos torna inaptos para o pensamento sério.


Ela também dissipa as energias da mente.

Quanto mais forte a vontade, menor a submissão ao domínio das emoções.

A hilaridade excessiva é tão objetável quanto o excesso de seriedade triste, e toda realização religiosa só é possível onde a mente se encontra em uma condição estável e pacífica de equilíbrio harmonioso.

É assim que se pode começar a aprender a amar o Senhor, e isso é o que se conhece como bhakti preparatória ( )

Para#akti ou Devoção Suprema.

A Renúncia Preparatória.

Concluímos a consideração do que pode ser chamado de bhakti preparatória, e estamos quase prontos para entrar no estudo da Para-Bhakti, ou devoção suprema.

Temos agora de falar da preparação final necessária para a prática dessa Para-Bhakti. Todas essas preparações destinam-se apenas à purificação da alma.

A repetição de nomes, os rituais, as formas, os símbolos — tudo é para a purificação da alma.

O maior purificador entre todas essas coisas, um purificador sem o qual ninguém pode entrar nas regiões dessa devoção superior (Para-Bhakti), é a renúncia.

É uma coisa assustadora para muitos; contudo, sem ela, não pode haver qualquer crescimento espiritual.

Em todos os Yogas, essa renúncia é necessária.

Ela é o degrau, o centro e o verdadeiro coração de toda cultura espiritual.

Em suma, religião é renúncia.

Quando a alma humana se aproxima afastando-se das coisas do mundo e tenta penetrar mais fundo no coração das coisas; quando o homem, o espírito — que está aqui embaixo, após ter-se concretizado e materializado de algum modo — compreende que, com isso, será destruído e reduzido quase a mera matéria, e volta o rosto para longe da matéria — então começa a renúncia, então começa o seu verdadeiro crescimento espiritual.


A renúncia do karma-yogin tem a forma de abandonar todos os frutos de suas ações; ele não deve estar apegado aos resultados de seus trabalhos; não deve se importar com qualquer recompensa aqui ou no além.

O raja-yogin sabe que toda a natureza é destinada à alma para adquirir experiência, e que o resultado de todas as experiências da alma é tornar-se consciente de sua eterna separação da natureza.

A alma humana tem de compreender e realizar que tem sido espírito, e não matéria, através da eternidade, e que esta conjunção dela com a matéria é e só pode ser por um tempo.

A RENÚNCIA PREPARATÓRIA.

O raja-yogin aprende a lição da renúncia através de sua própria experiência da natureza.

O jnana-yogin tem a mais dura das renúncias a atravessar, pois tem de realizar desde o princípio que toda esta natureza, de aparência sólida, é toda uma ilusão.

Ele tem de compreender que todas as manifestações de poder na natureza pertencem à alma, e não à natureza.

Ele tem de saber, desde o início, que todo conhecimento e todas as experiências estão dentro da alma, e não dentro da natureza.

Assim, ele tem de, imediatamente e pela simples força da convicção racional, arrancar-se de toda escravidão à natureza.

Ele deixa a natureza e todas as suas coisas irem — ele as deixa desaparecer e tenta permanecer sozinho!

De todas as renúncias, a mais natural é a do bhakti-yogin.

Aqui — não há violência, nada a abandonar, nada a arrancar, por assim dizer, de nós mesmos, nada do qual tenhamos violentamente de nos separar.

A renúncia do bhakta é fácil,

BHAKTI-YOGA

suave, fluente e tão natural quanto as coisas ao nosso redor. Vemos a manifestação desse tipo de renúncia, embora mais ou menos em forma de caricaturas, todos os dias ao nosso redor. Um homem começa a amar uma mulher; depois de algum tempo, ama outra, e a primeira mulher, ele deixa ir. Ela desaparece de sua mente suavemente, gentilmente, sem que ele sinta falta dela de modo algum.

Uma mulher ama um homem; ela então começa a amar outro homem, e o primeiro desaparece de sua mente de maneira bastante natural.

Um homem ama sua própria cidade; então começa a amar seu país, e o intenso amor por sua pequena cidade desaparece suavemente, naturalmente.

Novamente, um homem aprende a amar o mundo inteiro; seu amor por seu país, seu patriotismo intenso e fanático desaparece, sem feri-lo, sem qualquer manifestação de violência.

Um homem inculto ama intensamente os prazeres dos sentidos; à medida que se torna culto, começa a amar os prazeres intelectuais, e os gozos dos sentidos tornam-se cada vez

A RENÚNCIA PREPARATÓRIA.

menores para ele.

Nenhum homem pode desfrutar de uma refeição com o mesmo prazer intenso de um cão ou de um lobo, mas os prazeres que um homem obtém das experiências e realizações intelectuais, o cão jamais poderá desfrutar.

O prazer, a princípio, está associado aos sentidos inferiores; mas, tão logo um animal atinge um plano mais elevado de existência, os prazeres de ordem inferior tornam-se menos intensos para ele. Na sociedade humana, quanto mais próximo o homem está do animal, mais forte é seu prazer nos sentidos; e quanto mais elevado e mais culto é o homem, maior é seu prazer nas buscas intelectuais e em outras atividades mais refinadas.

Assim, quando um homem alcança um plano ainda mais elevado do que o do intelecto, mais elevado do que o do mero pensamento, quando chega ao plano da espiritualidade e da inspiração divina, ele encontra nisso um estado de bem-aventurança, comparado ao qual todos os prazeres dos sentidos, ou mesmo do intelecto, tornam-se como nada.

Quando a lua brilha intensamente, todas as estrelas se tornam apagadas, e quando o sol brilha, a própria lua se torna apagada.


A renúncia necessária para a obtenção da bhakti não se consegue matando coisa alguma, mas surge tão naturalmente como, na presença de uma luz cada vez mais forte, as menos intensas vão se tornando mais e mais esmaecidas até desaparecerem por completo.

Assim, esse amor aos prazeres dos sentidos e do intelecto é todo obscurecido, posto de lado e lançado à sombra pelo amor a Deus.

Esse amor a Deus cresce e assume uma forma que se chama Para-Bhakti, ou devoção suprema.

Formas desaparecem, rituais se evanescem, livros são superados, e imagens, templos, igrejas, religiões, seitas, países e nacionalidades — todas essas pequenas limitações! — e amarras caem por si mesmas daquele que conhece esse amor a Deus! Nada resta para prendê-lo ou acorrentar sua liberdade.

Um navio, de repente, aproxima-se de uma rocha magnética, e seus ferrolhos e barras de ferro são todos atraídos e arrancados, e as pranchas

A RENÚNCIA PREPARATÓRIA.

10

se soltam e flutuam livremente sobre a água.

A graça divina assim solta os ferrolhos e barras que prendem a alma, e ela se torna livre.

Assim, nesta renúncia auxiliar à devoção, não há aspereza, nem secura, nem luta, nem repressão ou supressão.

O bhakta não tem de suprimir nenhuma de suas emoções; ele apenas se esforça por intensificá-las e dirigi-las a Deus.

A Renúncia do Bhakta Resulta do Amor.

Vemos amor em toda parte na natureza.

Tudo o que na sociedade é bom, grande e sublime é o desdobramento do amor; tudo o que na sociedade é muito mau, até mesmo diabólico, é também o desdobramento mal dirigido da mesma emoção do amor.

É essa mesma emoção que nos dá o puro e santo amor conjugal entre marido e mulher, bem como o tipo de amor que vai satisfazer as formas mais baixas da paixão animal.

A emoção é a mesma, mas sua manifestação é diferente nos diferentes casos.

É o mesmo sentimento de amor, bem ou mal dirigido, que impele um homem a fazer o bem e a dar tudo o que tem aos pobres, enquanto faz outro homem cortar as gargantas de seus irmãos e tomar todas as suas posses.

O primeiro ama os outros tanto quanto o segundo ama a si mesmo.

A direção do amor é má no caso deste último, e é justa

RENÚNCIA AO AMOR.

e apropriada no primeiro caso.

O mesmo fogo que cozinha uma refeição para nós pode queimar uma criança, e não é culpa do fogo se assim o fez; a diferença está no modo como é usado.

Portanto, o amor, o intenso anseio por associação, o forte desejo de que dois se tornem um, e pode ser, afinal, que todos se fundam em um, manifesta-se em toda parte em formas superiores ou inferiores, conforme o caso. Bhakti-Yoga é a ciência do amor superior — mostra-nos como dirigi-lo. Mostra-nos como controlá-lo, como administrá-lo, como usá-lo, como dar-lhe um novo objetivo, por assim dizer, e dele obter os mais elevados e gloriosos resultados, isto é, como fazê-lo conduzir-nos à bem-aventurança espiritual! Bhakti-Yoga não diz — abandonai; apenas diz — amai, amai o Altíssimo; e tudo o que é baixo naturalmente cai daquele cujo amor tem por objeto esse Altíssimo.

"Não posso dizer nada sobre Ti, exceto que Tu és meu amor.

Tu és

106 BHAKTI-YOGA.

belo, oh, Tu és belo! Tu és a própria beleza." O que, afinal, é realmente exigido de nós neste Yoga é que nossa sede do belo seja dirigida a Deus.

O que é a beleza no rosto humano, no céu, nas estrelas e na lua? É apenas a apreensão parcial da Beleza Divina real, que tudo abrange.

"Ele resplandecendo, tudo resplandece.

É através de Sua luz que todas as coisas brilham." Tomai esta elevada posição de bhakti que vos faz esquecer de uma vez todas as vossas pequenas personalidades.

Desvencilhai-vos de todos os pequenos apegos egoístas do mundo.

Não considereis a humanidade como o centro de todos os vossos interesses humanos e superiores.

Permanecei como testemunha, como estudante, e observai os fenômenos da natureza.

Tende o sentimento de não-apego pessoal com relação ao homem, e vede como

« I

TO y

(Katha Upanishada, II. 5—15)

RENÚNCIA AO AMOR.

esse poderoso sentimento de amor está se manifestando no mundo.

Às vezes, produz-se um pouco de atrito, mas isso ocorre apenas no curso da luta para alcançar o amor superior e real.

Às vezes, há uma pequena luta, ou uma pequena queda; mas isso é apenas ao longo do caminho.

Afasta-te e deixa livremente que esses atritos venham.

Você sente os atritos apenas quando está na corrente do mundo.

Mas quando você está fora dela, simplesmente como testemunha ou como estudante, será capaz de ver que existem milhões e milhões de canais nos quais Deus está Se manifestando como Amor.

"Onde quer que haja qualquer bem-aventurança, mesmo que nas coisas mais sensuais, ali há uma centelha daquela Bem-aventurança Eterna que é o Próprio Senhor." Mesmo nas formas mais baixas de atração existe o germe do amor Divino.

Um dos nomes do Senhor em sânscrito é Hari, e isso significa que Ele atrai todas as coisas para Si.

108 BHAKTI-YOGA.

Sua é, de fato, a única atração digna dos corações humanos.

Quem pode realmente atrair uma alma? Somente Ele! Você pensa que a matéria morta pode verdadeiramente atrair a alma? Nunca o fez, e nunca o fará.

Quando você vê um homem indo atrás de um belo rosto, pensa que é o punhado de moléculas materiais arranjadas que realmente atrai o homem? De modo algum.

Por trás dessas partículas materiais deve haver, e há, o jogo da influência divina e do amor divino.

O homem ignorante não sabe disso; mas, ainda assim, consciente ou inconscientemente, ele é atraído por isso e somente por isso.

Assim, até as formas mais baixas de atração derivam seu poder do Próprio Deus.

"Ninguém, ó amado, jamais amou o marido por causa do marido; é o Atman, o Senhor, que está dentro, e por causa Dele o marido é amado." Esposas amorosas podem saber disso ou

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I

(Brihadiranyaka, II—4)

RENÚNCIA POR AMOR.

IO

podem não saber — é verdadeiro do mesmo modo.

"Ninguém, ó amado, jamais amou a esposa por causa da esposa, mas é o Ser dentro da esposa que é amado." Da mesma forma, ninguém ama um filho ou qualquer outra coisa no mundo, exceto por causa Daquele que está dentro.

O Senhor é o grande ímã, e nós somos todos como limalhas de ferro.

Todos nós estamos sendo constantemente atraídos por Ele e todos nós estamos lutando para alcançá-Lo.

Toda essa nossa luta neste mundo certamente não tem fins egoístas.

Os tolos não sabem o que estão fazendo, mas todo o trabalho de suas vidas é aproximar-se desse grande Ímã.

Sim — toda a tremenda luta e batalha na vida tem a intenção de nos fazer ir a Ele, em última instância, e nos tornarmos um com Ele.

O bhakti-yogin, no entanto, conhece o significado das lutas da vida — ele compreende

firmemente

(Brihaddranyaka, II — 4)

não o seu propósito.


Ele passou por uma longa série de tais lutas e sabe o que elas significam, e deseja ardentemente estar livre do atrito delas.

Ele quer evitar o choque e ir diretamente ao centro de toda atração, o grande Hari.

Essa poderosa atração, na direção de Deus, faz todas as outras atrações desaparecerem para ele; esse poderoso e infinito amor de Deus, que entra em seu coração, não deixa lugar para nenhum outro amor ali habitar.

Como poderia ser de outro modo? Bhakti enche seu coração com as águas divinas do oceano de amor, que é o próprio Deus — assim, não resta ali lugar para pequenos amores.

Esta é a renúncia do bhakta.

Ou seja, a renúncia do bhakta é aquele vairagya, ou desapego por todas as coisas que não são Deus, que resulta do anurāga, ou grande apego a Deus.

Este é o preparo ideal para a obtenção da bhakti suprema.

Quando essa renúncia vem, o portão se abre para

RENÚNCIA POR AMOR.

III

a alma passar e alcançar as regiões elevadas da Devoção Suprema ou Para-Bhakti.

Então é que começamos a compreender o que é Para-Bhakti — e o homem que entrou no santuário interior da Para-Bhakti tem, sozinho, o direito de dizer que todas as formas e símbolos são inúteis para ele como auxílios à realização religiosa.

Somente ele alcançou aquele estado supremo de amor que é comumente chamado de irmandade do homem — os demais apenas falam dele. Somente ele não vê distinções! O poderoso oceano de amor entrou nele, e ele não vê homens, animais e plantas, nem o sol, a lua e as estrelas, mas contempla seu Amado em toda parte e em tudo.

Através de cada rosto brilha para ele o seu Hari.

A luz no sol ou na lua é toda a Sua manifestação.

Onde quer que haja beleza ou sublimidade, para ele tudo é Dele.

Tais bhaktas ainda vivem — o mundo nunca está sem eles.

Tais, mesmo quando mordidos por uma serpente, apenas dizem que um mensageiro veio para

II eles de seu Amado.


Somente tais homens têm o direito de falar de irmandade universal.

Eles não sentem ressentimento; suas mentes nunca reagem na forma de ódio ou ciúme.

O externo, o sensorial, desapareceu deles para sempre.

Como podem se irar, quando, através de seu amor, são sempre capazes de ver a Realidade por trás das cenas?

A Naturalidade do Bhakti-Yoga e Seu Segredo Central.

“Aqueles que com atenção constante sempre vos adoram, e aqueles que adoram o Indiferenciado, o Absoluto — destes, quem são os maiores Yogins?” — Arjuna, o discípulo de Sri Krishna.

A resposta foi — “Aqueles que, concentrando suas mentes em Mim, Me adoram com constância eterna e são dotados da mais alta fé — esses são Meus melhores adoradores, eles são os maiores Yogins.

Aqueles que adoram o Absoluto, o Indescritível, o Indiferenciado, o Onipresente, o Impensável, o Onicompreensivo, o Imóvel e o Eterno, controlando o jogo de seus órgãos e tendo a convicção da igualdade em relação a todas as coisas, eles também, estando engajados em fazer o bem a todos os seres, vêm a Mim somente.

Mas para aqueles cujas mentes

Bhagavat Gita, Capítulo XII, versículos 1-7.


II

foram devotadas ao Absoluto não-manifestado, a dificuldade da luta ao longo do caminho é muito maior, pois é de fato com grande dificuldade que o caminho do Absoluto não-manifestado é trilhado por qualquer ser encarnado.”

Aqueles que, tendo oferecido todo o seu trabalho a Mim, com inteira confiança meditam em Mim e Me adoram, e estão sem qualquer apego a qualquer outra coisa — a esses, em breve erguerei do oceano de nascimentos e mortes que sempre se repetem, pois suas mentes estão inteiramente apegadas a Mim.” Jnana-Yoga e Bhakti-Yoga são ambos referidos aqui.

Ambos podem ser considerados definidos na passagem acima.

Jnana-Yoga é grandioso — é filosofia elevada.

E quase todo ser humano pensa, curiosamente, que pode certamente fazer tudo o que a filosofia exige dele. Mas é realmente muito difícil viver verdadeiramente a vida da filosofia.

Muitas vezes tendemos a correr grandes perigos ao tentar guiar nossa vida pela

SEU SEGREDO CENTRAL.

II

filosofia.

Este mundo pode ser considerado dividido entre pessoas de natureza demoníaca, que pensam que cuidar do corpo é o fim último e o objetivo da existência, e pessoas de natureza divina, que percebem que o corpo é simplesmente um meio para um fim — um instrumento destinado à cultura da alma.

O diabo pode e de fato cita as escrituras para seus próprios propósitos; e assim o caminho do conhecimento parece oferecer justificativa ao que o homem mau faz, tanto quanto oferece incentivos ao que o homem bom faz.

Este é o grande perigo no Jnana-Yoga. Mas Bhakti-Yoga é natural, doce e suave.

O bhakta não alça voos tão altos quanto o jnana-yogin e, portanto, não está sujeito a quedas tão grandes.

Contudo — até que os grilhões da alma se desfaçam, ela não pode, é claro, ser livre, qualquer que seja o caminho que o homem religioso tome.

Aqui está uma passagem mostrando como, no caso de uma das benditas Gopis, as

116 BHAKTI-YOGA.

cadeias que prendiam a alma, tanto de mérito quanto de demérito, foram quebradas.

“O intenso prazer em meditar em Deus removeu os efeitos vinculantes de suas boas ações.”

Então, novamente, sua intensa miséria de alma por não alcançá-Lo lavou todas as suas propensões pecaminosas; e assim, tornando-se desprovida de todos os grilhões, ela se tornou livre.”¹ Em Bhakti-Yoga, o segredo central é, portanto, saber que as várias paixões, sentimentos e emoções no coração humano não são errados em si mesmos.

Eles devem ser cuidadosamente controlados apenas e receber uma direção cada vez mais elevada, até atingirem a mais alta condição de excelência.

A direção mais elevada é aquela que nos leva a Deus; toda

I

(Vishnupurina, V, 13–21, 22)

SEU SEGREDO CENTRAL.

II

outra direção é inferior.

Descobrimos que prazer e dor são sentimentos muito comuns e recorrentes em nossas vidas.

Quando um homem sente dor, porque não obteve riqueza ou algo mundano semelhante, ele está dando uma direção errada ao sentimento.

Ainda assim, a dor tem seus usos.

Que um homem sinta dor por não ter alcançado o Altíssimo, por não ter alcançado Deus, e essa dor será para sua salvação.

Quando você se alegra por ter obtido um punhado de moedas, é uma direção errada dada à faculdade da alegria.

Ela deve receber uma direção mais elevada — deve ser feita para servir ao Ideal Supremo.

O prazer nesse tipo de ideal certamente deve ser nossa mais alta alegria.

O mesmo se aplica a todos os nossos outros sentimentos.

O Bhakta diz que nenhum deles é errado.

Ele se apodera de todos eles e os aponta infalivelmente para Deus.

As Formas de Manifestação do Amor.

Aqui estão algumas das formas nas quais o amor se manifesta.

Primeiro, há a reverência.

Por que as pessoas mostram reverência a templos e lugares sagrados? Porque o Senhor é adorado ali, e Sua presença está associada a todos esses lugares.

Por que as pessoas em todos os países prestam reverência aos mestres de religião? É natural para o coração humano fazê-lo, porque todos esses mestres pregam o Senhor.

No fundo, a reverência é um crescimento do amor; nenhum de nós pode reverenciar aquele a quem não amamos.

Então vem priti — prazer em Deus.

Que imenso prazer os homens sentem pelos objetos dos sentidos! Eles vão a qualquer lugar, atravessam qualquer perigo, para obter a coisa que amam, a coisa que seus sentidos apreciam.

O que se exige do bhakta é exatamente esse tipo de amor intenso que, no entanto, deve ser

MANIFESTAÇÃO DO AMOR.

II

dirigido a Deus.

Há então a mais doce das dores, viraha, a intensa miséria devida à ausência do amado.

Quando um homem sente intensa miséria — porque não alcançou a Deus, não conheceu aquilo que é a única coisa digna de ser conhecida — e se torna, em consequência, muito insatisfeito e quase louco, então se diz que ele tem viraha; e esse estado da mente o faz sentir-se perturbado na presença de qualquer coisa que não seja o amado. No

amor terreno vemos com que frequência esse viraha surge.

Novamente, quando os homens estão real e intensamente apaixonados por mulheres, ou mulheres por homens, sentem uma espécie de aborrecimento natural na presença de todos aqueles que não amam.

Exatamente o mesmo estado de impaciência, em relação às coisas que não são amadas, vem à mente quando o Para-Bhakti domina sobre ela — até mesmo falar sobre coisas que não sejam Deus torna-se desagradável então.

"Pensai Nele, pensai somente Nele, e abandonai todas outras palavras vãs." Aqueles que falam somente Dele, o bhakta os considera amigos; enquanto aqueles que falam de qualquer outra coisa lhe parecem hostis.


Um estágio ainda mais elevado do amor é alcançado quando a própria vida é mantida por causa do Ideal do Amor, quando a própria vida é considerada bela e digna de ser vivida somente por causa desse Amor. Sem

ele, tal vida não permaneceria nem por um momento.

A vida é doce porque pensa no Amado.

Tadiyata (= Sua natureza) surge quando um homem se torna perfeito segundo a bhakti — quando ele se tornou abençoado, quando alcançou a Deus, quando tocou os pés de seu Senhor e então toda a sua natureza é purificada e completamente transformada.

Todos os seus propósitos na vida se cumprem então.

Ainda assim, muitos desses bhaktas continuam

(Mundaka, II. 2—5)

MANIFESTAÇÃO DO AMOR.

121

depois que esse estado é alcançado, apenas para adorá-Lo.

Essa é a bem-aventurança deles, seu único prazer na vida, ao qual não renunciarão. "Ó rei, tal é a qualidade bendita de Hari que mesmo aqueles que se tornaram satisfeitos com tudo, e todos os nós de cujos corações foram cortados, mesmo esses amam o Senhor por amor ao amor"# — o Senhor "a quem todos os deuses adoram, todos os amantes da libertação, e todos os conhecedores do Brahman!" Tal é o poder do amor.

Quando um homem se esqueceu completamente de si mesmo e sente que nada lhe pertence, só então ele alcança o estado de *tadiyata*.

Tudo se torna sagrado para ele, porque pertence ao Amado — assim como no amor terreno, o amante pensa que tudo o que pertence à sua amada é tão sagrado e tão querido para ele.

Assim como o amante humano ama até um pedaço do tecido pertencente à querida do seu coração — da mesma forma, quando uma pessoa ama o Senhor, tudo no universo se torna querido para ele, porque tudo é d'Ele.

**Amor Universal e Como Ele Conduz à Autoentrega.**

Como podemos amar o *vyashti*, o particular, sem primeiro amar o *samashti*, o universal? Deus é o *samashti*, o todo universal generalizado e abstrato; e o universo que vemos é o *vyashti*, a coisa particularizada.

Amar o universo inteiro só é possível amando o *samashti*, o universal — que é a Unidade única na qual se encontram milhões e milhões de unidades menores.

Os filósofos da Índia não param nos particulares.

Eles lançam um olhar apressado sobre os particulares e imediatamente começam a buscar a forma generalizada que incluirá todos os particulares.

A busca pelo universal é, assim, a única busca da filosofia e da religião indianas.

O *jnani* visa à totalidade das coisas, àquele Ser único, absoluto e generalizado, conhecendo o qual, ele conhece tudo.

O *bhakta* deseja realizar aquela Pessoa única, abstrata e generalizada, amando a Qual, ele ama o universo inteiro.

O yogin deseja encontrar e possuir aquela forma generalizada de poder, controlando a qual ele controla todo o seu universo.

Assim, a mente indiana, ao longo de sua história, tem sido direcionada a esse tipo de busca singular pelo universal em tudo — na ciência, na psicologia, no amor e na filosofia.

A busca do bhakta o leva à conclusão de que, se alguém continua meramente amando uma pessoa após outra, pode continuar amando-as assim por um tempo infinito, sem ser minimamente capaz de amar o mundo como um todo.

Portanto, deve-se esforçar para chegar à ideia central de que a soma total de todo amor é Deus, que a soma total das aspirações de todas as almas no universo, sejam elas livres, ligadas ou lutando pela libertação, é Deus — então somente se tornará possível para alguém manifestar amor universal.

O bhakta diz, portanto, que Deus é o samashti e este universo visível é Deus, diferenciado e tornado manifesto.

Se amamos essa soma total, amamos tudo.

Amar o mundo e fazer-lhe o bem virão facilmente então — mas teremos que obter esse poder apenas amando a Deus primeiro — caso contrário, não é brincadeira fazer o bem ao mundo.

“Tudo é Dele e Ele é meu Amado; eu O amo”, diz o bhakta.

Dessa forma, tudo se torna sagrado para ele, porque todas as coisas são Dele — todas são Seus filhos.

Seu corpo, Sua manifestação.

Como então poderíamos ferir alguém? Como então poderíamos não amar alguém? Com o amor de Deus virá, como efeito certo, o amor de todos no universo.

Quanto mais nos aproximamos de Deus, mais começamos a ver que todas as coisas estão Nele.

Quando a alma consegue apropriar-se da bem-aventurança desse amor supremo, ela também começa a vê-Lo em tudo.

Nosso coração se tornará assim uma fonte eterna de amor.


E quando alcançamos um estado mais elevado, mesmo através desse amor, todas as pequenas diferenças entre as coisas do mundo serão inteiramente perdidas — o homem não será mais visto como homem, mas apenas como Deus; o animal não será mais visto como animal, mas como Deus; até o tigre não será mais visto como tigre, mas como uma manifestação de Deus.

Assim, nesse estado intenso de bhakti, a adoração é oferecida a toda vida e a todo ser.

“Sabendo que Hari, o Senhor, está em todas as coisas, os sábios manifestam assim amor inabalável por todos os seres.”

Como resultado desse tipo de amor intenso e absorvente, surge o sentimento de perfeita auto-entrega e a convicção de que nada do que acontece é contra nós. Então a alma amorosa é capaz de dizer, se a dor

AMOR UNIVERSAL.

vier, “bem-vinda, dor” — ou se a miséria vier, “bem-vinda, miséria, tu também vens do Amado”. Se uma serpente vier, dirá “bem-vinda, serpente”. E mesmo se a morte vier, tal bhakta a receberá com um sorriso.

Ele dirá — “bendito sou eu que todas elas vêm a mim; todas são bem-vindas.” O bhakta nesse estado de perfeita resignação, surgindo do intenso amor a Deus e a tudo o que é Seu, deixa de distinguir entre prazer e dor, na medida em que estes o afetam.

Ele não sabe mais o que é reclamar da dor ou da miséria — e esse tipo de resignação sem queixas à vontade de Deus, que é todo amor, é de fato uma aquisição mais digna do que toda a glória de grandes e heroicas realizações.

Para a vasta maioria da humanidade, o corpo é tudo.

O corpo é todo o universo para eles, e o gozo corporal, o seu tudo em tudo.

Esse demônio da adoração do corpo e das coisas do corpo entrou em todos nós.


Podemos nos entregar a discursos elevados e alçar voos muito altos no reino da razão, mas somos como abutres, do mesmo modo — nossa mente está dirigida ao pedaço de carniça lá embaixo.

Por que nosso corpo deveria ser salvo, digamos, do tigre? Por que não podemos entregá-lo ao tigre? O tigre ficará satisfeito com isso, e isso não está de todo tão longe do auto-sacrifício e da adoração.

Você consegue alcançar a realização da ideia em que todo senso de eu é completamente perdido? É um cume muito vertiginoso no pináculo da religião do amor, e poucos neste mundo já escalaram até ele; mas até que um homem alcance aquele ponto mais alto do autossacrifício sempre pronto e sempre disposto, ele não pode se tornar um bhakta perfeito.

Todos nós podemos conseguir manter nossos corpos mais ou menos satisfatoriamente, por intervalos de tempo mais longos ou mais curtos — no entanto, nossos corpos terão que partir; não há permanência neles.

E benditos são aqueles cujos corpos são destruídos

AMOR UNIVERSAL.

no serviço aos outros.

"Riqueza, e até a própria vida, o sábio sempre mantém prontas para o serviço aos outros.

Neste mundo, havendo uma coisa certa, a saber, a morte, é muito melhor que este corpo morra por uma boa causa do que por uma má." Podemos arrastar nossa vida por cinquenta anos ou cem — mas depois disso, o que é que acontece? Tudo o que é resultado de combinação deve se dissolver e morrer, e deve e virá um tempo para o corpo ser decomposto.

Jesus e Buda e Maomé estão todos mortos — todos os grandes profetas e mestres do mundo estão mortos.

"Neste mundo evanescente, onde tudo está se despedaçando, temos que fazer o melhor uso do tempo que temos," diz o bhakta, "e realmente o melhor uso da vida é mantê-la a serviço de todos os seres." É a horrível ideia do corpo, apenas essa única ilusão, de que somos inteiramente o corpo que possuímos, e que devemos por todos os meios possíveis tentar o nosso melhor para preservá-lo e agradá-lo, que gera todo o egoísmo no mundo.


Se você sabe positivamente que é outro que não o seu corpo, então você não tem ninguém com quem lutar ou contra quem se esforçar; você está morto para todas as ideias de egoísmo.

Assim, o bhakta declara que teremos que nos considerar como se estivéssemos completamente mortos para todas as coisas do mundo — e isso é de fato a rendição de si mesmo.

Deixe as coisas virem como vierem — este é o significado de “Seja feita a Tua vontade”, e não sair por aí lutando e se debatendo, pensando o tempo todo que Deus quer todas as nossas próprias fraquezas e ambições mundanas.

Pode ser que o bem venha até mesmo de nossas lutas egoístas; isso, porém, se dá pela providência de Deus e não por mérito nosso.

A ideia do bhakta aperfeiçoado deve ser nunca querer e trabalhar para si mesmo.

“Senhor, eles constroem templos altos em Teu nome, fazem grandes doações! Eu sou pobre — eu não sou nada, então tomo este meu corpo e o coloco a Teus pés. Não me abandones, ó Senhor!” — tal é a oração que procede das profundezas do coração do bhakta.

Para aquele que já o experimentou, este sacrifício eterno do eu ao Senhor Amado é muito mais elevado do que toda riqueza e poder, do que até mesmo todos os pensamentos elevados de renome e prazer.

A paz da resignação calma do bhakta é uma “paz que excede todo entendimento” e é de valor incomparável.

Sua apratikulya é aquele estado da mente em que a mente não tem interesses em coisa alguma deste mundo e, naturalmente, não conhece nada que se oponha a esses interesses.

Nesse estado de sublime resignação, tudo o que tenha forma de apego desaparece completamente, exceto aquele único amor que tudo absorve por Ele “em Quem todas as coisas vivem, se movem e têm o seu ser”. Esse apego por amor a Deus é, de fato, um que não prende a alma, mas efetivamente quebra todos os seus grilhões.

O Conhecimento Superior e o Amor Superior são um só para o Verdadeiro Amante.

Os Upanishads distinguem entre um conhecimento superior e um conhecimento inferior.

Não há realmente diferença entre esse conhecimento superior dos Upanishads e o amor superior do bhakta (Para-Bhakti). O Mundaka Upanishad diz: — “Os conhecedores do Brahman declaram que...”

Existem dois tipos de conhecimento dignos de serem conhecidos, a saber, o superior (*parā*) e o inferior (*aparā*). Desses, o conhecimento inferior consiste no Rigveda, no Yajurveda, no Samaveda, no Atharva-veda, no *śikṣā* ou a ciência que trata da pronúncia e do acento, no *kalpa* ou a liturgia sacrificial, na gramática, no *nirukta* ou a ciência que trata da etimologia e do significado das palavras, na prosódia e na astronomia.

O conhecimento superior é aquele pelo qual o Imutável é conhecido.” O conhecimento superior é assim claramente demonstrado como sendo o conhecimento do Brahman.

O Devi-Bhāgavata nos dá a seguinte definição do amor superior (*Para-Bhakti*): — “Assim como o óleo derramado de um vaso a outro cai em uma linha ininterrupta, assim, quando a mente, em uma corrente ininterrupta de pensamento, pensa no Senhor, temos o que é chamado de *Para-Bhakti* ou amor supremo.” Esse tipo de direção imperturbável e sempre constante da mente e do coração para o Senhor, com um apego inseparável, é de fato a mais alta manifestação do amor do homem a Deus.

Todas as outras formas de *bhakti* são apenas preparatórias para a obtenção dessa forma mais elevada, a saber, a *Para-Bhakti*, que também é conhecida como o amor que vem após o apego (*rāgānugā*). Quando esse amor supremo uma vez entra no coração do homem, sua mente pensará continuamente em Deus e não se lembrará de mais nada.

Ele não dará espaço em si mesmo a pensamentos outros que não os de Deus, e sua alma, sendo inconquistavelmente pura, romperá todos os laços da mente e da matéria e se tornará serenamente livre.

Somente ele pode adorar o Senhor em seu próprio coração, e para ele formas, símbolos, livros e doutrinas tornam-se todos desnecessários e incapazes de se mostrarem úteis de qualquer maneira.

Não é fácil amar o Senhor assim.

Ordinariamente, o amor humano é visto florescer apenas em lugares onde é correspondido, e onde o amor não é retribuído com amor, a fria indiferença é o resultado natural.

Há, no entanto, raras instâncias de amor humano em que podemos notar o amor se manifestando, mesmo quando não há retribuição para o amor.

Podemos comparar esse tipo de amor, para fins de ilustração, ao amor da mariposa pelo fogo. O inseto ama o fogo, cai nele e morre — pois está de fato na natureza desse inseto amar O VERDADEIRO AMANTE.

Assim, amar, porque está na própria natureza do amor amar, é inegavelmente a mais alta e a mais altruísta manifestação de amor que pode ser vista no mundo. Tal amor, manifestando-se no plano da espiritualidade, leva necessariamente à realização de Para-Bhakti.

O Triângulo do Amor.

Podemos representar o amor como um triângulo, cada um dos ângulos do qual corresponde a uma de suas características inseparáveis. Não pode haver triângulo sem todos os seus três ângulos, e não pode haver amor verdadeiro sem suas três características seguintes.

O primeiro ângulo do nosso triângulo do amor é que o amor não conhece barganha. Onde quer que haja qualquer busca por algo em troca, não pode haver amor real. Torna-se uma mera questão de comércio.

Enquanto houver em nós qualquer ideia de obter este ou aquele favor de Deus em troca de nosso respeito e lealdade a Ele, enquanto isso, não pode haver amor verdadeiro crescendo em nossos corações.

Aqueles que adoram a Deus porque desejam que Ele lhes conceda favores certamente não O adorarão, se esses favores não forem concedidos. O bhakta ama o Senhor porque Ele é amável. Não há outro motivo originando ou dirigindo essa emoção divina do verdadeiro devoto.

Ouvimos dizer que um grande rei certa vez foi a uma floresta e lá encontrou um sábio. Ele conversou um pouco com o sábio e ficou muito satisfeito com sua pureza e sabedoria. O rei então quis que o sábio o agradasse recebendo um presente dele. O sábio recusou-se a fazê-lo, dizendo: “os frutos da floresta são alimento suficiente para mim; os riachos puros de água que descem das montanhas dão-me bebida suficiente; as cascas das árvores fornecem-me cobertura suficiente; e as cavernas das montanhas formam meu lar.”

“Por que eu aceitaria qualquer presente seu ou de qualquer pessoa?” O rei disse: “Apenas para me beneficiar, senhor, por favor, venha comigo até a cidade, ao meu palácio, e aceite algo de minhas mãos.” Após muita persuasão, o sábio por fim consentiu em fazer o que o rei desejava e foi com ele ao seu palácio.

Antes de oferecer o presente ao sábio o rei repetiu suas preces, dizendo: “Senhor, dai-me mais filhos; Senhor, dai-me mais riquezas; Senhor, dai-me mais território; Senhor, mantende meu corpo com melhor saúde”, e assim por diante. Antes de o rei terminar sua prece, o sábio levantou-se e saiu silenciosamente da sala.


Ao ver isso, o rei ficou perplexo e começou a segui-lo, clamando em voz alta: “Senhor, estais indo embora, não aceitastes meus presentes.” O sábio virou-se e disse: “Mendigo, eu não imploro a mendigos.

Vós sois um mendigo, e como podeis me dar algo? Não sou tolo a ponto de pensar em aceitar algo de um mendigo como vós.

Ide embora, não me sigais.” A história acima evidencia claramente a distinção entre meros mendigos na esfera da Religião e os verdadeiros amantes de Deus.

Adorar a Deus por qualquer outra recompensa, ou mesmo pela salvação, é degenerar o elevado ideal do amor.

O amor não conhece recompensa.

O amor é sempre pelo próprio amor.

O TRIÂNGULO DO AMOR.

O bhakta ama porque não pode deixar de amar — assim como quando vedes uma bela paisagem e vos apaixonais por ela. Não exigis nada em forma de favor da paisagem, nem a paisagem exige algo de vós.

No entanto, a visão dela vos leva a um estado de bem-aventurança da mente, suavizando todo o atrito em vossa alma.

Ela vos torna calmos e quase vos eleva, por um momento, além de vossa natureza mortal, colocando-vos em uma condição de tranquila êxtase divina.

Assim é a natureza do amor real, e este é o primeiro ângulo do nosso triângulo.

Portanto, não peçais nada em troca do vosso amor.

Que vossa posição seja sempre a de quem dá.

Dai vosso amor a Deus, mas não peçais nada em troca, nem mesmo d’Ele.

O segundo ângulo do triângulo do amor é que o amor não conhece medo.

Aqueles que amam a Deus por medo são os mais inferiores dos seres humanos — bastante subdesenvolvidos como homens.

Eles adoram a Deus por medo do castigo.


Ele é um grande Ser para eles, com um chicote em uma mão e o cetro na outra, e se não O obedecem, temem ser açoitados.

É uma degradação adorar a Deus por medo do castigo.

Tal adoração é, se é que é adoração, a forma mais grosseira da adoração do Deus do amor.

Enquanto houver qualquer medo no coração, como pode haver também amor? O amor conquista naturalmente todo o medo.

Pensem em uma jovem mãe na rua.

Se um cão late para ela, ela se assusta; ela foge para a casa mais próxima.

Agora suponham que a mesma mãe esteja na rua com seu filho e um leão salte sobre a criança.

Onde estará então a mãe? Naturalmente na boca do leão — para salvar o filho. O amor de fato conquista todo o medo.

O medo vem da ideia egoísta de separar a si mesmo do universo.

Quanto menor e mais egoísta eu me torno, maior é o meu medo.

Se um homem pensa que é pequeno ou nada,

O TRIÂNGULO DO AMOR.

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o medo certamente virá sobre ele.

E quanto menos você se considerar uma pessoa insignificante, menos medo haverá para você.

Enquanto houver a menor centelha de medo em você, não poderá haver amor ali.

Amor e medo são incompatíveis.

Portanto, Deus nunca deve ser temido por aqueles que O amam.

O mandamento: "Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão", o verdadeiro amante de Deus o ridiculariza. Como pode haver qualquer blasfêmia na religião do amor? Quanto mais você toma o nome do Senhor, melhor para você, de qualquer maneira que o faça. Você está apenas repetindo Seu nome porque O ama.

O terceiro ângulo do triângulo do amor é que o amor não conhece rival, pois nele está sempre corporificado o mais elevado ideal do amante.

O amor verdadeiro nunca vem até que o objeto de nosso amor se torne para nós o nosso mais elevado ideal.

Pode ser que em muitos casos o amor humano seja mal direcionado e mal colocado — mas para a pessoa que ama, a coisa que ela ama é sempre o seu próprio mais elevado ideal.


Pode-se ver seu ideal no mais vil dos seres e outro no mais elevado dos seres — no entanto, em todo caso, é somente o ideal que pode ser verdadeira e intensamente amado.

O mais elevado ideal de todo homem é seu Deus. Ignorante ou sábio, santo ou pecador, homem ou mulher, educado ou sem educação, culto ou inculto — para todo ser humano, seu mais elevado ideal é seu Deus.

E, de fato, a síntese de todos os mais elevados ideais de beleza, de sublimidade e de poder nos dá a mais completa concepção "do Deus amoroso e amável".

Esses ideais existem, sob uma forma ou outra, em toda mente, naturalmente, e formam parte integrante de todas as nossas mentes.

Todas as manifestações ativas da natureza humana são apenas lutas desses ideais dentro dela para se realizarem na vida prática.

Todos os vários movimentos que vemos ao nosso redor na sociedade são causados pelos vários ideais em várias almas, tentando vir à tona

O TRIÂNGULO DO AMOR.

e tornar-se concretizados — pois o que está dentro pressiona para vir para fora.

Essa influência perenemente dominante do ideal é a única força, o único poder motriz, que se pode ver constantemente operando no seio da humanidade.

Pode ser após centenas de nascimentos, após lutar através de milhares de anos, que o homem descobre que é em vão tentar fazer o ideal interior moldar completamente as condições externas e ajustar-se bem a elas — e, após perceber isso, ele não tenta mais projetar seu próprio ideal no mundo exterior, mas adora o próprio ideal como ideal, do mais elevado ponto de vista do amor.

Esse ideal perfeitamente perfeito abrange todos os ideais inferiores.

Todos admitem a verdade do ditado de que um amante vê a beleza de Helena na fronte de uma etíope.

O homem que está à parte, sendo um espectador, vê que o amor está aqui fora de lugar.

Mas o amante vê sua Helena do mesmo modo, e não vê a etíope de forma alguma! Pois — Helena ou etíope, os objetos de nosso amor são realmente os centros em torno dos quais nossos ideais se cristalizam.


Agora, o que é que o mundo comumente adora? Certamente não esse ideal oniabrangente, perfeitamente perfeito, do devoto e amante supremo.

O ideal que homens e mulheres comumente adoram é o que está neles mesmos, e cada pessoa projeta seu próprio ideal no mundo exterior e se ajoelha diante dele. É por isso que encontramos homens cruéis e sanguinários que concebem um Deus sanguinário — porque "eles só podem amar seu próprio ideal mais elevado".

É por isso que os homens bons têm um ideal muito elevado de Deus, e seu ideal é de fato tão diferente do de outros.

O Deus do Amor é a sua própria Prova.

Agora, qual é o ideal do amante que ultrapassou completamente a ideia de egoísmo, de troca e barganha, e que não conhece medo? Mesmo ao grande Deus, tal homem dirá: "Eu te dei tudo o que tinha, e não quero nada de ti; de fato, não há nada que eu possa chamar de meu." Quando um homem alcança esse estágio, seu ideal torna-se um de amor perfeito — um de perfeita ausência de medo no amor.

O ideal mais elevado de tal pessoa não tem estreiteza nem particularidade. É o amor universal, o amor sem limites e fronteiras, o próprio amor, perfeito e absoluto.

Esse grande ideal da religião do amor é adorado e amado absolutamente como tal, sem o auxílio de quaisquer símbolos ou sugestões.

A forma mais elevada de bhakti é a adoração desse ideal que tudo abrange como o ideal escolhido.

Todas as outras formas de Bhakti são apenas estágios no caminho para alcançá-lo. Todos os nossos fracassos e todos os nossos sucessos em seguir a religião do amor estão na estrada para a realização desse único ideal.

Objeto após objeto é tomado, e seu ideal interior é sucessivamente projetado sobre todos eles, pelo bhakta, para descobrir que todos esses objetos externos são sempre inadequados como expoentes de seu ideal interior em constante expansão — e são naturalmente rejeitados por ele, um após outro.

Por fim, o aspirante começa a pensar que é vão tentar realizar o ideal em objetos externos — que todos os objetos externos são como nada, comparados ao próprio ideal.

E, com o tempo, ele adquire o poder de realizar o ideal mais elevado e mais generalizado, inteiramente como uma abstração — e isso, para ele, torna-se bastante vivo e real.

Quando o devoto alcança este ponto, não é mais impelido a perguntar — se Deus pode ser demonstrado ou não, se Ele é onipotente e onisciente, ou não.

Para ele, Ele é apenas o Deus do Amor! Ele é o mais alto ideal de amor, e isso é suficiente para todos os seus propósitos! Ele, como amor, é evidente por si mesmo para ele — pois não requer provas para demonstrar a existência do amado, para o amante! Os deuses-magistrados de outras formas de religião podem exigir uma boa dose de provas para comprová-los, mas o Bhakta não pensa, e não pode pensar, em tais deuses de modo algum.

Para ele, Deus existe inteiramente como Amor, e encontrando-O como a alma mais íntima em todos, ele proclama em êxtase — "Ninguém, ó amado, ama o esposo pelo bem do esposo, mas é pelo bem do Eu, o Senhor, que está no esposo, que o esposo é amado — ninguém, ó amado, ama a esposa pelo bem da esposa, mas é pelo bem do Eu, o Senhor, que está na esposa, que a esposa é amada."

Diz-se por alguns que o egoísmo é o único poder motivador, no que diz respeito a todas as atividades humanas.


Em minha opinião, isso também é amor rebaixado, por ser particularizado.

Quando penso em mim mesmo como parte do Todo universal e O amo — meu amor torna-se universal também, e certamente não pode restar então egoísmo em mim. Mas quando eu, por engano, penso que sou algo pequeno e desconectado do Todo — meu amor torna-se particularizado e estreitado.

É um grande erro, portanto, assim tornar a esfera do amor estreita e contraída — pois todas as coisas no universo são de origem divina e merecem ser amadas.

Tem-se, no entanto, de ter em mente que o amor do todo inclui o amor das partes.

Este Todo universal é o Deus do bhakta, e todos os outros deuses, ou Pais no Céu, ou Governantes, ou Criadores, e todas as teorias e doutrinas e livros, não têm propósito nem significado para eles — pois eles, através de seu supremo amor e devoção, elevaram-se acima dessas coisas por completo.

Quando o coração é purificado e

O DEUS DO AMOR.

purificado e preenchido até a borda com o néctar divino do amor, todas as outras ideias de Deus, exceto que Ele é todo Amor, tornam-se simplesmente pueris e são rejeitadas como inadequadas ou indignas.

Tal é, de fato, o poder do Para-Bhakti ou amor supremo, e o bhakta aperfeiçoado não vai mais ver Deus em templos e igrejas — ele não sabe para onde ir onde não O encontrará.

Ele O encontra no templo, bem como fora do templo; ele O encontra na santidade do santo, bem como na maldade do ímpio, porque ele já O tem assentado em glória em seu próprio coração, como a única luz onipotente e inextinguível do Amor que está sempre brilhando e eternamente presente.

Representações Humanas do Ideal Divino do Amor.

É impossível expressar a natureza deste supremo e absoluto ideal de amor em linguagem humana.

Mesmo o mais alto voo da imaginação humana é incapaz de compreendê-lo, em toda a sua infinita perfeição e beleza.

No entanto, os seguidores da religião do amor, em suas formas superiores e inferiores, sempre e em todos os países, tiveram que usar a inadequada linguagem humana para compreender e definir seu próprio ideal de amor.

Mais ainda — o próprio amor humano, em todas as suas variadas formas, foi feito para tipificar este inexprimível amor divino.

O homem só pode pensar nas coisas divinas à sua própria maneira humana.

Para nós, o Absoluto só pode ser expresso em nossa linguagem relativa.

Todo o universo é para nós uma escrita do infinito, na linguagem do finito.

IDEAL DO AMOR.

Portanto, os bhaktas fazem uso de todos os termos comuns associados ao amor comum da humanidade, em relação a Deus e à sua adoração através do amor.

Alguns dos grandes escritores sobre Para-Bhakti tentaram compreender e experimentar este amor divino das seguintes diferentes maneiras.

A forma mais baixa na qual este amor é apreendido é o que eles chamam de pacífico — o shanta. Quando um

O homem adora a Deus sem o fogo do amor em si, sem a sua loucura em seu cérebro — quando o seu amor é apenas o amor calmo e comum, um pouco mais elevado que meras formas, cerimônias e símbolos, mas de modo algum caracterizado pela loucura do amor intensamente ativo — diz-se que é *shanta*.

Vemos algumas pessoas no mundo que gostam de se mover lentamente, e outras que vão e vêm como o redemoinho.

O *shanta-bhakta* é como as primeiras — calmo, pacífico e gentil.

O próximo tipo mais elevado é o de *dasya*, ou servidão.

Surge quando um homem pensa que é o servo do Senhor — quando o apego do servo fiel ao mestre é o seu ideal.


O próximo tipo de amor é *sakhya*, ou

amizade.

“Tu és nosso amado amigo” — exclama aquele que adota este ideal.

Assim como um homem abre o seu coração ao seu amigo e sabe que o amigo nunca o repreenderá por suas faltas, mas sempre tentará ajudá-lo — assim como existe em sua mente a ideia de igualdade entre ele e seu amigo —, da mesma forma o mesmo tipo de amor flui do coração do adorador para o seu Deus — quando este tipo de amor é o seu ideal.

Assim, Deus torna-se nosso amigo — o amigo que está próximo, o amigo a quem podemos livremente contar todas as histórias de nossas vidas — e os segredos mais íntimos de nossos corações colocamos diante d'Ele com a maior garantia de segurança e

apoio.

Ele é, portanto, o Amigo a Quem

aqui aceitamos como nosso igual — como nosso companheiro de jogos.

(Pândava Gita).

IDEAL DO AMOR.

Na verdade, bem podemos dizer que o Senhor está brincando neste universo.

Assim como as crianças jogam os seus jogos, assim é o próprio Senhor Amado em esporte, criando este universo! Ele é perfeito — Ele não quer nada.

Então, por que Ele criaria? A atividade está sempre conosco para a satisfação de uma certa necessidade, e a necessidade sempre pressupõe imperfeição.

Deus é perfeito.

Ele não tem necessidades.

Então, por que Ele estaria sempre ativo e continuaria com esta obra de criação? Que propósito Ele tem em vista? As histórias sobre Deus criando este mundo, com algum fim ou outro que imaginamos, são boas como histórias, mas não de outra forma.

Portanto, não pode ser de outra forma, senão que realmente em esporte e o universo é a Sua brincadeira acontecendo! O universo inteiro deve, afinal, ser um pedaço de diversão agradável para Ele! Então o bhakta diz — ame o Senhor, o Companheiro de Brincadeiras, e desfrute do jogo.

Se você é pobre, desfrute disso como uma diversão.

Se você é rico, desfrute da diversão de ser rico.

Se perigos vierem, é boa diversão.


Se a felicidade vier, há mais boa diversão.

O mundo é apenas um playground, e estamos aqui tendo um jogo — tendo Deus conosco brincando o tempo todo! Eterno companheiro de brincadeiras — como Ele brinca lindamente! O jogo termina quando o ciclo chega ao fim e há descanso por um período mais curto ou mais longo.

Então novamente começa o jogo — novamente o universo e tudo surge para brincar com Ele — e assim continua! É somente quando você esquece que é tudo brincadeira e que você também está ajudando nessa brincadeira, que a miséria e as tristezas vêm, o coração fica pesado e o mundo pesa sobre você com tremendo poder.

Mas assim que você abandona a ideia de realidade séria, característica de todos nós, nos incidentes mutáveis desta vida de três minutos, e sabe que é apenas um palco no qual você está representando e ajudando Deus a representar — imediatamente a miséria cessa para você.

Então veja-O brincando em cada átomo — brincando quando Ele está

IDEAL DO AMOR.

construindo terras, sóis e luas — brincando com os corações humanos, e animais, e plantas! Veja que somos apenas Suas peças de xadrez.

Ele nos arranja primeiro de um jeito e depois de outro, e estamos consciente ou inconscientemente ajudando em Sua brincadeira.

E ó, bem-aventurança! somos Seus companheiros de brincadeiras!

O próximo tipo é o que é conhecido como batsalya (TTT), ou amar a Deus não como nosso Pai, mas como nosso Filho.

Isso pode parecer peculiar, mas é uma disciplina para nos capacitar a separar todas as ideias de poder do conceito de Deus.

A ideia de poder traz consigo o temor.

Não deve haver temor no amor.

As ideias de reverência e obediência são necessárias para a formação do caráter.

Mas quando o caráter está formado, quando o amante provou o amor calmo e pacífico e também um pouco de sua intensa loucura, então ele não precisa mais falar de ética e obediência às formas escriturais.

Conceber Deus como o poderoso, majestoso e glorioso Senhor do Universo, ou como o Deus dos Deuses — o amante diz que não se importa.


É para evitar essa associação com Deus, do sentido de poder que gera medo, que ele adora Deus como seu próprio filho! A mãe e o pai não são movidos por temor reverencial em relação ao filho; não se pode dizer que tenham qualquer reverência por seu filho.

Eles não podem pensar em pedir qualquer favor ao filho.

A posição do filho em relação aos pais é sempre a de quem recebe, e por amor ao filho, os pais entregariam seus corpos cem vezes.

Mil vidas eles sacrificariam por aquele único filho, e portanto Deus é amado como um filho.

Assim, a ideia de amar Deus como um filho surge e cresce naturalmente entre as seitas religiosas que creem na encarnação de Deus.

Para os maometanos é impossível ter essa ideia de Deus como um filho — eles recuariam dela com uma espécie de horror.

Mas o cristão e o hindu podem realizá-la facilmente,

IDEAL DO AMOR.

porque têm o menino Jesus e o menino Krishna.

As mulheres na Índia frequentemente se veem como mães de Krishna.

As mães cristãs também podem adotar a ideia de que são todas mães de Cristo, e isso trará ao Ocidente o conhecimento da Maternidade Divina de Deus, do qual tanto necessitam.

Assim, as superstições de temor reverencial e reverência em relação a Deus, profundamente enraizadas no âmago de nossos corações, desvanecem-se pelo poder do amor e, às vezes, leva longos anos para que, inteiramente submersas no amor, as ideias de reverência e veneração, de temor, majestade e glória com respeito a Deus se dissolvam.

Há mais uma representação humana do ideal divino do amor.

É conhecida como madkura ( ), ou doce, e é a mais elevada de todas essas representações.

Baseia-se, de fato, na mais alta manifestação de amor neste mundo, e a mais forte, conhecida pelo homem.

Que amor agita todo o

58  BHAKTI-YOGA.

natureza do homem e, percorrendo cada átomo do seu ser, o enlouquece, o faz esquecer a sua própria natureza, o transforma, o torna um Deus ou um demônio — como o amor entre homem e mulher? Nesta doce representação do amor divino, Deus é considerado e adorado como o esposo.

O bhakta diz — de fato, somos todos como mulheres dependentes do Senhor — e não há homens neste mundo senão aquele único Homem, e esse é Ele, o Amado.

Portanto, todo aquele amor que o homem dá à mulher, ou a mulher ao homem, aqui deve ser entregue ao Senhor — e todos os diferentes tipos de amor que vemos no mundo, e com os quais estamos mais ou menos apenas brincando, têm Deus como a única meta.

Infelizmente, o homem não conhece o oceano infinito para o qual este poderoso rio de amor está constantemente fluindo, e assim, tolamente tenta direcioná-lo® frequentemente a pequenas bonecas de seres humanos.

O tremendo amor pela criança que está na

IDEAL DO AMOR.

natureza humana não é pela pequena boneca de uma criança.

Se você o conceder cega e exclusivamente à criança, sofrerá em consequência — mas através de tal sofrimento virá o despertar, pelo qual certamente descobrirá que o amor que está em você, se dado a qualquer ser humano, mais cedo ou mais tarde trará dor e tristeza como resultado.

Nosso amor deve, portanto, ser dado ao Altíssimo — Que nunca morre e nunca muda — a Ele, no oceano de cujo amor não há nem vazante nem fluxo.

O amor deve ser dirigido ao seu destino certo — deve ir até Ele, Que é realmente o oceano infinito de amor! Assim como gotas de água que descem do lado da montanha não podem parar seu curso depois de formadas em um riacho ou rio, por maiores que sejam — mas no final encontram seu caminho de algum modo até o oceano — assim Deus é a única meta para a qual todas as nossas paixões e emoções irão e devem ir no fim.

Portanto, se você quer se zangar, zangue-se com

i6o Ele — repreenda o seu Amado, repreenda o seu Amigo.


A quem mais podes repreender com segurança? — Pois o homem mortal não suportará pacientemente a tua ira — mais cedo ou mais tarde haverá uma reação dele.

Se estás irado comigo, certamente reagirei rapidamente, porque não posso suportar pacientemente a tua ira.

Portanto, dize ao Amado: “Por que não vens a mim; por que me deixas assim sozinho?” E onde há qualquer gozo senão n’Ele? Que gozo pode haver em pequenos torrões de terra? É a essência cristalizada do gozo infinito que buscamos, e isso só se encontra em Deus.

Portanto, que todas as nossas paixões e emoções subam até Ele.

Elas são destinadas somente a Ele — pois se errarem o alvo e descerem, tornam-se vis.

E quando vão diretamente ao alvo, o Senhor, até a mais baixa delas se transfigura! Assim, todas as energias do corpo e da mente humanos, como quer que se expressem,

IDEAL DO AMOR.

i6r

têm o Senhor como seu único objetivo, como seu ekayana e, portanto, todos os amores e todas as paixões do coração humano devem ser dirigidos a Deus, o Amado! A quem mais pode este coração amar senão a Ele, que é a própria beleza — a própria sublimidade? Quem neste universo é mais belo do que Ele? Quem neste universo é mais apto a se tornar o esposo do que Ele? Quem neste universo é mais digno de ser amado do que Ele? Portanto, que Ele seja o esposo, que Ele seja o Amado.

E muitas vezes acontece que os amantes divinos que cantam esse amor divino aceitam a linguagem do amor humano em todos os seus aspectos como adequada para descrevê-lo. Os tolos não compreendem isso e nunca compreenderão.

Eles olham para isso apenas com o olho físico.

Eles não compreendem as agitações loucas desse amor espiritual.

Como poderiam? “Um beijo de Teus lábios, ó Amado! Aquele que foi beijado por Ti, sua sede por Ti aumenta para sempre, todas as suas dores desaparecem, e ele esquece todas as coisas”

i exceto a Ti”# — aspire àquele beijo do Amado, àquele toque de Seus lábios que enlouquece o bhakta, que faz do homem um deus! Para aquele que foi abençoado com tal beijo, toda a natureza se transforma — os mundos desaparecem, sóis e luas se extinguem, e o próprio universo se dissolve naquele único oceano infinito de Amor! Essa é a perfeição da loucura do amor.


Sim, o verdadeiro amante espiritual não descansa nem mesmo aí.

Nem mesmo o amor entre marido e mulher é louco o bastante para ele.

Os bhaktas adotam também a ideia do amor ilegítimo, porque ele é tão forte.

A impropriedade disso não é de modo algum o que eles têm em vista, mas sim seu poder e intensidade.

A natureza desse amor é tal que, quanto mais obstáculos houver para seu livre curso, mais poderoso ele se torna.

O amor entre marido e mulher é suave — ali não há obstruções.

Assim, os bhaktas adotam a ideia de uma jovem que está apaixonada por seu próprio amado, e sua mãe, ou pai, ou marido, objetando e obstruindo o curso de seu amor, tanto mais seu amor tende a crescer em força.

O autor do Sreemad-Bhagavat tratou desse tipo de representação do amor, ao tentar narrar o amor das Gopis por Krishna, a quem, por iluminação divina, elas sabiam ser o Senhor encarnado do universo.

A linguagem humana não pode descrever como Krishna foi, nos bosques de Brinda, intensa e loucamente amado — como ao som de Sua voz todas as sempre-bem-aventuradas Gopis se precipitavam para encontrá-Lo, esquecendo este mundo e seus laços, seus deveres, suas alegrias e suas tristezas!

Homem, ó homem, falas de amor divino e ao mesmo tempo és capaz de atender a todas as vaidades deste mundo! — és sincero? “Onde Rama está, não há espaço para qualquer desejo; e onde há qualquer desejo, não há espaço para Rama — estes nunca coexistem — como luz e trevas, jamais estão juntos!”♦

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?rhn w h etc.

(Tulsidas.)

Conclusão.

Quando  esse  ideal  supremo  de  amor  é  alcançado,  a  filosofia  é  lançada  fora — pois  quem  se  importará  então  com  ela?  Liberdade,  salvação,  nirvana — tudo  é  lançado  fora — pois  quem  se  importa  em  tornar-se  livre  enquanto  desfruta  desse  amor  divino?  “Senhor,  não  quero  riqueza,  nem  amigos,  nem  beleza,  nem  saber,  nem  mesmo  a  liberdade;  deixa-me  nascer  uma  e  outra  vez,  e  sê  Tu  sempre  o  meu  Amor.”#  Sim,  sê  Tu  sempre  e  sempre  o  meu  Amor — e  que  mais  poderia  eu  querer!  “Quem  se  importa  em  tornar-se  açúcar,”  diz  o  bhakta,  “eu  quero  provar  o  açúcar.”†  Quem  desejará  então  tornar-se  livre  e  ser  um  com  Deus?  “Eu  posso  saber  que  sou  Ele,  mas  ainda  assim  me  afastarei  d’Ele  e  tornar-me-ei  diferente,  para  que  eu

(Sree  Krishna  Chaitanya.)

† Rimaprasda.


possa  desfrutar  do  Amado!” — Isto  é  o  que  o  Bhakta  diz.

Amor  pelo  amor  é  o  seu  mais  alto  gozo.

Quem  não  se  amarraria  de  pés  e  mãos  mil  vezes  para  desfrutar  do  Amado?  Nenhum  bhakta  se  importa  com  nada  além  do  amor — exceto  amar  e  ser  amado.

O  seu  amor  desapegado  é  como  a  maré  que  sobe  o  rio — avançando  loucamente  contra  a  corrente  habitual.

O  mundo  o  chama  de  louco!  Sim — eu  conheci  um  a  quem  o  mundo  costumava  chamar  de  louco,  e  esta  era  a  sua  resposta — “Meus  amigos!  o  mundo  inteiro  é  um  hospício;  alguns  são  loucos  por  amor  mundano,  alguns  por  nome,  alguns  por  fama,  alguns  por  dinheiro,  e  alguns  por  salvação  ou  por  ir  ao  céu.

Neste  grande  hospício,  eu  também  sou  louco — sou  louco  por  Deus.

Se  sois  loucos  por  dinheiro,  eu  sou  louco  por  Deus.

Vós  sois  loucos;  eu  também  o  sou.  Creio  que  a  minha  loucura  é,  afinal,  a  melhor.”  O  amor  do  verdadeiro  bhakta  é  essa  loucura  ardente,  diante  da  qual  tudo  o  mais  desaparece  para  ele!

CONCLUSÃO.

Todo  o  universo  é,  para  ele,  pleno  de  amor  e  somente  amor — é  assim  que  parece  ao  verdadeiro  amante.

Assim,  quando  um  homem  tem  esse  amor  dentro  de  si,  ele  se  torna  eternamente  abençoado,  eternamente  feliz,  e  somente  essa  bendita  loucura  do  amor  divino  pode  curar  para  sempre  a  doença  do  mundo  que  há  em  nós.

Todos  nós  temos  de  começar  como  dualistas  na  religião  do  amor.

Deus  é,  para  nós,  um  ser  separado,  e  sentimo-nos  também  como  seres  separados.

O amor então surge no meio, e o homem começa a se aproximar de Deus — e Deus também se aproxima cada vez mais do homem.

O homem assume todas as várias relações da vida — como pai, como mãe, como filho, como amigo, como mestre, como amante — e as projeta sobre seu ideal de amor, sobre seu Deus.

Para ele, Deus realmente se torna tudo isso, e o último ponto de seu progresso é alcançado quando ele sente que se tornou absolutamente fundido no objeto de sua adoração.

Todos começamos com amor por nós mesmos, e as reivindicações injustas do pequeno eu tornam até o amor egoísta.

Por fim, porém, chega o pleno esplendor da luz na qual esse pequeno eu se vê tornado uno com o Uno, Infinito! O próprio homem se transfigura na presença dessa Luz do Amor! E assim, tendo seu coração purificado de todas as impurezas e desejos vãos dos quais estava mais ou menos repleto antes, ele realiza por fim a bela e inspiradora verdade de que — Amor, Amante e Amado são um só!

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ESCRITÓRIO UDVODHAN,

12, 13, Beco Gopal Chandra Neogi, Baghbazar P. O., Calcutá.